Somos gotas do mesmo rio
“A vida é assim…se você não estiver totalmente presente, você terá perdido a sensação, o aroma, a delicadeza e a beleza da vida”, ensinou Thich Nhat Hanh (1926-2022), mestre zen-budista, poeta e ativista pela paz. Em junho deste ano, tive permissão para passar 15 dias em New Hamlet, um dos monastérios da tradição de Plum Village, na França, onde também participei da cerimônia da transmissão dos 14 treinamentos da plena consciência, e recebi meu nome do Dharma, a inspiração para seguir expressando essa consciência em meus passos. Dharma significa os ensinamentos do Buda e a prática viva da atenção plena que traz paz, compreensão e libertação para o momento presente. Um caminho que convida a ação ética, a fala amorosa e a compaixão postas em prática no dia a dia.
Localizada no sudoeste do país, essa é a primeira comunidade monástica fundada no ocidente pelo mestre vietnamita após anos vivendo como exilado na França. Um lugar para cultivar a mente do despertar, onde praticamos a atenção plena em todas as nossas atividades diárias, enquanto comemos, caminhamos e trabalhamos.
Assim que meus pés tocaram esse solo de muita sabedoria e beleza, rodeado por campos e bosques de ameixeiras, tílias, cedros do atlântico, carvalhos nativos, árvores frutíferas e muitas flores, fui envolvida pela serenidade e pelos sorrisos dos monásticos e de toda a comunidade (sangha) que nos ofertava seu acolhimento. Senti em todo o meu ser: “Cheguei, estou em casa, no aqui e agora”, como cantamos juntos tantas vezes ao longo daqueles dias. Meu coração foi preenchido de alegria e contentamento, inclusive pelos caminhos que me levaram até ali.
Não cheguei em Plum Village por acaso. Desde muito jovem, persigo uma vida com mais significado. Tive dois filhos, e a perda do mais novo, após uma doença neurodegenerativa, foi um marco profundo: ao acompanhá-lo, fui tocada por sua coragem e alegria de viver, o que me levou a questionar como eu habitava meus próprios dias. Como desdobramento, vivi um período sabático de um ano e meio na comunidade Nazaré Uniluz, no interior de São Paulo, onde aprofundei práticas de silêncio, meditação e atenção plena, integradas ao serviço cotidiano. Também fui aprendendo outros ritmos — de presença, de escuta e de pertencimento, fortalecendo meu caminho de autoconhecimento, convivência e vida em comunidade. Em 2019, conheci a Sangha Plena Consciência, em São Paulo, e segui praticando e sendo orientada com dedicação pela professora do Dharma Denise Kato. Reconheci a importância de estar na Sangha, este campo vivo de despertar, onde minha prática é continuamente nutrida e espelhada.
A força da comunidade
Assim que desembarquei em Plum Village, me recordei de cada escolha, cada encontro, cada perda e cada recomeço me preparando, silenciosamente, para esse momento. Então, me abri para a experiência de imergir em uma comunidade que escolhe cultivar a paz e a harmonia. Acompanhada de 900 pessoas, entre monásticos e leigos, de 44 países – rodeada pela diversidade de culturas, lugar no mundo, idades e gêneros, mas tocados por uma humanidade comum – como numa dança, fui afinando a melodia nos pequenos gestos: no silêncio compartilhado, nas refeições conscientes, na meditação caminhando, no sorriso oferecido sem pressa, na escuta que não interrompe, na fala genuína, que brota do coração, no espaço para nossas inquietações e indagações, permitindo que fossem temperadas pela sabedoria e pelos ensinamentos desta tradição.
Uma das minhas práticas preferidas é a meditação caminhando, e foi ali que compreendi, não apenas com a mente, mas com o corpo inteiro, o significado de sermos gotas do mesmo rio. Todos os dias praticávamos esta meditação, e caminhávamos em silêncio, centenas de pessoas, na natureza tão vibrante, e vislumbrei esta imagem da “sangha como um rio” …a força, o apoio, a vitalidade, o fluxo de nossos passos apoiados neste caminho.
Cada pessoa caminhava com sua história, sua cultura, suas alegrias e suas dores. Ainda assim, respirávamos o mesmo ar, caminhávamos sobre a mesma terra e sustentávamos uns aos outros na prática da presença, da compreensão formando um lindo rio, tocando a Terra com suavidade, como se a cada passo pudessem “brotar flores sob nossos pés”, como aprendemos com os ensinamentos vivos de Thich Nhat Hanh. Emocionada, pude reconhecer como é importante fazer parte de uma sangha, e como precisamos de grupos que nos lembrem na simplicidade do essencial, do que nos torna humanos. E isso vale para todo e qualquer momento.
Todas as tardes tínhamos o momento do “compartilhar o dharma”, ou seja, nos sentávamos em círculo – cerca de 20 pessoas por círculo. No meu, contemplado por origens diversas – Vietnã, China, Indonésia, Alemanha, França, Holanda, Estados Unidos, México, Colômbia e um pequeno grupo de brasileiros – falávamos a partir de nossas próprias vivências, as alegrias e dificuldades suscitadas durante as palestras, painéis e temas do dia, o que estava vivo e genuíno em nós, e praticávamos a escuta amável, ou seja, ninguém era interrompido e não havia debates.
Esses círculos aconteciam nos jardins, naquelas semanas de extremo calor na França, mas desfrutávamos das sombras e dos sabores de inúmeras amoreiras, plantadas cuidadosamente décadas antes, num campo devastado, por aqueles que tiveram a visão do que é importante para acolher uma comunidade. Sentir-se abraçada pelo círculo, relaxar no frescor das sombras e testemunhar a compreensão que brota além dos idiomas diversos, mas daquilo que nos atravessa como seres humanos, era como sentir muito calor e beber água de uma fonte cristalina e profunda.
No local existe um grande lago que fica próximo à sala de meditação. Ele não só tem uma aparência desgrenhada como cheira mal. Eu, que por décadas trabalhei com gestão de qualidade na área de produção de alimentos, listei na minha mente uma série de melhorias a serem sugeridas à direção do monastério. Aquilo não poderia continuar assim. Estava convicta disso até a natureza se apresentar diante de mim com sua imensa sabedoria. Um dia fui surpreendida pelo desabrochar de uma flor de lótus. Ela se ergueu da lama e revelou sua beleza luminosa. Pude compreender com isto como essa flor é um símbolo vivo do Buda da compaixão, pois nos ensina caminhos para cuidar dos nossos cantos escuros e das dores que, muitas vezes, vivenciamos, reconhecendo como disto pode florescer uma consciência ancorada na generosidade, na ética e na compaixão diante do sofrimento.
Chegou a hora de partir. Dentre tantos aprendizados e descobertas, um em especial me acalentou. Voltei com muita esperança em nós, seres humanos. Trouxe na bagagem uma confiança renovada em nossa capacidade de compreensão, de lidar com as diferenças, com os conflitos e os desencontros. Os painéis e palestras sobre inclusão, diversidade, discriminação e diferenças socioeconômicas, à luz dos ensinamentos desta tradição, me nutriram com novas perspectivas e sou grata por isso. Acima de tudo, acredito que todos nós podemos reencontrar a capacidade de habitar plenamente cada instante e reconhecer que a vida acontece exatamente aqui, neste passo, nesta respiração, neste encontro.
Ana Maria Fanelli é instrutora de Mindfulness e de Mindful Eating, terapeuta transpessoal e facilitadora de grupos terapêuticos.
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