Tudo precisa ser para sempre?
Quase tudo no universo nasce, cresce e morre: galáxias, estrelas, flores, animais, humanos e células. Mesmo assim, seguimos os dias tentando esquecer que sobre a finitude da existência e, muitas vezes, desqualificamos o que envelhece ou não dura para sempre.
Geni Núñez, escritora e ativista do povo Guarani, compartilhou no programa Café Filosófico uma reflexão de Dona Lulu Cunhai Botu Caioá, liderança do povo Caioá. Ela traz a imagem de uma folha que um dia foi verde e depois se tornou marrom: isso não faz com que seja menos bonita. A beleza, nessa perspectiva, não está presa à juventude, mas à própria vida.
“A partir do momento em que o nosso povo não desqualifica algo por não ser fixo, eterno e imutável, é possível criar uma outra relação com a vida e dignificar aquilo que muda, que se transforma, a passagem do tempo”, complementou Geni.
Essa forma de olhar para a mudança contrasta com a dificuldade que muitas vezes temos de lidar com aquilo que denuncia a passagem do tempo. De acordo com a psicanalista Camila Camaratta, perdas e mudanças podem ser compreendidas de forma lógica sem que tenham sido, de fato, elaboradas. “Em alguma medida, precisamos esquecê-las para viver.”
Afinal, como fazer planos para o futuro — ter filhos, terminar a faculdade, sonhar com um emprego — sem manter a ideia do fim a uma certa distância? A especialista explica que existe um paradoxo nisso: sabemos que tudo pode acabar e, ao mesmo tempo, “precisamos” viver boa parte dos nossos dias agindo como se as coisas fossem permanentes.
Por que nos apegamos ao que já mudou
Um bebê humano não sobrevive sozinho e, é na relação com o cuidador que ele aprende as primeiras experiências de segurança, continuidade e existência. “Do ponto de vista psíquico, nós nascemos dependentes. Por isso, vincular-se não é algo do qual deveríamos aprender a nos libertar: é constitutivo da experiência humana.”
No entanto, existe também uma dimensão narcísica no desejo de permanência, explica Camila. Queremos preservar uma relação porque ela fazia parte dos nossos planos, manter alguém como era quando nos apaixonamos e impedir o corpo de envelhecer porque preferíamos a versão anterior.
Acontece que “nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. Pois, na segunda vez, o rio já não é o mesmo, nem tampouco o homem”. Talvez por isso seja tão difícil aceitar que algumas histórias terminam mesmo quando o amor permanece.
Conheço diversas pessoas — e me incluo nessa lista — que ainda vivem uma relação encerrada, carregando o afeto por uma amizade, namoro ou casamento que já não existe da mesma forma. Quem amávamos mudou, nós também, e, às vezes, o que continua vivo é um vínculo entre dois fantasmas: quem o outro foi e quem éramos ao lado dele.
A beleza de transformar
Camila explica que elaborar uma perda também implica renunciar a uma parcela de onipotência: reconhecer que gostaríamos de mudar algo, mas não temos o poder de fazer isso. “A realidade pode mudar num instante; o psiquismo precisa de tempo para acompanhá-la. E, nesse intervalo, sofremos.”
E, por algum tempo, a dor precisa simplesmente ser sentida, sem exigirmos dela uma finalidade. Apesar de nem todo sofrimento ser transformador, ele pode ganhar outras formas: virar palavra, ser compartilhado ou até se transformar em algo criativo, como a escrita, a arte e outras formas de expressão. “A beleza desse processo pode não estar na dor em si, mas na capacidade humana de, quando possível, encontrar novos destinos para aquilo que nos aconteceu.”
O que o fim nos devolve
Saber que algo não estará disponível para sempre também pode nos fazer perceber sua preciosidade. E aquilo que termina na realidade pode permanecer vivo dentro de nós. “A consciência da morte pode nos devolver à vida”, observa a especialista.
Também vale lembrar que, criar memórias não é algo que acontece deliberadamente para guardar o futuro. “Nós vivemos experiências. Algumas deixam marcas, outras se perdem, e às vezes aquilo que parecia banal é justamente o que retorna anos depois carregado de afeto.”
Não temos controle sobre o que vai permanecer dentro de nós. Isso é diferente de transformar a finitude numa obrigação de aproveitar cada segundo. Nem todos os momentos precisam ser intensos, especiais ou memoráveis, explica Camila. A vida também é feita de dias comuns, e reconhecer que o tempo é limitado não significa viver tudo com intensidade, mas estar mais presente ao longo da nossa própria trajetória.
Mas o fato de uma experiência terminar não diminui necessariamente seu valor. Ela pode ter sido fundamental em determinada etapa da vida, produzido marcas, transformações e afetos importantes e, ainda assim, chegar ao fim.
“Talvez seja justamente essa uma das dificuldades que temos com a finitude: admitir que alguma coisa pode ter sido verdadeira, valiosa e importante sem precisar durar para sempre. O término não apaga o que foi vivido.”
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