Alta das saídas fiscais no Brasil tem relação com o momento do país?
46.575 declarações foram registradas até agosto; em meio ao período eleitoral e a acontecimentos de grande repercussão institucional, brasileiros também ampliam a procura por orientação para viver, trabalhar e empreender no exterior
O Brasil atravessa um período de forte movimentação política e institucional, às vésperas do primeiro turno das eleições e em meio a decisões de grande repercussão no Supremo Tribunal Federal. Paralelamente, dados da Receita Federal mostram que 46.575 declarações de saída definitiva do país foram registradas até agosto de 2026, volume superior ao total contabilizado em todo o ano de 2025, de 31.706 declarações.
Em comparação com 2021, quando foram registradas 25.791 declarações, o número representa crescimento de aproximadamente 80%. A coincidência dos movimentos levanta uma questão: o atual ambiente brasileiro também entra na avaliação de quem considera construir uma vida ou um negócio no exterior?
Os dados disponíveis, porém, não permitem estabelecer uma relação direta entre o cenário político e o aumento das declarações. A própria Receita Federal ressalta que o crescimento dos registros não significa necessariamente que todos esses contribuintes tenham deixado o país no período, já que parte das declarações pode corresponder a brasileiros que já estavam no exterior e formalizaram posteriormente sua situação.
Ainda assim, o movimento ganha outra dimensão quando observado junto à procura por orientação migratória. Na Bicalho Consultoria Legal, escritório com atuação no Brasil, em Portugal e nos Estados Unidos, mais de 85% das demandas por orientação migratória no primeiro semestre de 2026 tiveram os Estados Unidos como destino. Entre empresas brasileiras, a procura por informações relacionadas à expansão internacional cresceu 25% na comparação com o mesmo período de 2025.
Os números da Receita e da consultoria não permitem atribuir o aumento das declarações de saída a um único fator. Eles mostram, porém, a coexistência de um crescimento na formalização de saídas e de uma demanda por planejamento para projetos internacionais, tanto entre pessoas físicas quanto entre empresas.
Para quem já considera uma mudança, fatores profissionais, familiares, econômicos e a percepção sobre o futuro podem fazer parte da avaliação. A execução desse projeto, no entanto, envolve questões que vão muito além da obtenção de um visto.
“Os Estados Unidos continuam como o principal destino entre as pessoas que procuram nossa consultoria. O perfil é bastante diverso: recebemos profissionais, famílias e empresários com objetivos diferentes. O ponto em comum é a necessidade de entender o caminho migratório antes de tomar decisões que terão impacto de longo prazo”, explica Dr. Vinicius Bicalho, advogado e professor de imigração licenciado nos Estados Unidos e membro da American Immigration Lawyers Association (AILA).
O visto é apenas o começo
A escolha da modalidade migratória precisa estar relacionada ao objetivo de quem pretende viver nos Estados Unidos. Profissionais, empresários, estudantes e famílias podem ter necessidades e caminhos completamente diferentes.
A aprovação do visto, entretanto, não encerra o planejamento. Uma mudança permanente também pode exigir a reorganização de patrimônio, investimentos, contas bancárias, empresas e outras obrigações que permanecem no Brasil.
“Uma família que pretende morar nos Estados Unidos tem necessidades diferentes de um empresário que quer abrir uma operação no país. A estratégia migratória precisa considerar o objetivo final e as características de cada caso”, afirma Bicalho.
No caso de empresários, a internacionalização acrescenta outras decisões. A abertura ou transferência de uma operação pode envolver estrutura societária, contratação local, transferência de profissionais e definição sobre como os negócios existentes no Brasil serão mantidos ou reorganizados.
O aumento de 25% na procura corporativa por informações sobre expansão internacional mostra que a movimentação não se restringe a pessoas que pretendem deixar o país. Empresas brasileiras também buscam estruturar operações no exterior.
Sair do Brasil não significa automaticamente deixar de ser residente fiscal
Um dos pontos que mais exige atenção é a diferença entre status migratório e residência fiscal. Ter autorização para morar nos Estados Unidos não significa, por si só, que o brasileiro deixou de ser residente fiscal no Brasil. Da mesma forma, permanecer no exterior durante alguns meses não produz automaticamente uma mudança de residência fiscal.
Segundo as regras da Receita Federal, quem deixa o Brasil em caráter permanente pode passar à condição de não residente a partir da saída, observadas as regras aplicáveis. Já quem deixa o país temporariamente e não formaliza a saída pode passar à condição de não residente após 12 meses consecutivos de ausência, conforme os critérios estabelecidos pela Receita.
A formalização também envolve procedimentos próprios, como a Comunicação de Saída Definitiva do País e a Declaração de Saída Definitiva.
“O prazo de 12 meses é relevante principalmente para quem deixa o Brasil sem formalizar uma saída definitiva. É importante entender que residência fiscal e status migratório são questões diferentes. O planejamento precisa considerar as circunstâncias da saída e as obrigações que permanecem no Brasil”, explica Bicalho.
Patrimônio também entra na conta
A mudança internacional pode exigir atenção especial de quem mantém imóveis, investimentos, contas bancárias, empresas ou outros vínculos econômicos no Brasil.
Esses elementos não determinam isoladamente a residência fiscal, mas precisam ser considerados na análise de cada caso. A falta de planejamento pode fazer com que a pessoa organize a mudança migratória sem avaliar adequadamente as consequências fiscais e patrimoniais da nova condição.
Para famílias, também entram no planejamento questões como a situação migratória de cada integrante, educação dos filhos, transferência de recursos e organização dos bens.
Empresas brasileiras também olham para fora
A internacionalização ganhou espaço entre empresas que não necessariamente pretendem encerrar suas atividades no Brasil.
A procura por orientação sobre expansão internacional cresceu 25% entre os clientes corporativos da Bicalho no primeiro semestre de 2026. Para esse perfil, o planejamento pode envolver desde a estrutura da operação nos Estados Unidos até a transferência de profissionais e a relação entre as atividades mantidas nos dois países.
“Para empresas, a análise envolve ainda a estrutura do negócio e a forma como a expansão será realizada. O planejamento migratório precisa estar alinhado ao projeto empresarial”, afirma Bicalho.
A mudança começa antes do embarque
O crescimento das declarações de saída definitiva coloca em evidência uma etapa que muitas vezes fica em segundo plano: a organização da vida no Brasil antes da mudança.
Para quem pretende viver ou empreender nos Estados Unidos, a aprovação do visto representa apenas uma parte do processo. A decisão envolve aspectos migratórios, fiscais, patrimoniais e empresariais que precisam ser avaliados de acordo com o projeto de cada pessoa, família ou empresa.
“A imigração não termina com a aprovação do visto. Esse é o início de uma nova etapa. Quem pretende viver, trabalhar ou desenvolver um negócio nos Estados Unidos precisa entender o caminho migratório e avaliar as consequências da mudança antes de estabelecer sua vida no país”, conclui Dr. Vinicius Bicalho.




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