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Belo Horizonte,09/03/2026

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As nuances entre a independência e a ‘solidão’ de morar sozinho

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As nuances entre a independência e a ‘solidão’ de morar sozinho
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Sair da casa dos pais pela primeira vez para enfrentar o mundo é uma ambição para uma parcela dos jovens, seja pela busca incessante por independência ou até por pressão externa. Mas poucas vezes se pensa com clareza sobre a diferença que faz o tempo que passamos sozinhos, ou sobre tudo que muda dentro de seu ambiente doméstico.


É comum pensar nos pontos positivos, como ter um espaço realmente só seu, poder fazer o que quiser, quando quiser e onde quiser, sem precisar levar em conta o coletivo sempre. Mas e o restante? Há diversas nuances no ato de morar sozinho pela primeira vez.


O encontro com a própria responsabilidade


Um novo ambiente e uma nova rotina são responsáveis por um novo indivíduo que, além de tudo, tem que lidar com ele mesmo mais do que o costume. A solidão junto às novas responsabilidades podem chocar ou se tornar grandes companheiras nesse momento


O psicólogo Rubens Borges traz a filosofia para explicar melhor esse período. “Sair da casa dos pais é, para muitos jovens, o primeiro grande encontro com o que o filósofo Martin Heidegger chamava de ‘ser-no-mundo’ por conta própria.”


“Na juventude, a sede de independência brilha como uma promessa de liberdade absoluta, mas, ao fechar a porta do novo apartamento pela primeira vez, o silêncio traz um contraste imediato: a liberdade não é apenas a ausência de regras, mas a presença total da responsabilidade”, complementa.



“É o que chamamos de ‘cuidado’. Esse choque é, na verdade, o início de uma vida autêntica, onde cada escolha – do que comer à hora de dormir – define quem você realmente é, longe do ‘senso comum’ da família ou dos amigos.”



É nesse ponto que a fantasia da liberdade começa a ganhar contornos reais. Não se trata apenas de escolher o que assistir ou deixar a louça para depois. Trata-se de perceber que, agora, a rotina responde apenas a você, e isso pode ser tão encantador quanto assustador.


O medo de ‘não dar conta’


Rubens observa que esse momento costuma ser atravessado por sentimentos ambíguos. “É natural que, nesse processo, surjam inseguranças profundas. A angústia de ‘não dar conta’ ou o medo do vazio podem aparecer nos primeiros meses. Mas, em vez de fugir desses sentimentos, podemos olhá-los como sinais de amadurecimento.”


Segundo ele, a insegurança não é um defeito a ser corrigido, mas um indício de que algo importante está acontecendo. “Ela aparece porque, agora, o projeto da sua vida está em suas mãos.”


Para muitos jovens, essa percepção pesa. Não há mais uma estrutura invisível sustentando o cotidiano. Se falta comida na geladeira, é você quem precisa resolver. Se a casa está silenciosa demais, é você quem precisa lidar com esse silêncio. E é justamente aí que começa a transformação. “Habitar um lugar é um verbo contínuo”, explica o psicólogo.



“Você vai aprendendo a ser dono do seu espaço um dia de cada vez, transformando paredes vazias em um lar que reflete sua alma.”



A diferença entre estar só e se isolar


Essa construção não acontece num passe de mágica. Há dias de entusiasmo: comprar um móvel novo para a sala, testar uma receita, reorganizar o quarto. E há dias em que o silêncio parece maior do que o espaço físico. Nesses momentos, vale a pergunta: “Como saber quando esse silêncio deixa de ser um mestre e passa a ser um inimigo?”


Rubens diferencia a solidão que amadurece do isolamento que adoece. “A solidão faz parte do crescimento quando ela nos permite o diálogo interno, a descoberta de novos gostos e a paz de estar na própria companhia. No entanto, quando esse recolhimento vira um isolamento paralisante, onde o mundo lá fora parece distante demais ou assustador, a saúde mental acende um alerta.”


Em outras palavras, estar só pode ser fértil, desde que não nos desconecte da vida.


A maturidade, segundo o psicólogo, precisa expandir horizontes. “O amadurecimento deve nos abrir para o mundo, não nos fechar em uma cápsula de tristeza. Se a casa começa a parecer uma prisão em vez de um refúgio, é o momento de buscar ajuda e reconectar-se”, afirma.


Reconectar-se pode significar retomar vínculos, fortalecer amizades, procurar a família ou até iniciar um processo terapêutico.


Rituais simples que fazem diferença


Para tornar essa transição mais leve, Rubens sugere práticas simples, mas consistentes. “Nos primeiros meses, o som é um grande aliado: um podcast ou uma música de fundo humanizam o ambiente.” Pode parecer detalhe, mas o som cria presença, companhia simbólica, movimento.


Ele também recomenda criar pequenos rituais. “Cuidar de uma planta ou preparar o próprio café com calma ajuda a ‘ancorar’ sua presença no novo lar.”


São gestos cotidianos que constroem pertencimento. Não é apenas sobre decorar o espaço, mas sobre habitá-lo com intenção.


Outro ponto central é a rotina. “Estabelecer uma rotina saudável é fundamental para não se perder no caos. Tente separar bem os espaços: o lugar de trabalhar não deve ser o de dormir”, destaca Rubens.]


Essa organização ajuda a mente a entender que há tempo para produzir e tempo para descansar, algo que, morando sozinho, pode facilmente se confundir.


E há um conselho que parece simples, mas é fundamental. “Saia de casa todos os dias, nem que seja por dez minutos, para sentir o sol e ver pessoas.”


A conexão entre o mundo interno e o externo é o que impede que a solidão se transforme em isolamento. “Essa conexão constante entre o seu ‘eu’ e o mundo exterior é o que garante que mudar de ambiente seja, acima de tudo, uma mudança para uma versão mais forte e consciente de si mesmo.”


Entre o silêncio e a responsabilidade, nasce um novo diálogo consigo mesmo. E, como lembra Rubens, não se trata de fazer tudo certo, mas de aprender, aos poucos, a sustentar a própria vida com mais consciência, gentileza e coragem.


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