Você não está sozinha
“Quando tudo parecia tão tranquilo, uma tarde e outra tarde tão normal, vem a vida e pede um tempo, pára tudo…” Esse é o começo da música Túnel, que compus depois de enfrentar um câncer de mama. Ela fala sobre o instante em que a vida, até então organizada em planos e pequenas certezas, muda de direção sem pedir licença.
O refrão nasceu dentro do túnel de uma tomografia em dezembro de 2021. Em mais um exame, veio o verso: “Presa no túnel com meus pequenos desejos, vão-se os anéis, ficam os dedos.” Foi quando eu me dei conta de que perderia muitas coisas, a começar pela minha mama direita. Àquela altura, já havia perdido os cabelos, a rotina que conhecia, a viagem com a passagem comprada para aquele fim de ano. “Não é um câncer bonzinho”, avisou a oncologista, ao receitar quimioterapia o mais rápido possível.
“O diagnóstico traz uma necessidade de reorganização não apenas física, mas de identidade, em um processo de adoecimento que coloca a mulher diante de um universo desconhecido”, afirma Tatiane Lima, psico-oncologista do A.C. Camargo Cancer Center. Entre as reações mais frequentes estão a incredulidade – “Isso está mesmo acontecendo? Por que comigo?” –além de raiva, ansiedade, culpa, incerteza e medo, muito medo. “Será que vou morrer?”, “O tratamento vai doer?”, “ Vou ficar feia?”, são perguntas comuns.
“A sensação é de perda do controle sobre a própria vida”, diz Tatiane. Nesse contexto, o cuidado com a saúde mental deixa de ser um complemento, para integrar o tratamento. “Nosso papel é oferecer escuta. Fazemos uma avaliação psicológica para entender quem é essa mulher, quais recursos possui na sua história que podem fortalecê-la”. O objetivo é ajudá-la a reconhecer estratégias de enfrentamento para desafios do dia a dia, como conciliar tratamento com o trabalho – ou a pausa dele – família e vida social.
Cada vez mais, hospitais e centros especializados adotam uma visão ampliada da oncologia, formando equipes multiprofissionais. Além do apoio psicológico, fatores práticos fazem a diferença: ter acesso aos medicamentos e procedimentos no tempo adequado e contar com uma rede de apoio reduzem parte da ansiedade. “Quando a paciente sabe que não está sozinha, direciona mais energia para si mesma”, diz Tatiane.
O apoio também precisa ultrapassar o consultório e chegar ao ambiente profissional. Para André Sherak, criador da Horizon Bem-estar Organizacional, a atualização da lei NR-1, que passou a incluir os riscos à saúde mental entre as responsabilidades das empresas, é fundamental preparar lideranças, combater a discriminação, permitir trabalho híbrido e adaptar funções. “O importante é que a colaboradora se sinta acolhida e perceba que existe uma rede de apoio ao seu redor, para que seu foco possa estar no tratamento”, diz André.
Pequenas-grandes despedidas
Entre ouvir a palavra “câncer” e conseguir voltar a respirar normalmente, afinal, há um intervalo que nenhum exame consegue medir. Os desafios são gigantes, e entre os mais íntimos estão as mudanças na imagem e no corpo. No caso do câncer de mama, há ainda uma camada simbólica. As mamas estão associadas à feminilidade, à sexualidade, à maternidade e à maneira como boa parte das mulheres constrói sua autoestima.
A véspera da cirurgia da retirada da mama talvez seja o momento mais delicado. Lembro que, durante o banho, agradeci à minha mama direita por tudo o que ela tinha me proporcionado: por ter amamentado minha filha, pelos momentos de prazer, pela nossa história, aos meus 52 anos.
Na pré-cirurgia, a mastologista Francini Mattos me recebeu com uma frase que me acalmou: “Orei por você”. A espiritualidade, para muitas mulheres, torna-se fonte de sustentação, independentemente de religião ou crença específica. “Acreditar que existe algo maior no comando é confortador. Isso traz esperança, diminui o estresse e aumenta a coragem”, diz a Dra. Francini.
O fim do tratamento costuma ser visto como uma linha de chegada. Muitas vezes, porém, ele marca apenas o início de uma nova etapa, acompanhada por um fantasminha: o medo da recidiva. Mesmo quando tudo parece bem, ele pode surgir de forma inesperada, diante de uma dor, um novo exame ou lembrança.
A microempresária Ana Carolina Cury, de 46 anos, conhecia bem esse medo. E um dia ele se tornou realidade. Perto de completar cinco anos de remissão, a notícia de que o câncer havia voltado trouxe de volta a vulnerabilidade. “Chorei por uma semana”, lembra. Mas, curiosamente, a experiência foi diferente da primeira – para melhor. Ela já contava com suporte psicológico e havia acessado ferramentas emocionais para enfrentar o que viria.
Dessa vez, veio a quimioterapia, uma mama a menos e os efeitos da menopausa induzida. “Imagine: eu estava careca, sem um peito, sem libido, engordei 12 quilos. Vi que precisava olhar para questões como sexualidade, fertilidade.”
A grande virada aconteceu quando Ana Carolina percebeu que sobreviver não era a única tarefa. Seria preciso reaprender a viver dentro daquele novo corpo e se tornar menos passiva diante do processo. “Mudei de oncologista e me tornei protagonista do tratamento, participando mais das decisões”. O marido teve papel fundamental. “Ele é um super parceiro, me acompanhou em todas as quimios e cirurgias. Mesmo assim, ainda estamos aprendendo a lidar com o depois”, diz ela, em remissão há quatro anos.
Importante frisar que grupos de apoio oferecem algo que nem sempre a família consegue proporcionar: a sensação de estar entre pessoas que compreendem exatamente o que está acontecendo.

O câncer é um capítulo da vida, não a vida inteira
Tudo bem não ser a super-heroína
“É comum que uma mesma mulher se sinta forte e fragilizada, esperançosa em um dia e desesperada no outro”, pontua a psicóloga Tatiane. Reconhecer essas oscilações pode aliviar a culpa por não conseguir manter uma postura positiva o tempo todo. “Existe uma cobrança social para que a paciente seja ‘guerreira’, otimista e resiliente. Mas ela também precisa se permitir sentir medo, luto e cansaço. Todas as emoções são legítimas.”
Outro aspecto importante: a cura física nem sempre acontece ao mesmo tempo que a emocional. Só depois, quando a vida começa a retomar algum ritmo, surgem questões suspensas pelo caminho. “Muitas mulheres precisam ressignificar cicatrizes e até a própria ideia de beleza”, diz Tatiane.
Ironicamente, é no parêntese do tratamento do câncer que muitas mulheres descobrem algo raro em suas vidas: tempo e permissão para cuidar de si mesmas. “Por isso, é comum aquelas que mudam a vida de forma radical, que transformam um hobby em profissão, que viram maratonistas”, afirma.
Ana Carolina Cury, por exemplo, criou a Oncobox, uma caixa para presentear pacientes oncológicas. A ideia surgiu ao perceber que muitas pessoas queriam ajudar mas não sabiam como. “Eu recebia chocolates quando estava enjoada, ganhava lenços quando estava morrendo de calor”, lembra. A Oncobox é uma caixa linda, que contém amuleto artesanal, vela aromática, creme especial para quem faz radioterapia, entre outros objetos sensíveis e simbólicos. Sem esquecer que a presença é o melhor presente emocional, seja como acompanhante no hospital ou como motorista.
No meu caso, cantar me salvou. Nunca parei de cantar. Cheguei a me apresentar em um período em que minhas plaquetas estavam baixas e me senti mais forte. Também comecei a compor. Voltei às anotações que havia guardado só para mim. Dali nasceram as canções do álbum Curanto — palavra que une cura e canto. Cada faixa revela um trecho do caminho que percorri.
Um novo capítulo
A notícia boa é que nunca houve tantos motivos para a esperança. Hoje, a medicina reconhece diferentes subtipos tumorais e os avanços da ciência permitiram personalizar cada vez mais os tratamentos. “Cirurgia, quimioterapia, hormonioterapia, imunoterapia e terapias-alvo podem ser combinadas de acordo com as características de cada caso”, afirma a oncologista Fabiana Makdissi, líder do Centro de Referência em Tumores da Mama do A.C. Camargo.
“O diagnóstico não significa que a pessoa terá necessariamente um desfecho ruim. Significa que ela tem uma doença que exige atenção, ação e tratamento. E quanto mais precoce o diagnóstico, melhores são as chances”, diz a mastologista Francini. Essa transformação faz com que cada vez mais mulheres vivam muitos anos após a remissão e aprendam a construir uma nova realidade. “O câncer é um capítulo da vida, não a vida inteira. É preciso virar a página e olhar para a frente, com fé, esperança e confiança de que o melhor foi feito”, diz ela.
Eu mesma, imaginei que o desafio seria atravessar o túnel. Hoje, entendo que o mais importante foi descobrir quem me tornei ao sair dele. O câncer deixou marcas, mas também revelou caminhos, encontros e canções que talvez nunca existissem sem essa travessia. O túnel ficou para trás. A estrada continua cheia de possibilidades.
Rosane Queiroz é jornalista e cantora. Em remissão há quatro anos, aprendeu a transformar dor em canção e quer auxiliar outras mulheres a vivenciar esse processo com arte e esperança.
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