Como as apostas mudaram a relação com o dinheiro
Quando você vê R$ 20 na conta, eles têm um tamanho bastante concreto. Dentro de uma plataforma de apostas, os mesmos R$ 20 já valem outra coisa. A comparação deixa de ser com o quanto você tem e passa a ser com o quanto pode ganhar. O valor disponível continua sendo o mesmo, mas a promessa de multiplicação muda a referência. Perder 20 reais pode parecer pouco perto de 200 ou 2 mil hipotéticos, ainda que esse dinheiro faça diferença para quem tem um orçamento apertado.
Essa experiência entrou no cotidiano de milhões de brasileiros. Com famílias endividadas e pessoas de todas as idades jogando (inclusive aquelas que, na teoria, não poderiam apostar), virou uma cena comum ver alguém no ônibus, de manhã cedo, antes mesmo de chegar ao trabalho, perdendo mais do que ganha no próprio dia.
Depois de nove anos (mais de cinco deles sem regulamentação) desse mercado crescendo desenfreadamente, a Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro de 2026, proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país. A medida já está em vigor, embora ainda precise ser analisada pelo Congresso para se tornar lei em definitivo. Desde 6 de outubro, sites e aplicativos devem permanecer indisponíveis para apostas.
A retirada das plataformas muda o cenário, mas deixa uma pergunta sobre os anos em que elas ocuparam celulares, propagandas e transmissões esportivas. O que acontece com nossa relação com o dinheiro depois de conviver diariamente com a possibilidade de multiplicá-lo quase instantaneamente?
Alan Raimondi, sócio e assessor financeiro da Invest Smart XP, observa que a construção de patrimônio funciona em outro ritmo. Salário e reserva dependem de tempo e constância. Em sua avaliação, a repetição da promessa de ganho rápido pode fazer uma estratégia gradual parecer lenta demais diante da possibilidade de conseguir em pouco tempo uma quantia que normalmente exigiria meses ou anos.
A distância entre o salário e o prêmio
Para quem recebe pouco e já sente que dificilmente vai conseguir mudar de condição apenas com o salário, essa diferença pesa ainda mais.
Carolina Mattos, psicóloga e neuropsicóloga, explica que o prêmio imaginado pode ocupar um lugar maior do que o valor que aparece na tela. “A promessa de ganhar dinheiro rapidamente pode deixar de representar apenas um ganho financeiro. Ela passa a representar uma saída.”
Quitar uma dívida ou finalmente conseguir algo que vem sendo adiado entram junto naquela aposta. “Muitas vezes, a pessoa não aposta apenas em um resultado: aposta em uma versão diferente da própria vida”, afirma.
Resumir esse movimento à vontade de ganhar “dinheiro fácil” diz pouco sobre quem aposta. Se uma pessoa trabalha todos os dias e ainda assim se sente distante da vida que gostaria de ter, a aposta oferece uma resposta imediata para uma frustração que o salário e a construção de uma reserva dificilmente resolvem no mesmo ritmo.
O problema é que dificilmente será apenas uma tentativa. R$ 10 agora, mais R$ 10 em seguida, outros R$ 15 depois. Vistas separadamente, as perdas ainda podem parecer pequenas. Somadas ao longo do dia ou do mês, passam a ocupar um espaço muito maior na fatura.
Ao mesmo tempo, muda a referência usada para pensar recompensa. Passar oito horas trabalhando para receber determinada quantia convive com a chance de conseguir algo parecido em poucos minutos pelo celular. O salário continua necessário e concreto, mas o tempo exigido para obtê-lo passa a dividir espaço com outra experiência de dinheiro, muito mais rápida e imprevisível.
O improvável começa a parecer alcançável
Nem é preciso ganhar para a aposta continuar ocupando espaço. Carolina explica que parte da força desse comportamento está justamente em não saber em qual tentativa a recompensa virá. A antecipação do resultado ajuda a manter a repetição.
Aos poucos, apostar pode se encaixar em momentos que antes não tinham qualquer relação com isso. O salário cai, começa uma partida de futebol ou aparece um anúncio no celular e a vontade reaparece. Carolina descreve um “estreitamento da vida”, em que as apostas passam a consumir mais atenção, tempo e energia. A pessoa continua trabalhando, conversando ou tentando dormir, mas uma parte do pensamento já está voltada para a próxima oportunidade de jogar.
Essa expectativa também foi alimentada pelo tipo de resultado que ganhou visibilidade nas redes sociais. Você vê a viagem, o carro caro e o estilo de vida invejável. Dificilmente vê as dívidas, as tentativas frustradas ou quanto aquela pessoa recebeu justamente porque seus seguidores perderam dinheiro nas plataformas que divulgava.
Para Carolina, essa assimetria pode distorcer a percepção de probabilidade. A repetição de histórias de sucesso faz um acontecimento excepcional parecer mais frequente e alcançável. E a identificação com quem divulga as apostas reforça essa impressão. Quem está na tela fala a mesma língua do público, compartilha partes da própria rotina e apresenta sua trajetória como algo que poderia ser reproduzido.
A publicidade passou a sofrer restrições cada vez maiores ao longo deste ano. Em julho, novas regras obrigaram anúncios a exibirem advertências sobre dependência e perdas financeiras e ampliaram a responsabilidade de quem participava da divulgação. Dois meses depois, a medida provisória proibiu publicidade e patrocínio das apostas de quota fixa. A mudança acontece depois de anos em que os resultados positivos receberam muito mais visibilidade do que o dinheiro perdido para alcançá-los.
A tentativa de recuperar
Depois que as perdas começam a se acumular, a motivação para apostar também pode mudar. O dinheiro colocado em jogo já não carrega somente a expectativa de aumentar o que se tem. Ele passa a carregar o peso do que já foi perdido.
Carolina explica que, para alguém já envolvido emocionalmente, perder pode aumentar a urgência de continuar. “Uma nova aposta passa então a carregar uma missão psicológica: reparar a anterior.”
Nesse ponto, parar significa aceitar que aquele valor não voltará. Continuar conserva a chance de reduzir o prejuízo com um acerto. É essa expectativa que ajuda a entender por que uma decisão que parece contraditória para quem olha de fora pode fazer sentido para quem está dentro do ciclo.
A conta deixa de começar do zero a cada tentativa. Enquanto houver outra aposta possível, permanece aberta a ideia de que a situação ainda pode ser revertida.
Com isso, decisões futuras passam a responder também a um prejuízo anterior. Parte do dinheiro disponível deixa de ser pensada somente a partir das necessidades presentes e passa a ser disputada pela expectativa de recuperar aquilo que já foi gasto.
A procura por ajuda mostra até onde esse processo pode chegar. Desde agosto, o SUS oferece até 100 mil teleatendimentos mensais para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas e seus familiares. Em 1º de outubro, o Ministério da Saúde informou que o serviço digital já havia registrado mais de 170 mil acessos. O número reúne diferentes tipos de atendimento e não corresponde a diagnósticos de dependência, mas indica uma demanda que ganhou dimensão suficiente para exigir uma estrutura específica de cuidado.
A retirada das plataformas muda o acesso às apostas, mas não desfaz imediatamente a lógica construída durante os anos em que elas estiveram disponíveis a qualquer hora no celular. Também não devolve o dinheiro perdido nem elimina a expectativa que sustentou muitas tentativas.
Encerrar esse ciclo exige lidar com uma conta que já não pode ser refeita por uma próxima aposta. E, para quem passou muito tempo acreditando que o resultado seguinte ainda poderia reorganizar as perdas anteriores, essa possibilidade pode ser mais difícil de abandonar do que o próprio aplicativo.
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