Até onde vai o nosso papel ao ajudar alguém em sofrimento
Alguém que você ama está sofrendo, às vezes de um jeito que assusta, e durante um tempo você se torna o primeiro a ouvir, o mais disponível, o que responde mais rápido. Conforme vai passando o tempo você não deixa de se importar, mas vai ficando mais pesado, os seus próprios problemas e sentimentos acabam guardados e às vezes ser a pessoa que sempre está lá para alguém fica mais difícil, ainda mais quando não existe alguém lá para você.
Até chegar no momento em que surgem duas questões: Até onde eu aguento? O quanto eu realmente estou conseguindo ajudar?
Se questionar não quer dizer que você não se importa ou está desistindo, mas pode ser o que abre a porta para limites que vão ser importantes até para quando estar presente, também estar realmente inteiro.
O cuidado também tem limites
Felipe Guerra, psicólogo junguiano, aponta quando pode estar ficando mais pesado do que devia: “Apoiar é ouvir, estar junto e ajudar a pessoa a encontrar caminhos, respeitando o que ela consegue fazer e decidir naquele momento. Nem sempre ela precisa de uma solução. Às vezes, precisa conseguir falar da dor sem ser julgada ou apressada a melhorar. A responsabilidade fica excessiva quando a gente começa a acreditar que precisa garantir que o outro fique bem, tomar todas as decisões por ele ou impedir qualquer sofrimento.”
Se resolver a própria vida parece impossível, imagina a dos outros? A crença de que amar é estar sempre disponível e que quando alguém está mal, cabe a nós fazer alguma coisa, nos leva a nos responsabilizar por situações fora do nosso alcance. De modo que quando as coisas não acontecem como achamos que devia, além da frustração, também sentimos culpa.
A verdade é que na teoria tudo isso parece óbvio, mas no dia a dia é difícil traçar essa linha. Até quando você está sozinho os problemas de alguém que você se importa podem pesar mais que os seus.
O desgaste de quem está sempre disponível
Os sinais de que algo passou do ponto costumam chegar de forma gradual, não de uma vez. Felipe descreve esse processo:
“Um sinal é viver de prontidão, com medo de que alguma coisa aconteça se você não responder imediatamente. Outros são perder o sono, deixar suas necessidades de lado e sentir que já não pode dizer ‘hoje eu não consigo’. A relação também merece atenção quando toda conversa passa a girar em torno do sofrimento e você se sente responsável por interpretar, orientar e acompanhar cada passo do outro. O cansaço, a irritação e a sensação de estar preso nessa função podem mostrar que o cuidado está concentrado demais em você. Isso não significa falta de amor. Significa que a rede precisa ser ampliada.”
Quando o cuidado de alguém em sofrimento recai sobre uma única pessoa, seja um parceiro, um amigo próximo, um filho, a estrutura de sustentação é frágil demais, independentemente de quanto afeto existe nessa relação. O vínculo afetivo tem um valor que nenhum recurso profissional substitui, mas ele não oferece, sozinho, tudo o que alguém pode precisar.
Estabelecer limites nesse contexto costuma vir acompanhado de mais culpa, e o raciocínio que alimenta essa culpa se ancora em duas coisas: em que isso pode representar falta de amor ou de empatia com o outro e o medo do “e se”. “Se eu me afastar, a pessoa vai piorar”. “Se eu disser que não aguento, ela vai se sentir abandonada”. Até muitas vezes chegar em “se eu não ajudar, essa pessoa vai morrer”.
Felipe propõe uma pergunta para examinar esse raciocínio por dentro: “Eu descumpri um cuidado que poderia oferecer ou estou me cobrando algo que está além das minhas possibilidades?” Sentir culpa não prova, por si só, que fizemos algo errado.
Comunicar um limite sem que ele seja visto como um problema é possível, mas exige sinceridade. “Não dá para garantir que o outro não se frustre ou se sinta abandonado”, reconhece Felipe.
“Mas dá para comunicar o limite com afeto, clareza e sem responsabilizá-lo pelo nosso desgaste. Você pode dizer: ‘Eu me importo com você e quero continuar por perto, mas não estou conseguindo lidar com tudo isso sozinho. Vamos pensar em quem mais pode ajudar?’. Também é importante tornar esse limite concreto: dizer quando você pode conversar e que tipo de ajuda consegue oferecer. O cuidado está em oferecer algo que você realmente consegue cumprir. Um limite pode ser difícil de ouvir e, ainda assim, ser necessário para que a relação continue de forma sustentável.”
O caminho para pedir ajuda
Pedir ajuda pode ser um passo muito difícil, e se você está acompanhando alguém, que bom que essa pessoa se sentiu confortável para falar com você. Mas quando atingimos esse limite que tanto falamos e reconhecemos que é necessário ajuda profissional, é mais um passo que pode ser ainda mais difícil.
É lógico que não dá pra obrigar ninguém a entrar em um consultório, mas popor a ideia com respeito, ouvido e sem se colocar como superior é um bom caminho. Felipe sugere começar por uma conversa para entender como o outro se vê: “Tenho percebido que você está sofrendo e que isso tem afetado seu dia a dia. Como se sente em procurar ajuda?” Ouvir o que dificulta esse caminho para a pessoa é parte do processo, porque pode haver medo, vergonha, uma experiência ruim anterior ou uma questão financeira.
A partir daí, a ajuda prática faz sentido, como procurar um serviço junto, acompanhar num primeiro atendimento ou ajudar entrar em contato, se a pessoa quiser. E depois, continuar presente sem precisar saber tudo o que é conversado com o profissional ou fiscalizar o andamento do tratamento.
Quando falamos sobre buscar ajuda profissional em questões relacionadas à saúde mental, ainda estamos falando de uma barreira muito grande a ser quebrada. Quando você reconhece essa necessidade, já está dizendo para si mesmo que o que sente merece atenção de verdade.
No matéria “Por que é tão difícil aceitar cuidado?” a psicanalista Roberta D’Albuquerque descreve que aceitar ajuda implica, para muitas pessoas, admitir uma falta, aproximar-se de uma vulnerabilidade que preferiríamos evitar. Saber disso ajuda a entender por que o caminho até a ajuda profissional pode ser longo e não linear, e por que quem está próximo tem um papel que nenhum especialista substitui nesse percurso.
A melhora do outro não pode depender de uma única pessoa. E cuidar de si, nesse contexto, não é uma concessão ao egoísmo. É o que torna possível continuar presente.
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