A beleza de compartilhar o futuro ao lado das amigas
“Meu sonho é que a gente encontre um terreno, cuide dele respeitando todos os princípios da natureza e que, nele, cada uma tenha a própria casa e a sua individualidade. Mas também que exista uma área em comum, onde possamos nos encontrar, conviver, compartilhar bons momentos e atividades.”
A frase é da cenógrafa e diretora criativa Gigi Barreto, de 50 anos, que tem planos de viver a velhice entre um grupo de quatro amigas. O cohousing — modelo de moradia descrito por ela — é uma opção para quem deseja sair do roteiro “tradicional” e imaginar outras formas de viver durante os anos que estão por vir.
As mulheres aparecem como as principais simpatizantes desse modelo, e os motivos são diversos: a maior longevidade feminina em relação aos homens, outras possibilidades além do casamento como único caminho e a tendência social de construir amizades mais fortes, íntimas e duradouras.
Gigi explica que o grupo é parte importante de sua vida há anos e que já desenhou o projeto: “Queremos fazer uma casa totalmente sustentável, mas confortável. E poder planejar uma velhice digna, acompanhada pela rede de afeto que construí, é algo muito especial.”
A ideia de envelhecer com as amigas é apenas a continuação de um apoio mútuo que já acontece entre o grupo há anos. Para ela, não se trata de depender emocionalmente de alguém, mas de compartilhar a vida em comunidade, trocar histórias e atravessar os diferentes momentos juntas.
“É saber que quando o ‘calo aperta’, você tem um colo, um abraço, alguém que te olha com carinho, mas que também puxa a tua orelha quando necessário.”
Segundo a psicóloga Giorgia Ocinschi, existem algumas particularidades na forma como mulheres constroem as relações. Em geral, existe mais aprofundamento emocional, conversas íntimas, compartilhamento de experiências e escuta genuína. Isso favorece vínculos marcados por proximidade, reconhecimento e senso de pertencimento.
Essas características possuem uma série de benefícios. “Emoções que antes pareciam exageradas ou inadequadas passam a fazer sentido. Isso reduz culpa, vergonha e autocrítica. A sensação de solidão psíquica diminui, pois aquilo que parecia isolado passa a ser compartilhado”, explica.
Ao questionar crenças disfuncionais, essas conversas podem funcionar como um “espelho organizador”, que ajudam a regular as emoções e a reconstruir a autoimagem.
Cuidado compartilhado
Quando o cuidado deixa de ficar concentrado apenas na família e passa a circular entre amigas, a carga emocional também se distribui. A mulher deixa de ocupar apenas o lugar de quem cuida e passa também a ser cuidada. Essa troca ajuda a reforçar que ela também merece acolhimento e suporte.
Desde cedo, muitas meninas são incentivadas a cuidar dos outros e a se conectar com os próprios sentimentos. Aos poucos, o cuidado é entendido socialmente como uma responsabilidade feminina. Enquanto isso, muitos meninos são educados para demonstrar independência, competitividade e autocontrole emocional.
Na balança dos relacionamentos heteronormativos, isso pode pesar para um lado. De acordo com o sociólogo Judival Júnior, muitos grupos femininos passam a se perceber como um polo desfavorecido dentro do casamento. Nesse contexto, as amizades ocupam um lugar cada vez mais central para planejar o futuro.
Para Sônia Bonetti, de 88 anos e fundadora da página Avós da Razão, a velhice não precisa seguir um modelo tradicional, e cada um encontra o próprio jeito de experimentar essa etapa da vida. Para ela, nessa fase os laços entre amigas podem ter um papel fundamental e, muitas vezes, até mais forte do que o dos relacionamentos amorosos ou familiares.
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