Gelateria São Paulo transforma frutas da Mata Atlântica em gelatos sazonais
Em uma cidade acostumada ao movimento das praias e ao calor constante do litoral norte paulista, a Gelateria São Paulo encontrou um caminho próprio para chamar atenção: trocar exageros por ingredientes frescos, receitas artesanais e sabores que dependem muito mais da safra do que de tendências passageiras. Em Ubatuba desde 2014, a casa criada por Marjory, advogada que decidiu mudar completamente de profissão, construiu sua identidade a partir de frutas regionais, pequenos produtores e combinações que parecem improváveis até a primeira colherada.
A vitrine funciona quase como um retrato da estação. Em um dia aparecem sabores como Manga com Pimenta Dedo-de-Moça da hortinha, Abacaxi com Anis e Zimbro, Alecrim com Iogurte, Gorgonzola com Pera ou Mexeriquinha. Em outro, algumas dessas cubas já desapareceram para dar lugar a novas receitas. Nada ali é produzido em escala industrial ou pensado para permanecer o ano inteiro. A lógica segue muito mais próxima das pequenas gelaterias italianas que inspiraram Marjory durante seus estudos sobre o universo do gelato artesanal.
Foi justamente dessa referência que nasceu a decisão de trabalhar com frutas sazonais e ingredientes disponíveis em determinados períodos do ano. A jabuticaba orgânica de Natividade da Serra, por exemplo, ganha destaque nesta temporada em uma receita que utiliza inclusive a casca da fruta para intensificar cor e acidez. Segundo Marjory, trata-se de um lote raro e especialmente aromático. O resultado entrega um gelato intenso, fresco e com textura que preserva bastante da personalidade da fruta in natura.

Outro símbolo da casa é o cambuci, fruto típico da Mata Atlântica que durante décadas permaneceu quase esquecido até por muitos paulistanos, apesar de batizar um dos bairros mais tradicionais da capital. De formato achatado, lembrando um disco voador, o cambuci possui acidez marcante e aroma herbal muito característico. Na versão transformada em gelato, o equilíbrio entre açúcar e fruta faz surgir um sabor cítrico, refrescante e bastante brasileiro, distante dos repertórios mais convencionais encontrados em grandes redes.
A relação com produtores locais também ajuda a desenhar o cardápio. O limão-cravo vem de Atibaia, cultivado pela mãe de Marjory em sistema próximo ao orgânico. Já o açaí chega de Paraty, reforçando uma conexão regional que ultrapassa os limites de Ubatuba e aproxima o litoral paulista da Costa Verde fluminense. A proposta da gelateria não é apenas trabalhar ingredientes frescos, mas criar uma espécie de mapa afetivo e gastronômico da região.
Ao longo do ano, os sabores também acompanham festas populares e ingredientes típicos de cada época. Durante junho, por exemplo, receitas como Arroz Doce e Paçoca costumam ganhar protagonismo na vitrine. Em outros momentos aparecem microlotes experimentais, feitos em quantidade reduzida, muitas vezes disponíveis por poucos dias. Marjory gosta justamente dessa liberdade de criação. Para ela, o gelato artesanal permite brincar com referências brasileiras sem limites muito rígidos. Não por acaso, uma de suas ideias mais curiosas envolve desenvolver futuramente um gelato inspirado no “sabor de mar”.
No fim, talvez seja exatamente essa combinação entre técnica italiana, frutas brasileiras e produção em pequena escala que explique o fascínio despertado pela Gelateria São Paulo. Em vez de apostar em excesso de opções permanentes, a casa prefere trabalhar com o desejo provocado pela sazonalidade. Quem chega encontra sabores que podem desaparecer na semana seguinte. E justamente aí mora parte da graça.
@gelateriasaopaulo
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