A trilha sonora de "Love Story: John F. Kennedy Jr. and Carolyn Bessette" é o verdadeiro destaque da série

No primeiro episódio de Love Story, de Ryan Murphy, John F. Kennedy Jr. — interpretado por Paul Anthony Kelly — esbarra em sua futura esposa, Carolyn Bessette (Sarah Pidgeon), em uma festa lotada. É o primeiro encontro dos dois, e a cena é, francamente, elétrica. O chefe de Bessette, o estilista Calvin Klein (Alessandro Nivola), faz a apresentação. “Você ainda vai me agradecer por isso”, diz Klein a Bessette, segurando seu braço e guiando-a até o “Homem Mais Sexy do Mundo” de 1988 da revista People. Ao fundo, começa a tocar a assombrosa balada “This Woman’s Work”, de Kate Bush.
“‘This Woman’s Work’ estava no topo da lista desde o primeiro dia”, diz a supervisora musical Jen Malone, que montou a trilha sonora da grandiosa — e um tanto controversa — série biográfica sobre os Kennedy. “Sempre foi uma música que eu quis colocar na série.” Ao longo dos nove episódios, a trilha criada por Malone costura o romance, as tensões e a tragédia que definem a história de um dos casais mais comentados dos anos 1990. Ela se apoiou fortemente na música alternativa, dream-pop, rock e hip-hop da época, além de incluir faixas — muitas delas favoritas pessoais — de artistas como Björk, Cocteau Twins, Mazzy Star e Portishead.
Não é um processo simples: algumas músicas podem levar meses para serem liberadas, e muitas vezes um momento cuidadosamente escolhido depende da aprovação de última hora do artista. Malone — cujo currículo inclui Euphoria, Wandinha e Muito Esforçado — é guiada sempre por um princípio: encontrar o momento em que música e imagem caminham em perfeita sintonia. A seguir, ela conta à Vogue sobre seu processo.
Vogue: Quais foram seus primeiros pensamentos quando foi chamada para trabalhar em Love Story? Como você começa um projeto assim?
Jen Malone: Recebi uma ligação da 20th Television, que me contou sobre a série. Eu adoro obras de época e tinha acabado de sair de Caught Stealing, o filme do Darren Aronofsky que se passa em 1998 no Lower East Side. Então eu já estava completamente mergulhada nos anos 90… adoro trabalhar nesse universo. Claro que eu já conhecia a história de Carolyn e John — eles eram muito amados. Cresci na Costa Leste, entre Nova York e Boston, e morava em Nova York na época em que eles estavam vivos. Eu costumo trabalhar em séries mais sombrias, então essa sendo uma história de amor me deixou muito animada para mergulhar nela.
Qual foi a orientação de Ryan Murphy e da equipe quando vocês começaram a estruturar a trilha?
A principal diretriz era que não fosse apenas um gênero musical. Queríamos que fosse o mais amplo possível. Acho que conseguimos isso com músicas bem diferentes entre si — como ter Sade e The Cranberries no episódio 4, ou todas as músicas divertidas do piloto. Obviamente tudo precisava ser muito específico ao período, porque cada episódio se passa em um ano diferente. Eu recorri à minha própria playlist de músicas dos anos 90 que amo e fui organizando cada uma em seu respectivo ano. Nova York, para mim, é quase um personagem da história. Dizemos muito isso na TV: que a música é um personagem. Mas em obras de época ela realmente se torna um personagem, porque ajuda a transportar o espectador para dentro da história.
Você mencionou que usou sua própria playlist. Houve alguma música que você quis usar, mas não conseguiu liberação?
Na verdade não tivemos nenhuma negativa. Conseguimos todas as músicas que pedimos. Houve algumas faixas que acabaram sendo cortadas porque o episódio mudou, mas, no geral, todos os artistas e gravadoras ficaram muito animados com a série. A liberação mais difícil foi a da Björk. Ela é extremamente cuidadosa sobre onde sua música é usada. No começo pensei: “Vamos tentar Björk.” Depois percebi no que tinha me metido, porque a aprovação simplesmente não vinha… ficamos naquele lugar frustrante em que não é um “sim”, mas também não é um “não”.
Normalmente, nesse estágio, o diretor ou showrunner escreve uma carta para o artista. Desta vez, eu mesma escrevi. Quando morei em Nova York, os dois primeiros discos da Björk, Debut e Post, foram a trilha sonora da primeira vez que me apaixonei. Escrevi uma carta muito pessoal e vulnerável sobre o que a música dela significava para mim e como ela combinava com a história de amor trágica e bonita da série. Em 48 horas recebemos a aprovação — apenas dois dias antes da mixagem final. Eu nem tinha uma música reserva adequada. Fiquei dizendo para todo mundo: “Vai liberar.” E felizmente liberou.
Quais outras músicas você adorou conseguir colocar na série?
Também trabalhei muito de perto com a equipe da Kate Bush para liberar “This Woman’s Work”, que eu amo. É uma música que sempre quis colocar em uma série. Desde o primeiro dia ela estava no topo da lista — especialmente para a cena em que John conhece Carolyn pela primeira vez. Além disso, usamos muitos artistas que eu amo: Cocteau Twins, The Stone Roses, Mazzy Star, The Breeders, Portishead. Quem conhece meu gosto provavelmente diria: “Sim, isso é uma escolha da Jen.” Mas foi muito colaborativo. Ryan Murphy entende muito de música e trouxe ótimas ideias. Outra diretriz era evitar apenas as músicas mais óbvias dos anos 90. Alguns clássicos estão lá, claro, mas também conseguimos incluir faixas que talvez não apareçam nas playlists padrão da década.=
Com certeza. Descobri muita música nova por causa da série. Como é apresentar essas músicas para um novo público?
Meu trabalho, antes de tudo, é servir à história e à visão do showrunner. Mas eu adoro apresentar às pessoas músicas que talvez elas não conheçam. Às vezes penso nisso como ser a irmã mais velha que faz mixtapes — aquele sentimento de: “Se você gosta disso, então escuta isso aqui! A série vira uma forma de reapresentar esses artistas para uma nova geração e também lembrar a todos o quanto a música dos anos 90 era incrível.
O que você procura em uma música para uma cena?
Muitas vezes você simplesmente sabe. Normalmente apresentamos várias opções — talvez cinco músicas — e assistimos à cena com cada uma delas.Eventualmente chega aquele momento em que todo mundo percebe: “Não, é essa.” É sobre o que a música está fazendo liricamente, emocionalmente e narrativamente. O que a cena está tentando dizer? Qual é o papel da música? Quando uma música realmente funciona, você sente imediatamente. É como se a música e a imagem tivessem sido feitas uma para a outra. Foi exatamente o que aconteceu com “Human Behaviour”, da Björk (no episódio 2, na festa de lançamento das piscinas Kelly Klein): não havia outra música que pudesse competir — e foi o mesmo com Kate Bush.
Existem grandes discordâncias na escolha de músicas?
Às vezes há debates, mas nesta série estávamos quase sempre alinhados. Houve talvez dois momentos em que tínhamos três ou quatro músicas que funcionavam muito bem. Nesses casos, o editor, o assistente de edição e eu compartilhávamos nossas opiniões e depois apresentávamos as opções para Ryan Murphy, Brad Simpson, Nina Jacobson e o restante da equipe de produção.
No fim das contas, é a série deles e a visão deles.
Dito isso, ao longo da minha carreira houve momentos em que precisei dizer: “Confiem em mim. É essa.” Um ótimo exemplo é “Goo Goo Muck”, do The Cramps, em Wandinha, da Netflix. Eu continuei dizendo: “Confia em mim.” Eles confiaram — e virou um momento enorme da série.
Falando em seus outros projetos, você trabalhou em Atlanta, Yellowjackets e Euphoria. Há algum “needle drop” que tenha marcado sua carreira?
Sinceramente, não sei se conseguiria escolher apenas um. Mesmo em Love Story é difícil. Eu adoro o momento em que “Blood of Eden” transita para “This Woman’s Work”, mas também amo os momentos com Cocteau Twins, Mazzy Star e muitos outros. Cada música carrega um impacto emocional próprio. Às vezes ela desperta uma memória central nas pessoas; outras vezes apresenta uma música que elas nunca ouviram antes — e então a primeira lembrança que elas têm daquela música passa a ser o momento em que a ouviram na série.
Essa é uma das partes mais recompensadoras do trabalho.
Talvez sejam escolhas óbvias, mas duas das minhas favoritas são “Linger”, do The Cranberries, e “No Ordinary Love”, da Sade. Eu adoro que o momento de Sade faça parte do diálogo também. “Que tipo de animal não gosta de Sade?”, diz John. O episódio 4 realmente mostra a amplitude que queríamos. Ir de Sade para “Linger”, do The Cranberries, cobre um grande território musical. O episódio está cheio de músicas — Madonna, Stereo MCs, Sade, Jeff Buckley — e essa variedade foi muito intencional. Queríamos que a trilha refletisse a diversidade do que as pessoas realmente escutavam naquela época.
A mistura é muito diversa. Também parece autêntica ao tipo de música que John e Carolyn estariam ouvindo.
Com certeza. Sei que John adorava rock clássico; sua banda favorita era Rolling Stones. Isso é ótimo, claro — mas Tom Petty também parecia alguém que definitivamente estaria na playlist dele, então incluímos.





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