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Belo Horizonte,09/03/2026

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Dormir deveria ser o gesto mais simples do dia. Um recolhimento natural, quase automático, depois de tudo o que foi vivido. Mas, para muita gente, a noite virou um território hostil. O corpo pede descanso, enquanto a mente insiste em vigília; o cansaço é real, mas o sono não vem. E, quando vem, é muitas vezes aos pedaços – raso, interrompido, insuficiente. Há quem se deite exausto e acorde ainda mais cansado. Há quem adormeça rápido, mas desperte no meio da madrugada como se algo estivesse errado. Há também quem queira apenas dormir, prolongar o desligamento como forma de suportar o dia seguinte. Em comum, uma sensação difusa de que algo saiu do eixo.


A verdade é que nos acostumamos a tratar o sono como um problema técnico: faltam horas, sobram estímulos, é preciso ajustar horários, cortar telas, fazer algo para conseguir desligar. Tudo isso importa, claro. Mas, talvez, dormir mal, ou demais, não seja apenas uma falha do organismo, e sim um reflexo direto da forma como estamos vivendo, escolhendo, exigindo de nós mesmos. O sono, afinal, não começa quando fechamos os olhos. Pelo contrário, ele se constrói ao longo do dia, na maneira como lidamos com o tempo e com o cansaço, e como encaramos os limites. Dormir melhor pode ser menos sobre aprender novas técnicas e mais sobre reaprender a cuidar da própria vida.


É a partir dessa perspectiva que a médica otorrinolaringologista e especialista em medicina do sono Mariane Yui propõe um deslocamento importante: antes de olhar para a noite, é preciso observar como estamos vivendo o dia. “O sono em si não mudou biologicamente, mas nossos hábitos mudaram muito. Antes da eletricidade, as pessoas dormiam mais cedo, logo após o anoitecer, e acordam com o nascer do sol. Hoje, vivemos expostos à luz artificial e ao uso de telas até tarde, o que atrasa a liberação da melatonina, hormônio que sinaliza ao corpo que é hora de dormir. Além disso, o estilo de vida atual exige que acordemos cada vez mais cedo para dar conta de compromissos como trabalho, estudos ou academia.”


O resultado, segundo a especialista, é que vamos dormir mais tarde, acordamos mais cedo e dormimos menos do que o necessário. Ela enfatiza que esse quadro de redução crônica do tempo de sono leva à chamada privação de sono, que tem efeitos cumulativos sobre a saúde. “Dormir menos para treinar, por exemplo, pode ser tão prejudicial quanto não fazer exercício nenhum. O sono é um dos pilares da saúde, e deve ser valorizado tanto quanto a alimentação equilibrada e a prática regular de atividade física.”


Uma questão de ritmo


O que Mariane descreve, veja bem, não é um distúrbio isolado, mas um desalinhamento contínuo entre o ritmo do corpo e o ritmo da vida que levamos. Quando dormir passa a ser comprimido entre tarefas, estímulos e obrigações, ele deixa de cumprir sua função mais básica: reparar.


Quando o sono começa a falhar, é importante dizer: a dificuldade para dormir deve, sim, ser investigada e buscar ajuda não é sinal de fraqueza, exagero ou fracasso pessoal. Pelo contrário, ouvir o corpo e procurar orientação profissional pode evitar que um desequilíbrio inicial se transforme em sofrimento prolongado. Não à toa, muitas pessoas chegam primeiro ao consultório médico, como conta a psiquiatra e psicoterapeuta Roberta Candal, para quem o sono é um indicador sensível do funcionamento mental, um indicador tão relevante quanto outros parâmetros básicos do funcionamento do corpo. Assim como a pressão arterial, a oxigenação do sangue ou a frequência respiratória ajudam a avaliar a saúde física, a qualidade do sono oferece pistas importantes sobre o estado mental e emocional de uma pessoa.


“A dificuldade para dormir pode ser tanto a causa quanto a consequência do adoecimento mental. Podemos adoecer por não dormir bem de forma persistente, assim como podemos desenvolver insônia em resposta a um sofrimento mental”, enfatiza. Ainda assim, Roberta faz um alerta que evita simplificações: “Na prática clínica, o que mais aparece por trás da insônia não é, necessariamente, um diagnóstico psiquiátrico formal, mas sim um quadro situacional. Nem toda pessoa que dorme mal está doente. Muitas vezes, o sono se desorganiza porque os hábitos de vida também se desorganizaram”.


Essa constatação faz o problema sair do campo exclusivo da patologia para o território das escolhas cotidianas e, sobretudo, da forma como cada pessoa está conseguindo sustentar sua própria rotina. Para Roberta, o problema não está apenas nos hábitos em si, mas na forma como eles vão sendo abandonados quando a vida entra em modo de sobrevivência. O sono deixa de ser prioridade não por descuido consciente, mas porque falta energia psíquica para sustentar rotinas básicas de cuidado.


A psicoterapeuta observa que a exaustão crônica compromete justamente aquilo que poderia ajudar na recuperação: o cuidado de si. “No caso do cansaço crônico, o nível de energia disponível para viabilizar as tarefas de autocuidado fica comprometido. As pessoas recorrem a fontes de satisfação fáceis e de rápida obtenção, como alimentos industrializados, redes sociais, estimulantes como café e energéticos. Não realizam atividades físicas por se sentirem permanentemente indispostas”. Tais atos, ela frisa, vão na direção contrária à cura do cansaço, distorcem as percepções internas e impedem quem está cansado de repousar e se restabelecer. “Já no estado ansioso, nossos processos mentais ficam acelerados e se multiplicam, ao mesmo tempo que focamos em pensamentos relacionados a preocupações e pendências. O resultado é um estado de alerta constante, como se algo de ruim viesse a acontecer em qualquer momento.”


Desfrutar do descanso é um gesto de entrega e de respeito por nós mesmos


On/Off


A esse cenário de exaustão se soma um outro elemento menos visível, mas igualmente decisivo: a dificuldade de desligar. Para o psicólogo clínico Artur Scarpato, que há três décadas acompanha pessoas em sofrimento psíquico, o sono se tornou uma das primeiras vítimas de uma cultura que não admite pausas. Vivemos imersos em um fluxo contínuo de informações, estímulos e demandas que mantêm a mente em estado permanente de alerta. Mesmo quando o dia termina, algo em nós continua ligado, atento às notícias, às redes sociais, às comparações, às pendências que não cessam. A noite, que antes marcava o fim do ritmo externo, hoje costuma prolongar o excesso.


Não à toa, é muito complicado deixar que o dormir seja o que necessita ser por natureza. Ou seja, baixar a guarda, abandonar o controle, confiar que é possível repousar sem que tudo desmorone enquanto fechamos os olhos. O que chega ao consultório de Artur são relatos de um corpo cansado, de uma mente incapaz de desacelerar; ou, no extremo oposto, de uma sonolência constante, como se permanecer acordado fosse pesado demais. Para ele, a qualidade do sono está profundamente ligada à sensação de segurança interna. Quando estamos tomados por preocupações com o futuro, presos a experiências do passado ou atravessados por estados prolongados de ansiedade, o descanso profundo se torna difícil de acessar.


“Esta sociedade é regida pela economia da atenção, onde os serviços digitais são feitos para capturar a atenção das pessoas. O dia pode ter terminado, mas a mente se vicia em querer mais, querer saber mais notícias sobre o mundo, sobre um hobby, sobre a vida dos outros. Há uma forte excitação emocional neste processo, que leva as pessoas a uma ansiedade de não querer perder nada, como na expressão americana Fear of Missing Out (FOMO). Assim, muitas pessoas ficam com o celular na cama antes de dormir, olham no meio da noite ou logo que acordam. Tudo isso contribui para uma desregulação dos ciclos de sono e vigília, atividade e repouso, como se nos tornássemos seres sempre ligados “, comenta o psicólogo.


Artur observa que, nesse contexto, o dormir passa a ser visto quase como um obstáculo, um tempo improdutivo em uma sociedade que valoriza desempenho constante, consumo e intensidade. “Nesta cultura, o dormir é visto negativamente, assim como a preguiça, o ócio e a lentidão. É uma sociedade que não precisa de mecanismos de coerção externa, pois consegue funcionar por processos de pressão interna auto impostos pelo próprio sujeito, com cobranças de alto desempenho profissional, afetivo ou social.” O resultado, segundo ele, aparece no corpo e na mente: ansiedade, depressão e, quase sempre, perturbações do sono. E o quadro piora quando envolve experiências traumáticas não elaboradas. “O trauma psicológico permanece ativo dentro de nós como memória traumática. Após o trauma, a pessoa perde o sentimento de segurança e tende a viver cronificado num estado de luta, fuga ou congelamento. Em ambas as situações, o sono é afetado.” Segundo o especialista, sentir-se seguro é uma condição fundamental para dormir bem e, quando essa segurança interna não existe, o sono passa a funcionar como um termômetro do desequilíbrio emocional.

É preciso deixar que o dormir seja o que necessita ser por natureza. Ou seja, baixar a guarda, abandonar o controle, confiar que é possível repousar sem que tudo desmorone enquanto fechamos os olhos.


Depois de um dia soterrado por estímulos diversos, a mente se mantém ligada


Voltar a dormir


Se o sono é sensível à forma como vivemos – até mesmo maltratado por ela –, reorganizá-lo passa menos por soluções imediatas e mais por escolhas possíveis. Não há fórmulas universais, nem um roteiro rígido que funcione para todos. Há, porém, alguns pontos de apoio que ajudam o corpo a reencontrar ritmo e previsibilidade, condições básicas para que o descanso aconteça. Dormir melhor, nesse contexto, não é uma meta a ser batida, disputando atenção com tantas outras, mas um processo que pede constância, gentileza e paciência com o próprio tempo.


Encontrar esse equilíbrio se torna ainda mais desafiador, e necessário, em fases da vida em que o descanso é naturalmente fragmentado, como quando há filhos pequenos em casa. Nessas etapas, dormir bem raramente significa dormir muito. Significa, antes, cuidar do que está ao alcance: respeitar limites, reduzir excessos, buscar pequenas pausas possíveis e aceitar que o sono também atravessa ciclos. Mesmo em noites mais curtas, é esse cuidado cotidiano que nos ajuda a não entrar em exaustão permanente.


Para a médica otorrinolaringologista e especialista em medicina do sono Mariane Yui, há fatores centrais para uma transformação efetiva. “A primeira mudança é ter um horário regular para dormir e acordar, mesmo nos fins de semana. A segunda é se expor à luz do sol, principalmente no período da manhã. Essas duas medidas ajudam a regular o relógio biológico.” A terceira, segundo ela, envolve desacelerar de forma concreta: “Reduzir o uso de telas e luz forte pelo menos uma hora antes de dormir e criar um ritual de desaceleração antes do sono, como leitura leve ou meditação”.


Mais do que regras, essas orientações servem para devolver ao corpo sinais claros de início e fim do dia, algo que muitos de nós perdeu ao longo do tempo. E isso vale também para quem dorme muitas horas, mas acorda sem se sentir restaurado. “Nem sempre dormir mais resolve o cansaço”, lembra Mariane, ao destacar que sono fragmentado, despertares frequentes e sonolência diurna persistente também são sinais que pedem investigação e cuidado.


Do ponto de vista da saúde mental, a psiquiatra e psicoterapeuta Roberta Candal reforça que cuidar do sono exige olhar para além da noite. “O tratamento da insônia no contexto médico é baseado no tratamento da causa da dificuldade de dormir”, explica. Em muitos casos, isso significa rever hábitos, reduzir sobrecargas e reorganizar a rotina antes mesmo de pensar em medicamentos. “E se houver necessidade de medicação, visamos sempre o menor tempo possível de tratamento e o estabelecimento das rotinas de higiene do sono e hábitos saudáveis de vida.” Para ela, esse acompanhamento é fundamental para que o remédio não oculte aquilo que precisa ser visitado. “Qualquer medicamento que interfere no funcionamento psíquico pode mascarar conteúdos que seriam tratados em terapia.”


Há, portanto, um convite implícito em tudo isso: escutar o sono como linguagem. Já que no fim, dormir melhor não se resume a cumprir protocolos ou acumular dicas, mas a criar condições para que o corpo volte a confiar. Ajustar horários, reduzir excessos, buscar ajuda quando necessário e reconstruir espaços de pausa ao longo do dia são gestos simples e, justamente por isso, transformadores. Quando a vida desacelera um pouco, quando há mais cuidado com os limites e menos exigência permanente, a noite encontra caminho para fazer o que sempre soube: acolher, reorganizar e cuidar.


Talvez o maior aprendizado seja aceitar que dormir bem não é um desempenho a ser alcançado, mas um estado que se permite acessar, a partir do cultivo de escolhas conscientes e respeitosas. Para tanto, é preciso escutar nossos limites com honestidade. Algo que a autocompaixão sabe fazer muito bem. Pode recorrer a ela.


Quando o descanso deixa de ser uma obrigação e passa a ser consequência de uma vida minimamente habitável, o sono encontra espaço na nossa rotina. E, pouco a pouco, volta a cumprir seu papel mais essencial: nos devolver inteiros ao dia seguinte.


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