A felicidade não se busca, se constrói
Era final de tarde em São Paulo. Gustavo Arns estava cansado, com fome, pensando no trânsito que o esperava. Tinha passado o dia num grande evento de negócios. Quando anunciaram um coffee break no outro extremo do pavilhão, ele não pensou duas vezes. Foi atrás da comida. E foi ali, entre uma costelinha com molho barbecue e um auditório que se abria para a última palestra da noite, que ele encontrou a felicidade.
Não como um sentimento passageiro, mas como uma ciência. O palestrante era Tal Ben-Shahar, professor de Harvard, e o tema, Ciência da Felicidade. Gustavo nunca tinha ouvido falar. Entrou por curiosidade, sentou-se, e ouviu perguntas que nunca tinha se feito: o que te energiza? Em que você é bom? O que brilha seu olho, aquece seu coração, te inspira?
“Se eu fui atrás de comida, eu encontrei a felicidade”, brinca ele hoje, nove anos depois, à frente do Congresso Internacional de Felicidade, que chega à sua nona edição em 2026. O evento acontece nos dias 14 e 15 de novembro, em Curitiba. Confira mais detalhes no site.
No entanto, a frase, dita assim, leve, esconde uma travessia. Porque entre aquele coffee break e o congresso que reúne milhares de pessoas de mais de 500 cidades, houve uma crise de sentido.
A crise que virou caminho
Em 2015, Gustavo tinha 30 anos. Casado, tinha uma filha, um apartamento, um carro, um trabalho estável. “Eu pensei assim: será que a vida é isso?” A pergunta não o abandonou. “Eu estava numa reflexão de vida, numa crise de sentido mesmo.” Ele poderia ter afogado o desconforto, deixado para lá. Mas escolheu o contrário: “Fui atrás do desconforto.”
Gustavo conversou com empresários, com pessoas responsáveis por ONG’s, com amigos que ele percebia adoecidos. Na época, não se falava de burnout. “Hoje tem um nome para isso. Naquela época não existia.” Ele mergulhou também em ferramentas menos ortodoxas – mapa astral, numerologia, terapias integrativas. E foi num mapa astral que uma astróloga lhe recomendou assistir a um documentário sobre empreendedorismo social chamado “Quem se importa?”, da Mara Mourão.
A ciência da felicidade, o empreendedorismo social, a crise existencial. As peças foram se encaixando.
“Foi como se um quebra-cabeça se encaixasse.”
Felicidade: da busca à construção
Quando o congresso começou a crescer, uma pergunta surgiu: afinal, que felicidade é essa de que estamos falando? A palavra é escorregadia, abstrata, facilmente capturada por fórmulas mágicas e promessas vazias. Gustavo encontrou no conceito de Tal Ben-Shahar – que depois se tornou orientador do seu mestrado – uma bússola.
“Ele define felicidade como a combinação do nosso bem-estar físico, emocional, intelectual, relacional e espiritual. Quando cuidamos de cada um desses componentes, estamos naturalmente construindo mais felicidade.”
A palavra “busca”, observa Gustavo, carrega uma armadilha. “Parece que preciso procurar algo em algum lugar.” Como se a felicidade fosse uma linha de chegada, um ponto fora de nós. Já a “construção” traz outra ideia: a de autorresponsabilidade, de escolhas, do papel que cada um tem nessa edificação.
“Não podemos confundir atributos culturais com felicidade. O russo não é menos feliz porque sorri menos. Sorrir é um atributo cultural ocidental, assim como o abraço é latino. A experiência segue subjetiva: a 20°C, o curitibano está de bermuda e o carioca de blusa de frio. Mas objetivamente são 20°C.”
Essa compreensão está na base do congresso, que se organiza a partir de quatro pilares: ciência, filosofia, arte e espiritualidade. Não como compartimentos isolados, mas como dimensões de uma mesma experiência humana. A programação reúne nomes como Daniel Goleman, psicólogo e autor do best-seller “Inteligência emocional”, que participará de forma virtual para discutir como a inteligência emocional se torna ainda mais essencial em tempos de inteligência artificial.
Também estarão presentes Rossandro Klinjey, referência em saúde emocional; Lúcia Helena Galvão, filósofa e escritora; Elisama Santos, especialista em comunicação não violenta; Sri Prem Baba, mestre espiritual; e Dasho Karma Ura, ministro no Butão e um dos principais estudiosos da Felicidade Interna Bruta.
Uma das novidades desta edição é um palco 360°, pensado para ampliar a conexão entre palestrantes e participantes. “Mais do que assistir palestras, a ideia é viver uma experiência profunda de autoconhecimento e desenvolvimento humano”, diz Gustavo.
E, para que você possa viver essa experiência de perto, os leitores da Vida Simples têm um presente especial: 15% de desconto na compra dos ingressos. Basta usar o cupom VIDASIMPLES no site oficial do evento.
Felicidade também dá trabalho
O congresso também amplia o debate sobre felicidade nas organizações. E aqui, Gustavo faz uma distinção importante. “Colaborador feliz produz mais, mas é perigoso se isso virar mais uma cobrança: além da meta, preciso ser feliz”, observa. O resultado seria uma esquizofrenia organizacional – uma vitrine de ranking enquanto o colaborador adoece.
A visão que ele defende é outra: “O indivíduo que dorme bem, se exercita, regula emoções e encontra sentido no que faz vai ser um colaborador melhor, mas também um melhor vizinho, filho, pai e cidadão. É uma relação ganha-ganha.”
Ele lembra que a OMS (Organização Mundial da Saúde) considera a solidão uma pandemia. “Como um comportamento vira uma pandemia? A solidão hoje mata mais do que doenças cardiovasculares, inclusive afetando mais jovens do que idosos”, diz. Há algo errado, insiste, no individual e no coletivo.
“Criamos um estilo de vida que gera doenças que não existiam.”
Uma faísca que reverbera
Gustavo conta que, numa conversa com o professor Nicolai Cursino, definiu a missão do congresso: elevar o nível de felicidade do Brasil. Não de forma arrogante, mas compartilhando a responsabilidade com as milhares de pessoas que passam pelo evento.
“Se cada um acender uma faísca interna e fizer algo por si, isso reverbera na família, no trabalho e na comunidade.”
Ele já ouviu relatos de pessoas que mudaram de vida depois do congresso. Mas também de pessoas que mantiveram o mesmo trabalho, o mesmo casamento, a mesma rotina – e mudaram totalmente o ponto de vista. “Mudar a interpretação da realidade altera até a nossa neuroquímica e resposta emocional”, explica.
Essa é a grande virada que o evento propõe. Não uma promessa vazia de uma vida sem dor. Mas a possibilidade de construir, dia após dia, um bem-estar que não depende de circunstâncias perfeitas. Uma felicidade que não se busca em algum lugar distante. Uma felicidade que se constrói aqui, agora, com as escolhas que fazemos.
➥ Leia mais
– A química da felicidade
– Por que é proibido pisar na grama?
– A beleza de deixar uma herança para o mundo
O post A felicidade não se busca, se constrói apareceu primeiro em Vida Simples.




COMENTÁRIOS