Ângela Barbosa Dias
Os Desdobramentos da Maternidade - Cap 09
Lorenzo - Arquivo PessoalVirando a página de 2020, iniciamos o novo ano renovando nossas esperanças e ansiosos com a resposta do tratamento da Radioterapia, nesse processo depositamos nossas expectativas em dias melhores na nossa família.

Atravessar todas essas esperas, me fez potencializar minha fé, principalmente pela presença amorosa de Nossa Senhora, que sempre foi meu refúgio quando o fardo estava pesado e eu não conseguia carregar sozinha, minha arte de maternar estava pautada no amor mais sublime e puro desse exemplo de mãe.
Enfim, chegou o dia da consulta com o Radio Oncologista, levamos a Ressonância Magnética realizada em dezembro, aqueles momentos em que o médico examina e não fala nada, o coração ficou amedrontado pela incerteza, eu elevava minha oração a Deus, pedindo que tudo tivesse dado certo. Depois de algum tempo o médico disse que ocorreu a regressão do tumor com o tratamento da Radioterapia.
Meu Deus, ouvir aquela notícia tão aguardada deixou nossos corações aliviados, ficamos gratos por todos que rezaram pelo nosso pequeno, ali iniciávamos o novo capítulo de esperança e gratidão.
Aquele resultado nos trouxe sobrevida e força para continuar, embora sabíamos que Lolô precisaria de cuidados , aquele momento fortaleceu toda nossa fé e confiança que nosso pequeno seria curado.
Nesse período, resolvemos levar nosso pequeno para passear então ele pediu para ir à praia , a mamãe encheu de protetor, chapéu, camisa, tudo para proteger do sol por causa dos efeitos da Radioterapia. Foi um dia incrível de brincadeiras na areia, interação ao ar livre, catar conchinha com o irmão.... compartilhamos momentos encantadores em família.
Desfrutando de dias mais leves, o papai do Lolô teve uma grande ideia nesse período de férias, tirar uns dias para viajarmos, com muita cautela e cuidado reservamos uma casa, com muitas sombras para colocar uma piscina para o Lolô e o Henzo brincarem com segurança, protegidos do sol . Curtimos momentos mágicos, com ganhos emocionais inestimáveis, criando memórias duradouras e significativas dessas riquezas que chamamos de FILHOS.
Permitindo-nos viver momentos prazerosos, cumprimos a promessa de fazermos um delicioso piquenique, pois quando o Lolô estava internado, a janela do seu quarto dava para a Quinta da Boa Vista e lá ele via o colorido da infância, crianças correndo, brincando, andando de bicicleta e seus olhos fixavam naquelas imagens, então resolvemos levá-lo para fazer esse passeio, preparei todas suas guloseimas preferidas e foi um dia notável, ficamos ali bem juntinhos, mamãe, papai e filhinhos, aproveitando, rindo, saboreando as delícias, como qualquer família comum... essas pequenas pausas enriqueceram o repertório de amor , união e felicidade.
Impulsionados pelo resultado da Radioterapia e respirando com mais confiança, que tudo voltaria aos poucos, renovamos a matrícula do Lolô na escola e compramos seu material escolar para ele iniciar o pré 2, pois a eu, sua mamãe, o estava alfabetizando em casa, aquele canhotinho era muito inteligente e esperto.

Seguindo o tratamento com os especialistas, a Oncologista pediu para irmos ao endocrinologista para iniciar o processo de desmame do Corticoide, por ser uma medicação controlada tinha todo um protocolo para diminuição e retirada do remédio.
Fomos então na consulta com esse médico que fez todo um planejamento para iniciar esse procedimento, ficamos muito aliviados com essa nova fase, pois essa medicação causava um inchaço extremo, principalmente no rosto, no abdômen e nas pernas, pela retenção de líquidos.
Lolô foi muito afetado pelo aumento de peso, trazendo mudanças bruscas da sua personalidade e aparência .
Fortalecidos com o processo de cura, ao iniciar a diminuição do Corticoide , percebemos que Lolô voltou apresentar uma dificuldade do lado direito, uma fraqueza motora (braços e pernas) afetando sua mobilidade, logo entramos em contato com a Oncologista que precisou retomar a quantidade anterior do Corticoide e encaminhou o Lolô para Fisioterapia para melhorar seus movimentos de pernas e braços. Logo conseguimos um espaço de fisioterapia.
Assumindo todo desafio de cada etapa, estávamos atentos e cuidadosos com a saúde do Lolô. Apesar de demonstrar algumas limitações, nosso pequenino era uma alegria pela casa, sempre envolvido nas aventuras com o irmão, fazendo muitas estrepolias e bagunças, aquele cenário enchia nossos corações de esperança.
Mas em 16 de fevereiro de 2021, senti que a vida se perdeu dos trilhos, Lolô sempre que acordava chamava a mamãe e logo descia da cama, nesse dia senti que algo estranho estava acontecendo.
Quando cheguei no quarto, que fui pegar ele no colo senti seu corpinho diferente, perguntei se ele queria mingau, mas ele não conseguia falar, levei para sala no colo, quando fui colocar sentado percebi que ele caia, peguei o mingau mas ele não conseguiu comer, o mingau escorria pela sua boca.
Naquele instante estava sozinha, o papai tinha ido ao mercado .
Eu com ele nos meus braços não entendia o que estava acontecendo, uma angústia invadiu todo meu ser, eu só fiquei abraçada com ele e pedindo que Nossa Senhora cuidasse dele.
A minha paz foi novamente roubada, vê-lo tão debilitado era duro e desumano demais
Tentando entender aquela situação, assim que o papai do Lolô retornou, entramos em contato com a oncologista, que pediu para levarmos ele para emergência. Ela não estava de plantão, mas ia entrar em contato com o médico responsável e passar o caso do Lolô, já que ele era paciente daquela Unidade Hospitalar.
Quando chegamos, ele realizou uma tomografia para saber se o problema era da Válvula, fez outros exames, mas ainda não tinha uma resposta exata sobre aquele quadro em que ele se encontrava.
Lolô foi liberado pelo profissional da emergência para irmos ao consultório do Neurocirurgião para fazer a verificação da Válvula.
Desalentados pela falta de uma resposta, aguardávamos a ida ao Neurocirurgião, depositando toda nossa esperança que pudesse ser alguma intercorrência da Válvula, seguíamos cuidando do Lolô do meu jeito maternal, voltou a usar fraldas, adaptamos uma cadeira para o banho, providenciamos um prato que mantivesse a comida quentinha, porque ele levava mais de uma hora para comer, tinha que ser bem devagar, porque ele não conseguia deglutir e para beber também era com um copinho de poucos furinhos para ele não se engasgar. Era uma nova realidade, mas não faltava amor e paciência para nosso pequeno.
Naquele novo contexto, fizemos alguns ajustes para cuidar do nosso pequeno, o papai além de cuidar das suas responsabilidades começou também a cozinhar e cuidar de todo serviço de casa, a mamãe cuidava exclusivamente das novas demandas do Lolô e o irmão estava sempre por perto auxiliando no que fosse preciso.
No meio daquele caos criamos uma rede de apoio mútuo, onde partilhávamos os sentimentos mais profundos da essência do amor, aprendendo a valorizar o significado da vida.
Redescobrindo o novo jeito de seguir, fomos à consulta com o Neurocirurgião que fez toda a verificação e disse que não tinha nenhum problema com a Válvula, ela estava em funcionamento.
O médico solicitou uma nova Ressonância Magnética para verificar o Tumor.
Retornamos para casa, angustiados, ainda sem respostas. No dia seguinte Lolô tinha consulta com a Oncologista.
Fragilizados, sem uma resposta clara do que estava acontecendo e vendo nosso pequeno daquele jeito muito mais afetado do que no inicio dos sintomas, fomos à consulta com a Oncologista que disse que havia uma possibilidade de ter ocorrido uma progressão da doença, que é quando o tumor volta a se desenvolver no local ou nas áreas próximas, que era necessário a Ressonância Magnética para fazer a verificação.
Naquele instante, aquelas palavras surtiram como punhal no meu peito, eu vi minha maternidade passar diante aos meus olhos, como uma interrupção dos meus sonhos, dos meus planos e a projeção do futuro, ali segurando Lolô no meu colo, foi uma dor sucumbida no meu coração, senti uma miséria emocional e um desamparo da minha própria coragem. Respirei e reformulando toda minha esperança, não ia desistir do meu filho, mesmo que aos olhos da medicina a possibilidade de cura fosse menor.
Mesmo ao ouvir todas aquelas informações dolorosas, minha grande preocupação era cuidar dele, principalmente alimentá-lo, já que ele não conseguia deglutir nada inteiro. A Oncologista sugeriu colocar uma sonda gástrica para ele se alimentar, era o procedimento de praxe. (Sonda gástrica é um dispositivo médico inserido no estômago para fornecer a nutrição).
Eu recusei, era agressivo demais, eu iria continuar alimentando bem devagar e com muito cuidado. Ela pediu que eu procurasse uma fonoaudióloga que me ajudaria nessa questão alimentar e exercícios para deglutição, e um fisioterapeuta para reabilitação da mobilidade e um fisioterapeuta pulmonar, por ele ficar mais deitado.
Nossa família estava muita comprometida e resiliente a todas orientações médicas para atender as necessidades do nosso pequeno...
Assim, buscamos esses profissionais e demos início a essa nova fase com atendimento a domicílio, com muito cuidado ainda com a Covid, nosso pequeno necessitava desses serviços.
A alimentação era o que mais me preocupava, foi necessário fazer algumas mudanças para atender as exigências nutricionais do nosso pequeno. Tínhamos uma programação bem rígida com sua dieta, era preciso acordar de madrugada para dar seu mingau que ele amava, mamãe colocava para ele ver seus desenhos preferidos, esse processo era bem demorado, mas era tanto amor envolvido que não nos dávamos conta do tempo, vê-lo sorrir e se alimentar era meu presente diário.
Chegou o dia da Ressonância Magnética, ele fez o exame, agora
era necessário aguardar o resultado.
Reunindo forças , para continuar, tentávamos manter a infância do nosso pequeno Lolô viva, ele não conseguia pegar mais nenhum brinquedo, ele sempre brincava no quarto com o irmão, então colocávamos ele sentadinho, apoiado e o Henzo na sua pureza de alma, interagia com ele e arrumava um jeito do irmão participar da brincadeira, era apaixonante a interação deles através do olhar e das gargalhadas, aquela imagem era memorável para minha maternidade .
Após dias de espera, fica pronto o laudo da Ressonância Magnética, o papai do Lolô foi buscar o resultado e de lá ele levaria ao Neurocirurgião.
Ao retornar, as notícias foram aterrorizantes e cruéis demais para nossa família, o tumor havia voltado a crescer, numa área bem próxima onde havia iniciado anteriormente.
Devido a essa realidade, foi que desencadeou o quadro atual do Lorenzo e que ele não poderia realizar mais sessões da Radioterapia, até pelo seu estado de saúde .
Tomar ciência dessas circunstâncias tão penosas foi avassalador, eu precisei colocar tudo que passava no meu coração nas mãos de Deus, eu e o Lolô rezávamos toda noite, eu o ensinei a pedir a Nossa senhora : "Mãezinha do Céu me cura', por mais que naquele momento parecia estarmos desamparados e abandonados, eu tinha certeza que Deus estava caminhando conosco e por amor àquele menininho eu continuaria firme na minha maternidade com fé e esperança.
Tempos difíceis demais, começamos a ver o corpinho do nosso pequeno perder as forças, em alguns momentos não conseguia fazer suas necessidades, eu ligava a tv e percebia que ele não assistia mais com aquela alegria, eu como mãe estava vendo a vida do Lolô escapar pelos meus dedos e nada eu poderia fazer, era um sofrimento que não cabia em mim, por outro lado precisei enfrentar a revolta do papai do Lolô, que dizia que não era justo tudo que estava acontecendo com o nosso filho.
Por que Deus estava fazendo isso com uma mulher de fé? Eu buscava compreender e acolher sua dor, porque sabia que como pai, se sentia impotente naquela situação, porque quando recebemos o não de Deus é preciso muita maturidade para entender e aceitar, não era fácil para mamãe também, mas eu tinha certeza que no silêncio do meu coração, minhas preces chegavam ao céu e que Deus estava cuidando de tudo onde eu não poderia mais cuidar.
Gerenciando toda aquela situação, nossa dedicação era toda voltada para nosso pequeno, resolvemos levá-lo para ver o mar, um lugar que ele tanto amava e recordar nossos passeios em família.
Mas em 23 de abril de 2021, parecia um dia normal, à tarde Lolô dormiu e quando eu o acordei para dar sua janta, o papai mostrou para ele a sua sobremesa preferida, e como ficou tão feliz, a mamãe antecipou, quando estava comendo, Lolô deu um grito muito forte , que me deixou muito assustada, pensei que tivesse se engasgado, mas não era, foi um desespero , eu e o pai colocamos ele no carro fomos para emergência mais próxima.
Ao chegar entramos com ele correndo pela emergência Pediátrica, imediatamente ele foi atendido. Meu Deus o que estava acontecendo? Eram muitas perguntas rodeadas de medo, angústia e desespero.
Ali naquele hospital percebi a insignificância da minha maternidade, quando não pude evitar aquele sofrimento que ele estava passando, de coração esmagado só pedia Nossa Senhora que cuidasse dele por mim.
Termino esse capítulo com o coração dilacerado por uma dor insuportável, minha maternidade parecia ser arrancada do meu peito à força, apesar de tudo que estava passando, pedia que Nossa Senhora permanecesse comigo, me dando coragem para continuar cuidando do meu pequeno naquele hospital, que não me faltasse confiança no amor de Deus sobre minha família e sobre o que estava por vir.









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