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Belo Horizonte,19/08/2026

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Coco Chanel: a história por trás dos códigos que transformaram a moda

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Coco Chanel: a história por trás dos códigos que transformaram a moda

Gabrielle Chanel – Foto: Getty Images


Em 19 de agosto de 1883, nasceu Gabrielle Chanel, em Saumur, na França. Filha de um vendedor ambulante e de uma lavadeira e engomadeira, ela teve uma infância distante do universo de luxo que, mais tarde, seria associado ao seu nome. Sua mãe morreu quando Gabrielle ainda era criança e, depois, o pai a levou para o orfanato da Abadia de Aubazine, onde permaneceu durante parte da infância.


Foi ali, entre a austeridade da arquitetura do convento, o preto e branco dos hábitos religiosos e a riqueza dos objetos litúrgicos, que começaram a surgir algumas das referências que mais tarde apareceriam em seu trabalho. A simplicidade, as linhas retas, o contraste entre preto e branco e a presença do dourado e de pedras coloridas fizeram parte do repertório visual de Chanel.


Gabrielle deixou Aubazine e, ainda jovem, passou a trabalhar como costureira. À noite, cantava em cabarés e foi, neste período, que recebeu o apelido Coco, associado a uma das canções que costumava interpretar. A origem do nome, porém, também foi transformada pela própria Chanel ao longo dos anos, que preferia dizer que o apelido vinha de seu pai.


Antes da maison, a construção de uma nova mulher




A aproximação com Étienne Balsan, ligado à alta sociedade e ao universo equestre, colocou Chanel em contato com um ambiente que até então não fazia parte de sua realidade. Mas, em vez de reproduzir o modo de vestir das mulheres daquele círculo, ela chamou atenção justamente por fazer o contrário.


Chanel passou a usar elementos do guarda-roupa masculino e começou a criar chapéus mais simples, retirando o excesso de plumas e ornamentos comuns aos modelos da época. Suas primeiras clientes vieram desse círculo social e, pouco depois, seu trabalho começou a atrair mulheres da elite francesa.


Foi também nesse período que surgiu outra figura fundamental para sua trajetória: Arthur “Boy” Capel. Rico, culto e inglês, ele se tornou o grande amor de sua vida e teve papel importante no início de sua carreira, ajudando na abertura de suas primeiras lojas em Paris, Deauville e Biarritz.


Chanel, entretanto, queria mais do que o reconhecimento social proporcionado por seus relacionamentos. Queria trabalhar e conquistar a própria independência. E foi justamente ao buscar essa liberdade que começou a transformar a maneira como as mulheres se vestiam.


A revolução da silhueta


Gabrielle Chanel – Foto: Getty Images


No início do século 20, Chanel rompeu com uma moda marcada por estruturas rígidas, espartilhos e excesso de ornamentação. Encurtou as saias, deixando os tornozelos à mostra, abandonou a cintura extremamente marcada e incorporou materiais pouco associados ao luxo, como o jersey.


A inspiração vinha, em grande parte, do vestuário masculino e esportivo. Chanel transformava essas referências em roupas femininas mais leves e funcionais, adequadas a um momento em que as mulheres também começavam a ocupar novos espaços na sociedade.


O cabelo curto, o bronzeado e a preferência por roupas mais descomplicadas reforçaram a imagem de uma mulher diferente daquela representada pela moda tradicional. Ela não apenas criava peças: construía uma nova silhueta e, com ela, uma nova ideia de feminilidade. Em 1918, abriu sua maison no endereço que se tornaria inseparável de sua história: 31 Rue Cambon, em Paris.


Da perda ao encontro com a arte


Um ano depois da abertura da loja,, Boy Capel morreu em um acidente de carro. A perda marcou profundamente Chanel. Depois da morte dele, ela se aproximou ainda mais do universo artístico por meio de Misia Sert, uma das figuras mais influentes da cena cultural parisiense. Com Misia, Chanel circulou entre artistas e intelectuais e conheceu nomes como Pablo Picasso, Jean Cocteau, Igor Stravinsky, Sergei Diaghilev e Maurice Ravel. Sua relação com as artes ultrapassava a convivência social: Chanel financiou projetos, criou figurinos e chegou a hospedar Stravinsky e sua família.


O contato com o balé russo ampliou seu repertório. A aproximação com o grão-duque Dimitri Pavlovich, membro da família imperial russa, também trouxe novas referências para suas coleções, como bordados, peles e joias inspiradas na estética russa e bizantina.


Foi por meio de Dimitri que Chanel conheceu Ernest Beaux, perfumista que havia trabalhado para a corte dos czares. Em 1921, os dois criaram o Chanel Nº 5, fragrância que se tornaria um dos maiores símbolos da maison.


O emblemático Chanel N°5


A primeira campanha do Chanel Nº5, feita em 1921 pelo artista francês Sem – Foto: Divulgação


O Chanel Nº 5 representava uma mudança na maneira de pensar a perfumaria. Em vez de reproduzir uma única nota floral, a composição de Beaux reunia diferentes matérias-primas em uma estrutura mais complexa. Quando Ernest Beaux apresentou as amostras da nova fragrância, ela escolheu a quinta composição e decidiu manter o número no nome, transformando a superstição em uma das assinaturas mais reconhecíveis da perfumaria. Assim, afastou-se da tradição de batizar perfumes simplesmente com nomes de flores e escolheu identificá-lo por um número. A escolha do nome do perfume Nº 5 também carregava um significado especial para Chanel. O número era seu favorito e, segundo a tradição da maison, ela acreditava em seu caráter de amuleto, chegando a escolhê-lo por ser seu número da sorte. 


O frasco minimalista e o nome direto acompanhavam a mesma lógica que já aparecia em suas roupas: reduzir o excesso e transformar a simplicidade em uma forma de sofisticação.


A influência inglesa e a descoberta do tweed


Foto: Getty Images


Na década de 1920, outro relacionamento influenciou seu trabalho. Chanel se envolveu com Hugh Grosvenor, duque de Westminster, e passou a frequentar o universo da aristocracia britânica.


O contato com o guarda-roupa masculino inglês reforçou seu interesse por materiais como o tweed, originalmente associado ao vestuário masculino e esportivo. Chanel incorporou o tecido às roupas femininas, transformando sua textura e estrutura em parte de uma nova linguagem de luxo.


Décadas depois, o tweed continuaria sendo um dos códigos mais reconhecíveis da Chanel, especialmente nos famosos tailleurs da maison.


O preto ganha outro significado


Vestido para noite de 1931 feito por Gabrielle Chanel – Foto: Getty Images


Chanel também ajudou a transformar a relação da moda com o preto. Até então fortemente associado ao luto e aos uniformes de empregados, o tom passou a ocupar um espaço central no guarda-roupa feminino sofisticado.


O conceito culminou no chamado little black dress, o vestido preto de linhas simples que podia ser adaptado a diferentes ocasiões. A força da peça estava justamente em sua versatilidade. Em vez de depender de bordados, cores ou ornamentações para chamar atenção, o vestido apostava na construção da silhueta e na possibilidade de ser combinado de diferentes maneiras.


Joias sem a obrigação do luxo


A mesma lógica aparecia nos acessórios. Chanel não via as joias apenas como demonstração de riqueza e passou a explorar intensamente as chamadas “joias fantasia”.


Para ela, o efeito produzido pela composição poderia ser mais importante do que o valor material das pedras. Pérolas artificiais, correntes e peças de diferentes tamanhos eram combinadas para criar uma aparência sofisticada sem depender exclusivamente de materiais preciosos.


A ideia ajudou a aproximar as joias do próprio universo da moda: elas deixavam de ser apenas patrimônio e passavam a funcionar como parte da imagem.


Uma empresária diante das próprias contradições


Retrato de Chanel de 1971 – Foto: Getty Images


O sucesso internacional transformou Chanel em uma das mulheres mais poderosas da moda. Hollywood demonstrou interesse em seu trabalho, mas ela não se adaptou completamente aos padrões da indústria cinematográfica e voltou à França.


Em 1936, sua maison enfrentou uma greve de cerca de quatro mil funcionárias, em meio às transformações sociais provocadas pela Frente Popular francesa. O episódio revela uma dimensão menos celebrada de sua trajetória: por trás da imagem de mulher independente e revolucionária, Chanel também era uma empresária que enfrentava conflitos com suas próprias trabalhadoras.


Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, em 1939, Chanel fechou sua maison. Aos 55 anos, no auge de sua carreira, afastou-se da moda e passou anos na Suíça.


O retorno e os códigos que permaneceram


Gabriele Chanel com sua bolsa 2.55 – Foto: Divulgação


Chanel retornaria à alta-costura apenas na década de 1950, quando já tinha mais de 70 anos. Foi nesse período que alguns dos códigos que hoje associamos imediatamente à maison ganharam força definitiva.


Em 1955, surgiu a bolsa 2.55, batizada a partir de fevereiro de 1955, mês e ano de seu lançamento. Com sua alça de corrente, a bolsa permitia que as mulheres carregassem o acessório nos ombros e mantivessem as mãos livres. O matelassê e a estrutura retangular completavam o desenho que se tornaria um clássico.


O desenho reunia elementos que já faziam parte do universo da estilista. O couro matelassê, inspirado nas referências equestres que acompanharam sua vida, ganhou a superfície acolchoada característica. No interior, os diferentes compartimentos também foram pensados para organizar objetos pessoais, enquanto o bolso externo remetia à funcionalidade que sempre esteve presente em suas criações.


A corrente dourada ou prateada, dependendo da versão, tornou-se outro dos elementos reconhecíveis da bolsa. Sua inspiração é frequentemente associada às correntes usadas pelas cuidadoras da Abadia de Aubazine, onde Chanel passou parte da infância, além de referências aos acessórios presentes em seu círculo social.


O sapato bicolor, com sua combinação de bege e preto, também passou a integrar o vocabulário visual da maison. A construção criava um efeito de proporção: o tom bege alongava visualmente a perna, enquanto a ponta escura fazia o pé parecer menor.


Ao lado do tweed, do vestido preto, das pérolas, das correntes e do Nº 5, essas criações ajudaram a consolidar uma identidade visual reconhecível mesmo sem a presença do logotipo.


Coco Chanel morreu em 10 de janeiro de 1971, aos 87 anos, no Hotel Ritz, em Paris. Sua trajetória, porém, permaneceu presente na moda. Parte de sua influência está nas peças que criou. Outra parte está na mudança de comportamento que ajudou a provocar: a ideia de que uma mulher poderia se vestir com conforto sem abrir mão da elegância; de que elementos masculinos poderiam fazer parte do guarda-roupa feminino; e de que simplicidade, funcionalidade e sofisticação poderiam ocupar o mesmo espaço.


 


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