Januária Vargas
Nutrir & Sentir: como o que comemos influencia nossas emoções
Comer vai muito além de sustentar a vida. Alimentar-se também dialoga com as emoções e as sensações de prazer. Desde os primeiros dias de vida, o alimento carrega um significado afetivo: o bebê experimenta conforto, segurança e prazer ao mamar no seio da mãe. Esse contato inicial marca não apenas a nutrição física, mas também a construção emocional do ser.
Comer é também criar memória afetiva. Ao longo da vida, muitos alimentos passam a carregar memórias, imagens, cheiros e sentimentos que se entrelaçam de forma quase inseparável. Basta pensar em um prato favorito para que emoções e lembranças sejam imediatamente evocadas.
Por isso, mudanças alimentares baseadas apenas nos valores nutricionais e calóricos tendem a falhar. A alimentação não cumpre somente uma função nutritiva: ela também representa acolhimento, recompensa e prazer. Em muitos casos, o comer é utilizado como forma de aliviar sentimentos como a tristeza, angústia, ansiedade ou medo. Não é raro que determinados alimentos, especialmente os doces, sejam utilizados como tentativa de compensar conflitos internos, difíceis de resolver ou de lidar.
Comer é também união, celebração e manifestação cultural. Seja reunido à mesa com a família, no bar com amigos, uma confraternização na igreja, assistindo a um filme no cinema ou no sofá… A alimentação representa um ato social, capaz de expressar costumes, contexto socioeconômico ou aspectos psicológicos. Assim, cada refeição carrega sentimentos e símbolos próprios, que influenciam a experiência alimentar e as vivências de cada um.
Mas por que estou falando isso?
Como ex-obesa e, atualmente, nutricionista, senti na pele os efeitos de alimentos saudáveis e não saudáveis nas minhas emoções e no meu jeito de agir, além da minha relação com a comida, com o corpo e comigo mesma.
Os alimentos industrializados são desenvolvidos para oferecer prazer imediato. Ricos em açúcar, gordura e sal, são fáceis de mastigar, acessíveis e altamente palatáveis, ativando rapidamente mecanismos cerebrais ligados à recompensa e ao bem-estar. No curto prazo, podem aliviar a angústia, a ansiedade e até a depressão. No entanto, esse alívio é passageiro. O consumo frequente desses alimentos provoca oscilações bruscas de glicose e insulina, favorecendo cansaço, irritabilidade, compulsão alimentar e, a longo prazo, um estado emocional mais triste e depressivo. O prazer rápido cobra um preço emocional prolongado.
Muitas vezes, diante de sentimentos difíceis, buscamos compensar no comer excessivo. Essa tentativa de saciar a chamada fome emocional geralmente recai sobre alimentos ultraprocessados, altamente calóricos, reforçando um ciclo de prazer momentâneo seguido de culpa, vazio e insatisfação.
Em contrapartida, uma alimentação saudável - baseada em alimentos naturais, que vêm da terra, da nossa mãe-natureza - é também capaz de proporcionar prazer, mas de forma mais suave, estável e duradoura. Esses alimentos nos ajudam a lidar com a fome emocional sem provocar picos e quedas bruscas de energia, além de promoverem maior saciedade, graças à presença das fibras.
Além disso, diversos alimentos naturais contribuem diretamente para o equilíbrio do humor. Nutrientes presentes na banana, castanhas, nozes, amêndoas, cereais integrais e chocolate amargo, por exemplo, favorecem a produção de neurotransmissores associados ao bem-estar, como a serotonina e a dopamina. Esses mensageiros químicos estão relacionados à sensação de prazer, calma, energia e disposição, reforçando que a comida pode ser, sim, uma aliada da saúde emocional quando escolhida com consciência.
Intestino: o segundo cérebro
Ao longo da minha jornada na Nutrição, me encantei ao descobrir que o intestino é o nosso segundo cérebro. Sabe aquele amor à primeira vista ao conhecer algo novo, que dá aquela explosão na mente? Então, meio que eu já sentia isso, pois uma alimentação saudável me deixou mais conectada com meu eu, com a minha essência, com a natureza e até mesmo com a Criação (ou Deus, ou Universo...). Mas isso tem uma explicação científica.
O intestino é chamado de segundo cérebro porque abriga milhões de neurônios e dezenas de neurotransmissores capazes de influenciar diretamente o humor, as emoções e o bem-estar. Ele não pensa como o cérebro, mas sente, reage e se comunica constantemente com ele. Expressões populares como “vive enfezado”, “se borra de medo” ou “anda enjoado” traduzem estados emocionais profundamente ligados ao funcionamento intestinal. Constipação, diarreia ou náusea refletem, muitas vezes, desequilíbrios físicos e emocionais que se manifestam no corpo.
Grande parte dessa relação acontece porque o intestino é responsável pela produção de cerca de 95% da serotonina e 50% da dopamina, neurotransmissores fundamentais para a sensação de prazer, equilíbrio emocional, motivação e bem-estar!
Mas é importante destacar que, para o intestino funcionar bem e proporcionar todos esses benefícios, é essencial alimentar-se bem. Por isso, o consumo de fibras, é fundamental para criar um ambiente favorável para a saúde intestinal e evitar quadros de irritabilidade, tristeza, ansiedade e cansaço.
Ou seja, um intestino bem nutrido tende a ser menos “enfezado”, mais regulado e capaz de melhorar a saúde emocional. Falo mais sobre esse universo que vive dentro de nós no artigo A incrível conexão entre o cérebro e o intestino.
A digestão das emoções
O blog “Nutrir & Sentir” foi criado para ser meu espaço de reflexões acerca do alimento, do corpo, da vida e das emoções. Pois, para mim, cuidar da alimentação não é apenas uma estratégia nutricional, mas um caminho de escuta, respeito e integração entre corpo, mente e emoções. Alimentar-se é como escrever poesias, onde o alimento é o lápis, e o corpo o papel no qual as emoções estão sendo expressas e ditas em silêncio.
Assim como o alimento, as emoções também precisam ser digeridas. Quando escolhemos com consciência o que colocamos no prato, favorecemos não apenas o funcionamento do intestino, mas também o equilíbrio do humor, da energia e da forma como reagimos no dia a dia.
REFERÊNCIAS:
COMCIÊNCIA. Alimento e emoção. Disponível em: https://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-76542013000100012. Acesso em: 17 jan. 2026.
PERITIA. Quando as emoções comandam a fome. Disponível em: https://www.academia.edu/download/37126188/2.-Cronica-de-15-Dez-09_Diana-Balaias.pdf. Acesso em: 17 jan. 2026.
REVISTA MEDICINA INTEGRATIVA. A incrível conexão entre o cérebro e o intestino. Disponível em: https://revistamedicinaintegrativa.com/a-incrivel-conexao-entre-o-cerebro-e-o-intestino/ Acesso em: 17 jan. 2026




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