Ângela Barbosa Dias
Os Desdobramentos da Maternidade - Epílogo
Fiz essa tatuagem em agradecimento à Nossa Senhora que em todo o processo do Lolô, ela nunca nos abandonou... mãe é mãe,né? Mães entendem as dores das outras mães
Impactados pelo estado atual do Lorenzo e não podendo permanecer com ele ali no atendimento, meu coração parou por algum tempo, era uma angústia e um medo assoberbado, que precisei que as lágrimas pudessem cair para acalmar minha alma. Era necessário fé e coragem para enfrentar aquele novo cenário. Mesmo tomados pelo desespero, o papai do Lolô precisou de entrar em contato com os médicos, para sinalizar o que estava acontecendo, naquele instante eu implorava que Nossa Senhora que é mãe, guardasse e protegesse a vida do meu filho.
Transfigurados pelo medo, fomos chamados pelas médicas de plantão , que esclareceram que Lolô estava tendo vários episódios de Convulsão, que o estado dele era gravíssimo, que ele precisaria ir para um leito da UTI e aquela Unidade Hospitalar não tinha essa modalidade Pediátrica, mas que ele ficaria internado, aguardando uma transferência, pedimos que entrassem em contato com a oncologista dele e passasse o caso.
Administrando toda aquela apreensão, pedíamos a Deus que nosso filho tivesse todo suporte necessário para atender às demandas da sua enfermidade naquele momento.
Bombardeados com as falas eos olhares das médicas, precisávamos filtrar aquelas informações tão pesadas e manter uma oração de confiança do amor de Deus sobre a vida do nosso Lolô.
Estávamos desde setembro atravessando o desconforto desse diagnóstico, era um deserto emocional, mas não iríamos esmorecer, tinha um menino muito amado lutando para continuar conosco, em nossa família.
Movida pelo amor mais profundo e puro, assim que o Lolô foi para um leito no hospital, fui ao encontro dele, falei no ouvidinho dele:
- A mamãe está aqui ;
- Mamãe ama você, dei beijinho e segurei na mãozinha dele.
Nos bastidores do meu coração, vi naquela noite ele lutando pela vida; máscara pulmonar, oxigênio, soro, medicações e outros aparatos, mas permanecia ali com ele, e ver as pessoas com aquele olhar de pena, feria minha humanidade, Lolô era um pequeno grande guerreiro lutando pela vida, e o amor de sua família o encorajava a continuar.
Fragilizado por tudo que o nosso pequeno estava passando, o papai do Lolô precisou ir para casa, explicar para o irmão o que estava acontecendo e durante toda noite fui passando as notícias do nosso pequeno.
A Oncologista enviou mensagem que de manhã ela iria ao hospital.
Ao amanhecer, a enfermeira trouxe o Kit de intubação, aquilo me causou um medo extremo. Quando a Pediatra de Plantão chegou, disse que era necessário realizar esse procedimento, então, pedi que aguardasse a oncologista chegar, ela estava a caminho do hospital, precisava do parecer dela que já estava ciente de toda situação do meu Lolô.
Esmorecida pelos últimos acontecimentos e sobressaltada com tantas informações, a palavra intubação me causava pânico, ali grudada com meu Lolô, pedia a Nossa Senhora sabedoria e calma para fazer o melhor para saúde dele. O pai do Lolô já estava no hospital, aguardando a Oncologista.
Sem meias palavras, a Oncologista explicou minuciosamente o que estava acontecendo, por ser um tumor extremamente agressivo, a convulsão era um dos sintomas altamente preocupante, ela estava associada a forte dor de cabeça, que por isso era necessário mantê-lo sedado. Revelou que a situação dele era gravíssima e que precisávamos nos preparar porque Lolô tinha pouco tempo de vida.
Meu Deus, era impiedoso demais ouvir aquelas palavras, não pude me conter, a carga emocional foi tão grande que as lágrimas eram insuficientes para acalentar meu coração, senti-me esvaziada de qualquer sentimento, era um luto antecipado que a maternidade não me deu ferramentas para suportar, ali naquela sala experimentei a incapacidade humana de salvar a vida do meu filho.
Ainda devastados, a Oncologista continuou dizendo sobre a necessidade de intubar o Lolô e que ele precisaria ir para uma UTI.
Sucumbidos pela dor e cientes de tudo que tínhamos ouvido, eu e meu marido, o pai do Lolô, entendemos que o quadro dele, infelizmente, era avançado e irreversível, já não havia nada na medicina que pudesse ser feito para impedir a evolução do Câncer e suas sequelas. Com o coração despedaçado, decidimos que não iríamos permitir a intubação, era sacrifício demais para nosso pequeno, geraria mais sofrimento para ele, então pedimos que Lolô fosse poupado de qualquer dor e desconforto e que queríamos ficar com ele, não deixaríamos ele sozinho na UTI.
Com muita empatia, a Oncologista entrou em contato com o diretor do hospital, onde Lorenzo iniciou seu tratamento, e pediu um quarto com todo suporte da UTI, para que pudéssemos ficar com ele , atravesssaríamos juntos, em família, aquela situação, não faltaria amor e carinho como nosso filho amado.
Buscando acomodar no coração os estágios terríveis que essa enfermidade apresenta, retornei para o leito e conversei com Lolô, que ele ia para outro hospital de ambulância, que a mamãe iria com ele.
Ali ficamos aguardando; assim que ambulância chegou, a equipe veio buscá-lo, ouvi naquela ambiência, algumas falas cruéis e insensíveis, que Lolô não resistiria a transferência. Foi desolador ,o medo se instalou no meu coração, pedi que Nossa Senhora intercedesse pela vida dele , e que toda minha dor naquele instante fosse transformada em perdão, era desumano aquelas pessoas sepultarem meu filho vivo.
Mas com muita fé , Nossa Senhora enviou um guardião de anjos naquela ambulância, com muita compaixão e empatia os profissionais fizeram todo o manejo com ele com muita calma e paciência, demonstraram um carinho extremo em cada detalhe.
Já na ambulância me acolheram e encorajaram a não desistir, ali fui segurando a mãozinha dele e agradecendo a presença amorosa da Mãezinha do céu que passou a frente e enviou pessoas de bom coração para me ajudar a caminhar. Percebi naqueles momentos que minha maternidade era uma oportunidade de viver a plenitude do poder curativo do próximo na vida da minha Família.
Parecendo tudo desabar ao nosso redor, o papai do Lolô passou para nossa família o quadro real do Lorenzo, alguns familiares foram para o hospital aguardar a chegada do Lorenzo na outra Unidade Hospitalar. Foi um momento de muito acolhimento e apoio.
Naquele contexto tão doloroso, eu não tinha palavras para dizer o que meu coração carregava, meu desejo era só ficar grudadinha nele, foi muito exaustivo aquela transferência, o corpinho estava frágil demais, mas ele era um exemplo de coragem , enfrentando uma grande batalha pela vida.
A Oncologista chegou no hospital, reforçou a necessidade da Morfina, para poupar qualquer desconforto de dor, ele estava lutando bravamente para se manter conosco, eu sei que ali, ele não podia falar mas sentia em cada respiração seu esforço para não nos deixar. A médica liberou algumas visitas, para que pudesse estar com ele, nesses últimos momentos .
Nós, o papai e a mamãe, enchíamos Lolô de amor, de beijinho e de carinho e com muita resiliência e fé acreditávamos no Deus que realiza milagres e que nos fortalecia a seguir em frente com ele e por ele.
Mesmo tudo parecendo incerto e intransponível, buscava alimentar serenidade e um sopro de esperança. Mas na madrugada daquele sábado, fui visitada por uma dor dilacerante, ver Lolô apresentando uma disfagia, que era uma dificuldade para engolir a saliva, foi difícil demais, fui tomada pela angústia, era preciso fazer aspiração nasal, eu como mãe vi que aquele procedimento o incomodava e eu não podia fazer nada para impedir aquele sofrimento. Nesses momentos segurava a mãozinha dele, para que ele soubesse que não estava sozinho e pedia a Nossa Senhora que pudesse sustentá-lo.
Lolô estava lutando do seu jeitinho, demonstrando força e coragem, então colocava tudo nas mãos Deus.
Minha maternidade não me autorizava a desanimar, eu tinha confiança de que nossos amigos e familiares estavam nos embalando através da oração para nos amparar diante aquela realidade.
Naquela domingo, recebemos a visita de alguns familiares, momentos tomados de carinhos e significados . O papai nesse dia trouxe uma pessoa muito especial, seu irmão Henzo que veio passar o dia conosco.
O papai teve uma ideia genuína de trazer os brinquedos preferidos do Lolo, arrumamos tudo pertinho dele, colocamos seus adesivos na mãozinha e compartilhamos lembranças memoráveis de nossa família.

Henzo, na sua pureza e na sua sabedoria infantil conversou, brincou e relembrou com ele suas bagunças preferidas, temos a certeza que Lolo ouviu tudo e o seu coração ficou quentinho com tanto amor, talvez, Henzo não entendesse a gravidade que habitava naquele quarto, mas era um menino tão gentil que sempre demonstrava um amor incondicional ao seu irmão querido e companheiro de travessuras e vida.
Tentando não sabotar minha esperança, diante de tanta dor, recebemos a visita do responsável pelos Cuidados paliativos daquele hospital, momento de muito acolhimento e empatia conosco.
Fez questão de ouvir nossa fala, queria saber como tudo aconteceu e como estávamos organizando emocionalmente aquele momento, o que estávamos sentindo, perguntou sobre o irmão, os avós... foi muito significativo e importante aquele movimento, nos permitiu desabafar tudo aquilo que nosso coração trazia nesse tempo de luta.
Depois de nos ouvir e nos confortar, disse que precisava explicar sobre essa nova fase, iniciou dizendo que o Câncer acarreta mazelas terríveis ao seres humanos, que o corpo vai perdendo a luta e falhando nas suas funções vitais, continuou pontuando tudo o que iria acontecer detalhadamente, ali, eu e o papai do Lolô ficamos em silêncio, porque não existia nenhuma palavra para transmitir nossa dor, nossa angústia e nossa incapacidade de reverter aquele quadro.
O trabalho dessa equipe multidisciplinar era melhorar a qualidade de vida dos pacientes, aliviando sofrimento através do controle da dor, buscando amenizar qualquer desconforto no paciente e amparar a família nessa etapa tão dolorida.
O médico paliativista ficou muito sensibilizado, por que se tratava de um menininho de apenas 5 anos, lutando pela vida, disse que enviaria um psicólogo para dar suporte a família. Naquele instante o chão desapareceu, as lágrimas transbordaram, o coração parecia desmoronar, sentíamos que estávamos perdendo aquela batalha.
Aqueles dias experimentei um luto antecipado, aquele território era de muito sofrimento, tudo estava fora do meu controle , senti meu coração gemendo, as lágrimas conduziam minha impotência, em alguns momentos, precisava suplicar que Nossa Senhora colocasse minha família no seu manto Sagrado, eu e meu pequeno Lolô continuamos a pedir a cura, rezando e suplicando um milagre, coloquei o tercinho na sua mãozinha como fazíamos em casa, não faltava fé, oração e esperança nos nossos corações.

No limite do amor, Lorenzo era um grande guerreiro, lutando para ficar mais um pouco conosco, não estava fácil, mamãe via seu esforço, suas intercorrências respiratórias e seu corpinho debilitado.
Quando perdia a veia, era uma luta para conseguir novamente, eu implorava que mexesse nele bem devagar, eu não desgrudava dele, orava baixinho no silêncio do meu coração, pedia para a Mãezinha colocar ele no seu colo e me ajudar a maternar nesse campo de tanta dor e sofrimento, não deixar que essa tempestade esmorecesse minha fé.
Dia 27 de abril de 2021, quarto dia de internação, Lolô vinha lutando bravamente pela vida, eu valorizava seu esforço em cada respiração, tudo era muito pesado, ali naquele ambiente, a infância estava escamoteada, eram tantos protocolos a ser seguidos que era um ciclo doloroso demais para qualquer criatura , imagina para um menino de apenas 5 anos.
Naquele dia a enfermagem organizou um mutirão para dar banho no leito, enquanto organizavam a troca dos lençóis, elas me arrumaram na poltrona e colocaram meu pequeno no meu colo, que saudade de tê-lo em meus braços novamente, ficamos ali juntinhos abraçados... foi um momento memorável do amor mais sensível e puro, eu queria poder estacionar as horas e permanecer ali para sempre com ele.
Aquele momento foi um presente para minha maternidade que vivia um sentimento de dor inatingível na lógica humana.
Mas ao decorrer desse dia, depois de desfrutar aquele momento tão precioso, às 15h vimos os equipamentos anunciarem que Lolô estava no seu limite, sua vida estava por um fio, meu Deus foram dificílimos aqueles instantes, mas Lolô insistiu e resistiu e com muita coragem permaneceu ali conosco.
Logo fomos amparados por toda equipe, o Médico Paliativista de forma bem humana, compreendendo que estávamos passando pelo momento mais avassalador da vida da nossa família, com muita tranquilidade disse que Lolô tinha chegado em uma situação irreversível e a despedida se aproximava.
Foi demais tudo aquilo, ali precisei me agarrar no amor de Nossa Senhora, a dor era imensurável, eu precisava reconstruir internamente o que não foi programado pela lógica da vida.
Nos debruçamos e ficamos ali com ele, senti que seu corpinho estava cansado demais, ele foi um guerreiro insistiu e não desistiu.
Nossa Senhora nos ofertou mais 3 horas com ele, ficamos ali juntinhos, contudo às 18h foi extremamente dificil...Ali diante aos nossos olhos ele deu seu último suspiro, o papai muito forte e admirável disse para o Lorenzo que ele poderia ir em paz e que íamos amá-lo para sempre, que ele foi forte e corajoso e nunca nos esqueceríamos dele. Fizemos uma oração e entregamos nosso tesouro.
Calei-me no silêncio mais profundo, vazio e desolador que uma mãe pode passar.
Termino este capítulo, agradecendo a todos que acompanharam a jornada do pequeno Lorenzo.
Quando alguém recebe o diagnóstico de Câncer na família, é tão brutal, que todos adoecem juntos, lutamos bravamente pelo nosso filho, Lolô foi um pequeno grande guerreiro, incansável na sua caminhada de cura, ele só tinha 4 anos quando tudo começou e foi um gigante nessa batalha.
Pedimos muito um Milagre a Nossa Mãezinha do Céu, mas sei que Ela intercedeu por ele, não aos nossos olhos terrenos, mas no céu, lá eu sei que ele agora pode viver sua infância plenamente, andando, falando, cantando, correndo, brincando e fazendo suas bagunças...sendo criança na sua plenitude.
Com muita fé, sempre compartilhei minha maternidade com Nossa Senhora, exemplo inigualável de mãe, hoje sei que ela materna ao lado do meu pequeno cuidando e amando.
Somos uma família comum, que tivemos a honra e o privilégio de ser pais de um menino tão extraordinário que mudou nosso olhar pela vida. Ele veio ao mundo para nos ensinar o amor mais desprendido, a olhar o próximo com gentileza e a amar sem reservas.
Gratidão é o nosso sentimento hoje de ter compartilhado esses 5 anos com o nosso Lolô, um tempo de muita aprendizagem, experiências e resiliência.
Nossa família foi abençoada por ter recebido esses dois meninos incríveis e encantadores, que trouxeram o verdadeiro encantamento da maternidade.
A Saudade ainda é devastadora demais ,porque o amor é muito grande, nunca briguei com minha saudade, porque através dela recordo momentos inesquecíveis que o tempo não apaga.
Nesse trajeto de dor, eu vivo um dia de cada vez. Precisei na minha maternidade reescrever essa história. O Henzo não podia ser penalizado por essa dor, ele também tinha direito de ter uma mãe e uma família, o luto tem um sabor amargo demais e devolver alguém que amamos é muito dolorido, mas vamos seguindo encorajados pelo amor mais puro que nosso pequeno depositou em nós.
Minhas páginas tem algumas cicatrizes e memórias eternas do bem mais precioso que chamamos de FILHOS.
Lorenzo será para sempre nosso raio de luz, que apesar da sua tenra idade foi incrível e insubstituível na nossa família...
Se Deus me perguntasse hoje se queria ser mãe do Lolô e passar por tudo novamente, eu aceitaria com muito amor.
Tenho certeza de que Lolô tocou a eternidade impactando a vida de quem conheceu sua história e jamais será esquecido.
Finalizo compartilhando com vocês que em novembro de 2021 conhecemos um projeto chamado Bosque da Memória, um lugar incrível de beleza natural que nos transmite vida, plantamos um lindo IPÊ amarelo em sua homenagem e participamos do livro, contando um pouco da vidinha desse guerreiro.

Que possamos olhar seu IPÊ com os olhos da alma e perceber que plantar uma árvore é plantar vida. E ver sua árvore florir é ter certeza de que Lorenzo continua vivendo.
Encerro dizendo que nosso pequeno Lorenzo deixou um legado de Amor e coragem.
Lolô, saiba que nos nossos corações você sempre estará, nosso amor contigo vai seguir, o amor nos une para sempre.


Lorenzo Costa Barbosa nasceu em 28/11/2015, carioca, estudante, flamenguista, levado, bagunceiro, "cozinheiro", carinhoso e corajoso. Devolvi para Deus em 27/04/2021...





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