Ângela Barbosa Dias
Os Desdobramentos da Maternidade - Cap 08
RADIOTERAPIA
Seguindo com muita fé e resiliência aquela espera da autorização, meu coração mendigava o inicio daquele tratamento, a Radioterapia era determinante para a cura do Lolô , como mãe mantinha uma oração confiante no silêncio do meu coração, que dias melhores se aproximavam.
Enfim , depois de 10 dias de internação o plano de Saúde autorizou o tratamento do Lorenzo, momento que floresceu a nossa esperança ,credenciando nosso pequeno a seguir nessa dura jornada.
Com muita rapidez começaram os protocolos para o processo da Radioterapia, Lolô realizou a Ressonância Magnética, os técnicos tiraram as medidas para os moldes e ficamos aguardando o plano terapêutico definido pelo Rádio Oncologista.
Uma vez concluído todo processo do planejamento, o especialista nos apresentou que Lolô realizaria 31 sessões de Radioterapia, cinco dias por semana. Que devido ao local do tumor e sua tenra idade, precisaria fazer uso da anestesia geral, para garantir que ele ficasse imóvel no equipamento, permitindo assim ,que os raios atingissem apenas a lesão, protegendo os tecidos Saudáveis.


Nos informou que serviços de Anestesista da Radioterapia era uma empresa contratada pelo hospital , que tínhamos que resolver essas burocracias financeiras pessoalmente e relatou ainda que no caso do Lolô seria usado a Anestesia Inalatória.
Vale ressaltar que Anestesia Inalatória é uma técnica de Anestesia Geral onde o paciente inala vapores anestésicos misturados com oxigênio através de uma máscara .
O Radio Oncologista continuou a esclarecer sobre os efeitos colaterais que ocorrem a curto prazo desse tratamento ,como alteração na pele, perda de cabelo, náusea, fadiga, cansaço entre outros.
Aquelas palavras flagelaram minha alma, eu não podia impedir e nem rejeitar o tratamento, era nosso sopro de luz , apesar do caminho tortuoso para alcançar a cura, precisávamos perseverar.
Então final de setembro Lorenzo inicia sua primeira sessão da Radioterapia , ainda internado no hospital, experimentei um desconforto maternal, era preciso colocar naqueles dias uma armadura de coragem, era desumano acordá-lo não poder alimentá-lo, naquele momento ele já estava sofrendo os efeitos da medicação (Corticoide) era uma fome demasiada, ele pedia seu mingau e eu precisava negar, devido o protocolo da anestesia, era um território de muito sofrimento emocional.
Atravessar aquela realidade diária , era angustiante, sangrava minha alma, eu precisava levá-lo até o equipamento, colocava ele deitado e o anestesista vinha com a máscara, ele dormia rapidamente, nesse momento eu precisava sair da sala. Deixá-lo sozinho naquele espaço dilacerava meu coração, era uma dor inexprimível e eu sentia o desconsolo da maternidade.
Defrontar com esse período foi extremamente desafiador, foram momentos difíceis demais, destaco o estresse com a equipe da anestesia , alguns profissionais não chegavam no horário combinado, e acabava atrasando a sessão do Lolô que dependia da Anestesia para iniciar , aquele choro de fome, de irritabilidade e cansaço destruía minha maternidade , aquela falta de empatia com um menininho de quatro anos que estava sendo um grande guerreiro, lutando pela vida, era uma atrocidade com ele e com sua família que pagava corretamente aquele serviço.
A Radioterapia na Maternidade me fez expandir todo meu amor sobre um filho que naquele momento eu não poderia protegê-lo e nem blindá-lo daquele tratamento, a cada sessão doía em mim, tudo aquilo que ele sentia , mas não sabia se expressar, sei que ele queria estar desfrutando da simplicidade de ser criança, mas eu precisava bloquear a sua vontade.
Esse período foi uma tristeza silenciosa de uma mãe que via nos olhos das pessoas um sentimento de pena, de lamentação e dor, aquele espaço era sofrido demais, ali todos lutavam pela vida.
Lolô, por ser a única criança a realizar a Radio naquele período, era muito querido por todos, ganhava presentes, beijinhos e aos poucos as pessoas se aproximavam para nos acolher e compartilhar suas dores, era uma luta silenciosa de forma coletiva, ali experimentamos o sofrimento agudo do Câncer.
A ciência de maternar não me ensinou que as mazelas do Câncer eram uma condição humana dolorosa demais para uma criança.
Durante a Radioterapia depositamos toda esperança de cura, por outro lado aquele tratamento era agressivo ao extremo, vimos o rostinho do Lolô ficar muito avermelhado, seus cabelos começaram a cair, seu corpinho demonstrava cansaço, até o dentinho perdeu por causa da pressão da máscara, suportar tudo isso me fez atravessar um deserto de profunda oração e entrega a Deus, era um avesso da vida, agonizante para qualquer ser humano passar.
Como queria ter o poder de pegar o Lolô em meus braços e levar comigo para casa, ofertar uma infância feliz, sem remédios, sem injeção, sem exame, sem consultas, sem Radioterapia, sem internação e sem dor.
Eu e o pai do Lolô tínhamos uma cumplicidade emocional em tentar ao máximo dar um pouco de leveza na rotina do nosso pequeno, então enchíamos ele de denguinho, não faltava amor, presente, colinho, beijinho, suas comidinhas preferidas e ainda tinha a parceria mais perfeita do irmão Henzo, que topava qualquer brincadeira com ele, assim nossa família seguia ressignificando memórias.
Finalmente, em 12 de novembro, chegamos ao término da Radioterapia, durante esse período tivemos muitas consultas com diversos especialistas como: Oncologista, Radioterapeuta, Endocrinologista entre outros , para acompanhar esse tratamento, o coração fica ansioso para saber o resultado da Radioterapia, o especialista nos informou que Lolô iria fazer uma nova Ressonância Magnética um mês após a última sessão, apenas em dezembro e que janeiro voltaríamos a nos encontrar.
Administrar aquela espera não era fácil, mas 28 de novembro era o aniversário do LORENZO, ele completaria 5 anos, não poderíamos fazer o que tínhamos planejado no inicio do ano, Lolô teria uma linda festa no Salão com muitos brinquedos, mas com a Pandemia e sua enfermidade tínhamos que ter muito cuidado com sua saúde devido sua imunidade .
Então resolvemos fazer uma festinha em casa, com pouquíssimas pessoas e foi incrível ver nos olhos dele tanta alegria de ver seu personagem e suas guloseimas preferidas. Foi um dia Memorável para nossa família.

Iniciamos o mês de Dezembro, animados com a proximidade do Natal, Lolô amava as luzinhas, os enfeites e presentes do Papai Noel. Resolvemos caprichar na decoração, pois esse ano não íamos para casa da vovó, a noite de Natal seria na nossa casa e Lolô já tinha escolhido o cardápio: pizza e pudim, e foi tudo do jeitinho que ele queria.
Mas nesse período, Lorenzo teve uma recaída na parte motora, apresentando muita dificuldade do lado direito, não conseguia caminhar sozinho, rapidamente entramos em contato com a oncologista que aumentou a dose do remédio, aos poucos ele foi se restabelecendo .
Tentando deixar as preocupações de lado, o que era quase impossível, precisávamos manter o brilho do Natal, então na manhã do dia 25 de dezembro, assim que Lolô acordou, pedimos que ele fosse até a árvore pegar seu presente que Papai Noel tinha deixado naquela noite, logo que ele viu aquele embrulho, seus olhos brilharam de alegria, era tão pesado que o pai precisou carregar, ali sentamos com ele para ajudar a abrir, ele amou seu caminhão gigante do seu desenho preferido, vivemos ali momentos inesquecíveis do amor mais sensível e puro de uma criança sendo criança.
Termino esse capítulo, colocando toda minha confiança em Deus, porque tratar o Câncer Infantil é cruel demais. O processo da Radioterapia nos machucou muito, era preciso ser forte o tempo todo, enquanto o coração sangrava, de ver o nosso pequeno passando por um flagelo físico e emocional, sentimos uma dor imensurável.
Eu não sabia os propósitos de Deus, diante aquela tempestade na minha maternidade, mas eu tinha certeza de que naqueles momentos mais excruciantes, Ele segurou nas mãos da minha família amparando, fortalecendo e nos encorajando a continuar.
Assim seguimos com muita Fé aguardando o resultado da Ressonância Magnética, a cerca dos processos da Radioterapia, continuamos com muita esperança nessa caminhada de cura...



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