Cuide da sua criança interior
Há alguns meses, minha mãe passou por um procedimento cirúrgico. Tive medo. Primeiro porque hospitais me fragilizam. Depois, porque seria eu quem a acompanharia. Me peguei desejando, mais de uma vez, ser criança novamente. Não porque quisesse reviver a infância ou escapar da vida adulta. O que eu queria, naquele momento, é que existisse alguém maior do que eu para decidir e assumir aquela responsabilidade. Queria, por algumas horas, descansar do peso de ser gente grande. E entregar o medo para outra pessoa, como tantas vezes aconteceu quando eu era pequena.
Quando somos crianças, acreditamos que existe alguém capaz de nos proteger das dores do mundo. Crescer talvez seja descobrir que, muitas vezes, somos nós que seguramos a mão de quem um dia segurou a nossa. É entender que a vida adulta nos intima a responsabilidades das quais não podemos fugir ou nos esconder. Portanto, cabe a nós reunir toda a nossa coragem e atender aos chamados da vida, sem endurecer.
Na infância, aprendemos um jeito mágico e sensível de habitar o mundo. Um jeito em que uma caixa de papelão pode ser um castelo, um galho vira espada, uma poça d’água se transforma em oceano. Em um de seus poemas mais conhecidos, Manoel de Barros apresenta um menino que insiste em carregar água na peneira. Enquanto os adultos veem apenas um despropósito, a mãe reconhece no gesto a imaginação de um poeta.
À medida que crescemos, acreditamos que não há mais sentido em carregar água na peneira. Trocamos o encantamento pela utilidade, a curiosidade pelas respostas, a brincadeira pela produtividade. Mas será que essa criança curiosa e desperta desaparece? Para onde ela vai, afinal, quando crescemos?
Espaço para brincar

Quando a criança que fomos está ativa, encontramos formas lúdicas de encarar o dia a dia
A resposta, segundo a psicologia analítica, é mais simples do que parece. Essa criança não desaparece. Ela continua vivendo em nós, não como uma lembrança congelada da infância, mas como uma dimensão da nossa existência. Para Carl Gustav Jung, essa criança é um dos arquétipos fundamentais da psique humana. “Ela é, de alguma forma, o começo e o fim de nossas vidas, quando realizadas de forma integral”, explica a analista junguiana Luciana Branco. “A criança sabe das coisas sem saber. É ingenuidade e inteligência, guiada mais pelo instinto do que pelos saberes racionais.”
Por isso, crescer não significa abandoná-la. “Apesar de a vida passar, a criança mantém-se presente, acrescida das novas experiências. Agora, manter-se exclusivamente criança é tão prejudicial a um adulto quanto perder a criança para sempre”, alerta Luciana.
Então, se essa criança continua viva, por que tantas vezes temos a sensação de que a perdemos pelo caminho? Para Luciana, parte da resposta está na forma como aprendemos a viver. Em uma cultura que valoriza desempenho, controle e racionalidade, acabamos deixando pouco espaço para características que costumam marcar a infância, como a curiosidade, a imaginação, a espontaneidade e o brincar.
Ela acredita que outro movimento também contribui para essa separação: a tendência de olhar para a infância apenas a partir de suas feridas. “É interessante perceber como o espírito do nosso tempo vem patologizando tudo, todas as experiências, como se as feridas fossem apenas ruins”, observa.
Ao lembrar a história de João e Maria, a analista propõe um exercício de mudança de perspectiva. Em vez de enxergar apenas duas crianças abandonadas na floresta, ela convida a perceber também a inteligência, a criatividade e a capacidade de enfrentar o desconhecido. “É nessa tensão entre o bem e o mal que a vida acontece”, diz. “João e Maria sobreviveram, aprenderam, cresceram.”
Essa leitura não diminui a dor, mas impede que ela seja a única lente através da qual olhamos para a infância. “Não se trata de enaltecer o sofrimento, mas de entender que ele é parte da vida, como a luz e a sombra, o dia e a noite. São dimensões fundamentais para a existência e o desenvolvimento humano.”, ressalta Luciana.
Amor em vez de cobranças

Nem tudo o que se faz precisa ter uma finalidade. Essa é uma das belezas que absorvemos dos pequenos
Mas a criança interior também guarda as marcas das experiências difíceis. A psicóloga clínica e escritora Renata Feldman explica que ela é uma representação simbólica das vivências significativas da infância, incluindo momentos felizes, dolorosos, difíceis ou traumáticos, que permanecem registrados em nossa memória afetiva. “Essas vivências ficam armazenadas no nosso inconsciente e, junto às crenças que construímos ao longo da vida, acabam impactando de alguma forma o adulto que nos tornamos”, analisa.
Renata explica que a forma como essa criança interior é acolhida, pode moldar a nossa vida adulta, trazendo leveza, plenitude e uma boa relação com nós mesmos. Ou ao contrário, gerando peso e rejeição. “Se a infância esbarrou em muitas ‘pedras e espinhos’ no caminho, essa criança segue carregando feridas emocionais que acabam reverberando na sua vida adulta, afetando de forma negativa sua visão de mundo, sua autoestima e especialmente sua relação com a alteridade que a cerca.”
Essas experiências tornam-se referências emocionais que continuam influenciando a maneira como reagimos aos acontecimentos da vida adulta. Nem sempre percebemos essa ligação, mas ela pode aparecer na forma de medos, dificuldades de estabelecer vínculos ou padrões que se repetem ao longo da vida. “É o menino que se sentiu abandonado pelo pai e segue dando ‘ghost’ nas suas relações amorosas; é a menina que ouviu palavras duras da mãe e cresceu com dificuldade de se mostrar, de se posicionar, preferindo se esconder atrás do silêncio.”, completa Renata.
Reconhecer essas marcas não nos aprisiona a elas. Mas ajuda a compreendê-las melhor. “Acolher a criança que fomos é justamente dar a ela a possibilidade de romper com o passado que a aprisiona e se libertar em direção a uma vida genuína, autêntica e feliz”, afirma a psicóloga. Esse acolhimento pode acontecer de diversas formas: quando nos dedicamos a nos conhecer e aceitar quem somos; quando olhamos para essas feridas sem nos culpar ou julgar; quando nos ofertamos amor no lugar de cobranças e rejeições. “Ao levar essa criança interior à terapia, o sujeito é capaz de elaborar e ressignificar o seu passado, libertando-se das dores e curando suas feridas emocionais.”, orienta Renata.
Essa criança não é feita apenas de cicatrizes. Como recorda Luciana Branco, além das dores, permanece viva a capacidade de criar, brincar e recomeçar. “A criança nos convida a lembrar que é possível termos amigos imaginários sem sermos considerados doentes. É possível fazer de plantas do quintal comidas deliciosas; de batuques na mesa, orquestras.”, pontua. E completa: “a criança nos convida para colocar o corpo em movimento, dançar, dar as mãos, dar risada. E ainda morrer de medo, acreditar no monstro, experimentar o pavor.”
Experimentar o mundo
Não se trata de abandonar as responsabilidades da vida adulta e existir como se o tempo não tivesse passado. Mas passa pelo movimento de recuperar a capacidade de experimentar o mundo sem que tudo precise ter uma finalidade. Esse convite acompanha a trajetória da educadora e antropóloga Adriana Friedmann, pesquisadora da infância há mais de cinco décadas. Para ela, a criança interior não diz respeito apenas às lembranças que guardamos dos primeiros anos de vida, mas à essência que continua se manifestando ao longo da existência. “Tudo começa na infância. É ali que aparecem os primeiros sinais do ser humano que cada um é, da sua potência, das suas tendências e do seu temperamento”, afirma. “Essa criança continua se manifestando quando damos espaço para a criatividade, para as artes, para a escrita, para a música, para a dança ou até para a forma como cozinhamos e escolhemos a roupa que vamos vestir.”
Reencontrar essa criança, então, não depende apenas de olhar para trás, mas também de prestar atenção à forma como vivemos o presente. Para Adriana, isso começa quando devolvemos ao cotidiano um espaço que costuma desaparecer na vida adulta: a possibilidade de fazer algo pelo simples prazer de fazer, sem transformar cada experiência em desempenho, produtividade ou resultado.
“Nós vamos perdendo esse lugar. Quem não convive com crianças, quem não tem filhos, netos ou não trabalha com elas, muitas vezes deixa de brincar. Mas esse lúdico dentro de nós, se a gente dá espaço, pode ser protagonista do cotidiano.” Para a pesquisadora, esse reencontro pode acontecer até em um momento de ócio. O importante é que exista um tempo em que não seja preciso provar nada a ninguém. “Nós não precisamos ser artistas, bailarinos ou músicos. Podemos ir atrás de algo de que gostamos, não para produzir nada nem para mostrar nada, mas para a nossa própria saúde física e mental.”
Talvez seja justamente aí que mora um dos maiores desafios. Em uma sociedade que transformou o tempo em uma moeda escassa, permitir-se brincar ou simplesmente descansar costuma despertar culpa. Adriana acredita que recuperar esse direito também é uma forma de cuidar de nossa criança. “Todo ser humano precisa poder usufruir desse tempo de espairecimento, de distração, de contato com a cultura ou simplesmente de não fazer nada. Às vezes, não fazer nada já é fazer muito.”
O caminho de volta

Nossa criança merece receber de nós o que não teveno passado
Antes de reencontrar essa leveza, é preciso cuidar da criança que ficou parada em algum momento da nossa história. E esse cuidado talvez comece por uma pergunta simples: do que ela ainda precisa? Para ilustrar essa resposta, a professora e terapeuta integrativa Juliana Artigas Flores, costuma recorrer à metáfora de um álbum de fotografias emocionais para explicar o trabalho sistêmico. Ao longo da vida, vamos reunindo registros internos que guardam muito mais do que acontecimentos. São imagens carregadas de sensações, medos, afetos e ausências. Algumas são coloridas. Outras, em preto e branco. “A constelação familiar olha para essas fotografias como um mapa interno”, explica. “E a pergunta passa a ser: o que essa fotografia denuncia que faltou?”
Encontrar essa imagem não significa permanecer preso a ela. De acordo com Juliana, reconhecer um trauma é perceber que uma parte de nós ficou paralisada naquele momento da história. E um dos caminhos da cura passa por oferecer, no presente, aquilo que essa criança não recebeu no passado. “A receita genérica é essa: dar, em doses homeopáticas, aquilo que nos foi negado lá atrás”, explica.
Na prática, isso pode significar gestos pequenos. Descansar quando nunca houve permissão para isso. Se colocar em ambientes seguros quando o corpo aprendeu a viver em alerta. Permitir-se brincar quando a infância foi atravessada cedo demais pelas responsabilidades. “Agora que eu vi essa criança, eu cuido dela. E digo: por favor, vá brincar”, resume.
Juliana propõe um exercício simples de observação. Diante de uma situação difícil, vale perguntar: como minha criança responderia ao que estou vivendo agora? Talvez ela gritasse, se calasse, esperneasse ou apenas chorasse. Reconhecer essa reação não é motivo de culpa. É um caminho para a autorregulação emocional. “Sentir a mesma emoção, mas conseguir manejá-la de outra forma, também é um caminho de cura.”
Ela afirma, ainda que, enquanto adultos, somos os únicos guardiões da nossa criança. Então, cabe a nós escolher os ambientes, as pessoas e as situações às quais ela é exposta no hoje. Em outras palavras, significa deixar de nos submeter aos mesmos cenários que produziram dor algum dia. Depois de curar o que machuca, também é preciso reapresentar o que nutre, acolhe e devolve o prazer de existir. O álbum emocional não guarda apenas imagens difíceis. Ele também preserva lembranças de pertencimento, cuidado e alegria. Juliana acredita que revisitá-las é um exercício terapêutico tão importante quanto reconhecer as feridas. “Primeiro vêm as fotografias da dor. Depois começam a aparecer os flashes das coisas boas.”
E, se a vida parecer dura demais, talvez valha perguntar: o que fazia a minha criança se sentir amada? Uma comida preparada pela mãe. Um desenho. Uma caminhada. Uma música. “Quando nos sentimos abandonados pela vida, podemos oferecer a nós mesmos aquilo que um dia nos fez experimentar amor.”
No dia da cirurgia da minha mãe, sem perceber, foi exatamente isso que fiz. Comprei chocolates, coloquei meu filme preferido no celular e assisti até o médico me chamar para dizer que tudo estava bem. Depois a vida continuou. Vieram consultas, remédios, exames e a rotina possível de quem cuida de alguém que ama. Mas uma pergunta da Juliana permaneceu comigo. “Quando tudo isso passar, o que você vai oferecer para aquela menina que não queria estar ali?” Talvez eu comece com um sorvete de flocos. Talvez com um passeio sem pressa ou uma tarde de descanso e ócio. Quem sabe, um dia, eu a leve para conhecer o mundo, como sonhava anos atrás. Então, segurarei firme na mão daquela menina e direi a ela, com carinho, o que a Juliana me ensinou: “Agora que eu vi, eu cuido. Você pode ir brincar.”
Débora Gomes é jornalista, ama sorvete de flocos e sonha em levar sua criança para morar em Paris.
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