Como ter empatia sem ignorar o que machuca
Um erro. Dois. Três. A raiva surge por um breve período e, antes mesmo que possa ser elaborada, é substituída pela tentativa de compreender o porquê de determinada atitude. Surgem pensamentos como: “será que foi por mal?”, “essas coisas acontecem sem querer”, “acho que essa pessoa fez isso porque teve traumas no passado”.
A empatia é enxergar uma pessoa para além do erro, afirma a psicóloga Cláudia Melo. Ela contribui para relações saudáveis porque compreende que cada comportamento carrega história, medo, fragilidade e maneiras diferentes de lidar com a vida. “Quando existe essa disposição para ouvir, o diálogo se torna mais humano e pode encontrar um caminho de reparação.”
No entanto, existe um limiar invisível que define o limite entre se colocar no lugar do outro e agir com tolerância excessiva diante de comportamentos que machucam. “Começamos a ser tão compreensivos que deixamos de nos escutar”, observa a especialista.
Histórias são importantes, incômodos também
Uma infância difícil, traumas e fases turbulentas podem provocar atitudes que não condizem com as intenções reais de uma pessoa. No entanto, compreender não significa afirmar que está tudo bem. Cláudia explica que “é possível reconhecer a dor de uma história, sem negar o que aquilo provocou em mim.”
Porque apesar da empatia ser uma habilidade bonita, praticá-la em excesso – mesmo que inconscientemente – pode nos levar a desconfiar das nossas próprias emoções. Surgem dúvidas sobre estar exagerando, sendo sensível demais ou se não valeria a pena relevar mais uma vez.
Cláudia afirma que é preciso estar atento para não colocar as necessidades pessoais em segundo plano, e oferecer ao outro uma compreensão que ignore sentimentos importantes. “Também merecemos a mesma escuta e o mesmo respeito que oferecemos às outras pessoas.”
Raiva é combustível
A espécie humana desenvolveu, durante décadas de evolução, sentimentos importantes que não devem ser classificados como bons ou ruins. Cada um deles funciona como um sinal que ajuda a compreender o mundo, se proteger e cuidar da saúde mental. Por isso, a raiva, que muitas vezes fica escondida numa empatia sem fronteiras, também precisa de espaço para se manifestar.
Ela é sinal de que algo machucou, foi injusto ou ultrapassou limites e serve como combustível para sair dessas situações. Cláudia afirma que, quando abafada o tempo inteiro, é possível perder percepções importantes sobre si mesmo.
Mas isso não significa ir para o extremo oposto e agir com agressividade. “Talvez seja necessário conversar, se posicionar, dizer ‘não’ ou até se afastar”, afirma a especialista. Segundo ela, quando reconhecida e expressada de forma responsável, a raiva pode ajudar na recuperação da própria voz.
O desejo de ser amado
A empatia incondicional também pode surgir do desejo de ser amado, onde agradar se torna viciante. Perceber que somos vistos de forma positiva pelos outros, com um número de amigos cada vez maior, pode ser prazeroso. Mas isso nos coloca no papel de quem nunca dá trabalho, entende tudo, resolve conflitos e está sempre disponível. Com isso, também pode surgir a sensação de responsabilidade pelo que o outro sente.
Por trás desse comportamento, muitas vezes, existe o medo de rejeição, abandono ou de ser considerado egoísta. O problema é que isso pode empobrecer a forma como a vida é vivida e manter relações ou situações que fazem mal. Cláudia afirma que “ser aceito não deveria exigir que alguém se cale, ultrapasse os próprios limites ou se diminua”, afirma a psicóloga.
Escuta interna
Para encontrar esse equilíbrio, é importante observar a dinâmica da relação. Há espaço para falar sobre o que machuca? O outro consegue escutar sem inverter a situação ou provocar culpa? Há reconhecimento do erro e mudança de atitude, ou apenas justificativas?
Cláudia também recomenda perceber se apenas um lado compreende, perdoa e cede, enquanto o comportamento se repete. Outro ponto de atenção é entender se a empatia nasce de uma vontade genuína de compreender ou do medo de perder aquele vínculo.
“Um limite não é uma punição, nem falta de amor. Mas uma forma de mostrar ao outro como podemos continuar naquela relação sem nos abandonar.”
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