Ângela Barbosa Dias
Os Desdobramentos da Maternidade - Cap. 06
Lorenzo e ÂngelaAo deixar aquela sala entorpecida por uma sombra angustiante de incertezas e fragilidades, meu olhar se apequenava diante ao meu limite maternal de não ser capaz de impedir o sofrimento de um filho, o peso da minha impotência de não curar sua enfermidade, era uma dor que transpassava minha alma.
Mesmo ferida emocionalmente com aquele diagnóstico, tínhamos a urgência do tempo... ali mesmo no carro entrei em contato com o consultório do Neurocirurgião Pediátrico para marcar a consulta, e como o Neurologista já havia passado o caso e a gravidade do mesmo, fomos agendados para o dia 14 de setembro, na segunda próxima.
Ao retornar para casa éramos visitados por um silêncio, um desassossego na alma e uma inquietação profunda , era necessário organizar e acomodar todos aqueles sentimentos que permeavam nossos corações.
Nosso pequeno Lolô ao chegar, foi recebido pelo Henzo com muito carinho, no seu coração puro de irmão, ele acreditava que ali conosco tínhamos uma receita com a medicação para curar todos os desconfortos que Lorenzo estava passando.

Como adultos e pais, não poderíamos dar essa notícia ao Henzo, ele não tinha maturidade e nem entendimento para compreender a dimensão da situação do irmão, então, contamos apenas que o Lolô precisaria fazer um procedimento cirúrgico.
Com muita cautela e lucidez, foi necessário refletir como compartilhar uma notícia dessas com nossa família e amigos, pois ainda vivíamos as fragilidades da Pandemia, nos encontrávamos no limiar entre a vida e a morte e aquele diagnóstico era devastador demais para qualquer pessoa compreender.

Sem diminuir o valor de ninguém e sua importância em nossas vidas, revelamos a pouquíssimas pessoas a situação do Lolô, ainda de forma limitada e resumida, pois não tínhamos como revelar com a mesma intensidade e nem sentença abordada pelo médico, era um golpe impactante demais para qualquer pessoa, principalmente as que faziam parte de nosso cotidiano.
Nesse mesmo dia passamos todas as informações do atendimento com o Neurologista para o Pediatra e a Oftalmologista, que nos cercaram de apoio e carinho, nos tranquilizaram a cerca do Neurocirurgião indicado, que era um profissional de grande destaque nessa área e de amplo reconhecimento no Rio de Janeiro e que o Lolô estaria em boas mãos.
Desejando que o final de semana decorresse rapidamente, Lorenzo apresentou alguns episódios de vômitos e senti que estava sonolento , aquela nova realidade nos preocupou demasiadamente, a verdade que a saúde do pequeno Lolô estava agravando-se consideravelmente.
Chegou o dia da consulta com o Neurocirurgião, fomos bem recebidos e acolhidos por aquele profissional que via nos nossos olhos o pedido de socorro para o nosso filho.
Ele examinou o Lorenzo, logo relatamos os últimos ocorridos e minuciosamente ele analisou a Ressonância Magnética, ao terminar confirmou a gravidade do quadro, principalmente se referindo aos últimos sintomas, que eram realmente preocupantes.
Cuidadosamente explicou através de desenhos o que estava acontecendo e afirmou a necessidade urgente do Lorenzo ser submetido à colocação de derivação ventrículo Peritoneal (Válvula Programável), pois ele apresentava um volumoso tumor situado no tronco cerebral que acusava Hidrocefalia obstrutiva, que ocorre quando há um bloqueio na circulação do líquor causando pressão intracraniana (Líquor é um fluido claro e incolor que envolve o cérebro e a medula espinhal que protege o sistema nervoso).
Vale esclarecer que a Válvula Programável é um dispositivo implantável que permite ajustar a pressão de drenagem do líquido cefalorraquidiano externamente (líquor).
Ela drena o excesso de líquido do cérebro para a cavidade abdominal, onde é absorvido, aliviando assim a pressão intracraniana.
Administrar todas aquelas informações no curto espaço de tempo era aterrorizante, mas fundamental para dar início ao processo de enfrentamento da enfermidade do Lolô.
O Neurocirurgião já solicitou a marcação da cirurgia para dia 16/09 e esclareceu que Hidrocefalia causa danos irreversíveis ao cérebro, podendo levar o paciente a óbito, por isso a cirurgia era emergencial.
Com muita experiência e conhecimento do quadro clínico do Lorenzo, o médico foi enfático ao confirmar que o tipo de Lesão que o Lorenzo apresentava, era impossível de remover cirurgicamente, pois estava localizada em áreas cruciais para o controle das funções vitais. Que o tratamento mais adequado era Radioterapia.
Como tumor estava em áreas muito sensíveis ao cérebro esse procedimento atuava destruindo ou reduzindo as células cancerígenas, ouvir isso pela segunda vez era desumano demais para uma família que suplicava naquele momento o reverso de todas as falas médicas.
Sobrecarregados emocionalmente pelo volume de informações, ainda tínhamos que lidar com as questões burocráticas do plano de saúde e financeira para a execução da cirurgia, como qualquer família. Não há nada mais valioso que a vida de um filho e não mediríamos esforços para iniciar seu tratamento.
Termino esse capítulo esgotada emocionalmente com a cirurgia, a radioterapia e tudo ainda que precisaria enfrentar para restabelecer a saúde do pequeno Lolô de apenas 4 anos.
Nos bastidores do meu coração, eu não podia controlar a enfermidade do meu filho, mas daria meu melhor para cuidar, proteger, amar e permanecer ao seu lado, eu buscaria a minha melhor versão de mãe diante de todo esse caos de incertezas, não permitiria que o medo paralisasse a nossa história de amor.


No próximo capítulo Lolô inicia sua Radioterapia...



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