Calmaria feita à mão
Quando eu era criança, tínhamos uma vizinha que fazia crochê. Nas tardes de sábado, ela se sentava com minha mãe em nossa varanda e a ensinava ponto por ponto. Parecia mágica. Eu adorava vê-las juntas, conversando como se tecessem as próprias vidas. De tanto acompanhar aquela artesania, acabei aprendendo também. Pegava os restos de linha e inventava roupas para as bonecas. Não importava se estava certo ou errado: o divertido era vesti-las, experimentando formas e cores.
Mais tarde, o bordado livre e a aquarela me pegaram. Aprendi sozinha, sem usar técnicas muito elaboradas, seguindo uma espécie de intuição. Mais que um hobby, percebi nessas duas práticas uma maneira de desanuviar a mente e me manter em contato com a arte. Pintar e desenhar se tornaram duas das minhas maneiras de regular minhas emoções.
Durante muito tempo pensei que aquele prazer de fazer algo com as próprias mãos fosse apenas uma lembrança afetuosa da infância. Hoje, percebo que, em um cotidiano marcado por notificações, velocidade e excesso de informação, as práticas manuais têm se transformado em pequenos refúgios. Não apenas porque geram objetos bonitos, mas porque devolvem algo que também floresce devagar: a capacidade de observar, sentir e permanecer. “A arte tem esta magia. Ela conecta, reúne pessoas, consegue transpor barreiras”, observa a psicóloga clínica e arterapeuta, Patricia Focchi.
Segundo ela, toda forma de expressão criativa pode favorecer o bem-estar emocional. O movimento do “faça você mesmo” e da conexão com atividades manuais, permitem um respiro, uma calmaria em meio à agitação do dia a dia. “Sempre que alguém começa o processo terapêutico e não consegue expressar-se por meio da fala, eu ofereço recursos expressivos”. Patrícia explicou que, conforme as mãos trabalham, as expressões artísticas apresentam qualidades terapêuticas, justamente por possibilitarem que emoções caóticas tomem forma. “Assim elas podem ser despotencializadas de suas cargas afetivas, promovendo o surgimento de forças autocurativas da psique, estimulando as funções de criatividade”.
Um estudo recente publicado pela Anglia Ruskin University (ARU), no Reino Unido, indicou que as tarefas manuais induzem ao estado de flow (fluxo), um mecanismo psicológico onde a mente fica tão absorvida na atividade que interrompe pensamentos negativos e ansiosos.

O contato com a matéria nos devolve uma sensibilidade rara em um mundo mediado por telas
O tempo dentro do tempo
Talvez seja por isso que tantas pessoas estejam procurando por essas atividades manuais sem necessariamente desejar se tornar artistas. Há quem chegue em busca de um novo passatempo. Outros procuram uma pausa para a mente acelerada, um espaço de encontro ou simplesmente uma maneira diferente de atravessar os dias. E, quase sempre, acabam encontrando mais do que imaginavam.
É o que percebe Marina Dini, sócia e bordadeira do Clube do Bordado. Para ela, o encanto por uma atividade aparentemente lenta, como o bordado, está justamente no fato de ela oferecer algo cada vez mais raro: uma forma de relaxar de verdade. “Muitas pessoas recorrem às telas e às redes sociais nos momentos livres, mas isso acaba produzindo o efeito contrário, deixando o cérebro e o corpo ainda mais estimulados”, pontuou. É como se o bordado levasse à uma reconexão com o tempo real das coisas. “É um ritmo muito mais próximo do tempo da natureza do que da velocidade a que estamos acostumados hoje.”
Essa desaceleração começa nos pequenos gestos, como o entra e sai da agulha, a repetição dos pontos, a textura da linha entre os dedos. Marina explicou que o efeito meditativo do bordado está muito ligado à repetição dos movimentos. “No cérebro, funciona como uma espécie de meditação ativa. Além disso, o trabalho manual, tátil e concreto, nos conecta ao presente, ao agora. É quase o oposto do que acontece quando passamos horas diante das telas e das redes sociais. É realmente relaxante.”
O Clube começou em 2013, como um encontro entre amigas e conhecidas. Marina, que já bordava de maneira informal desde a adolescência, aprendeu oficialmente os primeiros pontos neste mesmo ano e nunca mais parou. Hoje o bordado é sua profissão. “Mesmo quem nunca bordou costuma ter uma avó, mãe ou tia que bordava. Muitas vezes essas pessoas não tiveram a oportunidade de aprender diretamente com elas, mas encontram no Clube uma forma de criar essa conexão. É uma maneira de se aproximar dessas histórias e manter esses saberes vivos.”
Paciência e aceitação
Ainda que cada pessoa esteja concentrada em sua própria peça, há algo de profundamente compartilhado nessas experiências. As mãos trabalham em silêncio, mas as conversas acontecem naturalmente. Histórias são contadas, memórias reaparecem e, muitas vezes, amizades começam ali. Foi assim com a Ana de Faria. Advogada há quase 20 anos, Ana se mudou para São Paulo em busca de novas oportunidades de trabalho, mas teve muita dificuldade para fazer novas amizades. Viu no Instagram um anúncio de um evento de introdução ao artesanato com cerâmica e se inscreveu. No dia, quase desistiu de ir. “Fiquei pensando que me sentiria muito deslocada no meio de tantas pessoas desconhecidas”.
O resultado foi exatamente o contrário: Ana passou a tarde de sábado ao lado de mulheres diferentes e saiu de lá com convite para uma noite de vinhos e um outro encontro marcado para praticarem juntas o que aprenderam na aula. “Me senti muito acolhida. Acho que a arte tem essa função de promover encontros”, avaliou.
A argila tem essa proposta de nos chamar para um encontro ainda mais antigo. A ceramista Laís Magalhães, fundadora do Solar Ateliê de Cerâmica, conta que o primeiro contato com o barro desperta algo difícil de explicar. “A gente encosta na argila e ela nos chama, nos atrai e ali permanecemos. É um resgate de uma memória tátil muito antiga. Uma reconexão com nossa essência, nossa humanidade e nossa ancestralidade.”
Ela observa que muitas pessoas chegam ao ateliê motivadas pelo desejo de criar algo concreto com as próprias mãos. Aos poucos, porém, descobrem que a cerâmica também ensina sobre espera, paciência e aceitação. Afinal, há o tempo da modelagem, da secagem, da queima e da ação imprevisível do fogo. “Chegam com a expectativa de fazer coisas belíssimas de primeira e já sair com a peça pronta no dia. O bacana é que, mostrando o ateliê e explicando todo o processo, logo entendem a importância de cada etapa e do tempo para o desenvolvimento.” Nesse processo, o imperfeito deixa de ser um erro para se transformar em parte da própria beleza. “Na natureza nada é perfeito e isso é ser perfeito”, resume Laís.
Como a água quiser
Se o barro nos reconecta com a terra, a aquarela conversa com outro elemento da natureza: a água. E nos lembra, o tempo todo, que viver também é aprender a fluir e a abrir mão do controle. Para a especialista em desbloqueio criativo por meio da aquarela e da meditação, Ju Varella, foi justamente durante um período de ansiedade e pânico que a pintura deixou de ser apenas uma prática artística e se transformou em uma ferramenta de autoconhecimento. “Eu acredito que ela ensina muito sobre controle. Não só pela questão da água ser incontrolável, pela necessidade de lidar com as adversidades, mas também com o quanto ela reflete o nosso inconsciente.”
Mais do que buscar um resultado perfeito, a experiência passa a ser um convite para acolher o inesperado. Na aquarela, as manchas deixam de representar um erro para se tornarem parte da beleza da obra. “A aquarela tem uma característica muito específica, que são as manchas. A experiência de pintar com manchas e conseguir ver a beleza depois é transformadora.”
Segundo Ju, esse aprendizado não permanece apenas no papel. Aos poucos, ele atravessa a prática artística e alcança outras dimensões da vida. “Vamos percebendo que os erros nos conduzem a novos elementos, às novas cores, e isso vai permitindo que a gente explore novas possibilidades”. Isso, de acordo com a Ju, nos traz mais coragem, mais liberação e mais capacidade de lidar com os desafios da vida.
Essa transformação também é observada por Patrícia. Em sua perspectiva, o fazer manual não modifica apenas aquilo que produzimos, mas também quem o produz. “Você faz a arte e ela te faz, ela te compõe, compõe sua história de vida, de alma.” Por isso a experiência artística é capaz de alcançar lugares onde nem sempre a linguagem verbal consegue chegar. “A arte proporciona um caminho interno, muitas vezes silencioso, mas que dá vozes às expressões da alma e proporciona bem-estar físico e mental.”
O contato com a matéria, sua textura, temperatura, peso e resistência, nos devolve uma sensibilidade cada vez mais rara em um mundo mediado por telas. Fazer algo com as mãos é também lembrar que temos um corpo, um ritmo e uma presença. Não é sobre a perfeição de resultados, mas a possibilidade de, por alguns instantes, cultivar um olhar mais atento para o que cresce lentamente dentro e fora de nós.
Débora Gomes é jornalista e acredita que a escrita à mão também tem um jeitinho terapêutico de acolher as emoções.
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