Tempo como assinatura
Há vinhos que impressionam pela potência e há vinhos que marcam pela profundidade que deixam depois do último gole. A Tempos Vega Sicilia pertence à segunda categoria. Em uma degustação organizada pela Mistral, importadora exclusiva no Brasil, Juan José Parra apresentou as novas safras do grupo e compartilhou a filosofia que sustenta um dos maiores nomes do vinho mundial.
Subdiretor técnico desde 2017, Juanjo construiu sua base como engenheiro agrícola na Universidad de Salamanca e se especializou em enologia na Universidad de Valladolid. Mas sua fala revela algo que vai além da técnica. Trabalhar em uma propriedade com mais de um século muda a forma de decidir. Segundo ele, a estrutura do grupo integra viticultura e tecnologia em cada propriedade, sempre conectadas por um princípio comum: honrar o solo e o material vegetal.

A tradição, explica, foi construída também por transmissão oral entre gerações. Hoje dialoga com ciência e inovação. Para ele, técnica moderna e tradição não competem. Se complementam. Desde a chegada da família Álvarez houve evolução constante em métodos e instalações, mas a uva continua sendo o centro de tudo. Sem matéria prima excepcional não existe vinho lendário. E diante das mudanças climáticas, a precisão técnica tornou se indispensável.
A degustação começou pela Hungria, com o Tokaji Furmint Mandolás 2023, branco seco que combina frescor, acidez vibrante e leve cremosidade. Na sequência, o Oremus Petracs 2020 mostrou mineralidade cristalina, profundidade e salinidade marcante, provando que a Furmint seca pode ser tão complexa quanto elegante, com fôlego para evoluir por muitos anos.
De Rioja vieram dois capítulos da parceria com a família Rothschild. O Macán Clásico 2021 equilibra tradição e precisão contemporânea, enquanto o Macán 2020 apresenta mais estrutura e ambição de guarda. Ambos revelam a capacidade do grupo de interpretar diferentes territórios sem perder identidade.

Em Ribera del Duero, o Alión 2020 mostrou intensidade controlada e maturação precisa em carvalho francês novo. O Valbuena 5º Año 2019, segundo vinho da histórica Vega Sicilia, apresentou estrutura, frescor e elegância em harmonia. São vinhos que falam alto em elegância, estrutura e capacidade para o bom envelhecimento.
O ponto alto foi o Único Reserva Especial 2020, corte das safras 2008, 2009 e 2010, sintetiza o conceito de tempo como ferramenta criativa, obviamente sem desmerecer o Único 2013, referência máxima da Espanha vitivinícola. Complexo, profundo e desenhado para atravessar décadas. Encerrando, o Tokaji Aszú 5 Puttonyos 2000 trouxe damasco, mel e acidez precisa, mostrando domínio absoluto também nos vinhos doces.
Ao comentar o futuro da Ribera del Duero, tradicionalmente associada à potência e longevidade, Juanjo defende elegância com frescor e textura. Controlar extração, ajustar datas de colheita e preservar acidez são decisões centrais. Para ele, Ribera pode unir a parte fresca e luminosa da Rioja com intensidade e estrutura, mas com taninos mais suaves e equilíbrio mais refinado.
Perguntado sobre o que a universidade não ensina, ele fala de paixão, respeito pelo patrimônio e carinho pela propriedade como se fosse parte de você. O momento mais emocionante da safra é a colheita, quando clima, maturação e intuição se encontram. Trabalhar com vinhos que envelhecerão por décadas exige visão longa e planejamento cuidadoso. Na taça, as novas safras confirmam que, para a Vega Sicilia, o tempo não é espera. É construção.
@temposvegasicilia
@mistralvinhos
O post Tempo como assinatura apareceu primeiro em Prazeres da Mesa.





COMENTÁRIOS