Seja bem-vindo
Belo Horizonte,27/08/2026

  • A +
  • A -

‘Somos cocriadores da nossa realidade’

vidasimples.co
‘Somos cocriadores da nossa realidade’
Publicidade

Sri Prem Baba, mestre espiritual da linhagem Sachcha e fundador da Sri Prem Baba Academy, está sempre atento ao que se passa com o mundo. Se não bastasse a sensibilidade que o leva a traduzir o que está pulsando no inconsciente coletivo, ele ainda colhe impressões diretas das pessoas que o procuram, vindas de diferentes países, em busca de caminhos de cura para suas aflições.


“Senti alguns buscadores sinceros se frustrando e perdendo esperanças, sem entender o porquê. Parecia até que nós estávamos indo num movimento ascendente, onde as coisas pareciam estar melhorando, mas, de repente, parece que aconteceu o contrário: andamos para trás e muita gente entrou em colapso. As doenças mentais crescendo, ansiedade, pânico, depressão, por falta de entender o porquê. ‘Mas por que tudo isso? O que está acontecendo com o mundo?’”


O avanço da inteligência artificial e da robótica, as tecnologias que possibilitam a longevidade, guerras crescentes, a polarização aguda na política, desequilíbrios na economia e a crise ambiental têm levado muitos buscadores espirituais a questionarem: O que nos assola no contemporâneo é obra do destino, ou seja, já estava escrito em alguma instância superior? É algo imutável? Temos que passar por isso? Estamos fadados a sofrer?


“Senti que era a hora de eu falar sobre esse assunto, que é o karma versus destino. É um conhecimento muito antigo que vem sendo estudado especialmente nas tradições hinduístas e budistas. No Ocidente, algumas tradições religiosas até falam também, mas percebo ainda muita confusão e equívocos que acabam gerando mais sofrimento”.


Se você quer entender como o destino, o karma, o livre arbítrio e o inconsciente influenciam nossa maneira de tramar os fios da nossa história, saiba que o novo livro de Sri Prem Baba, Destino – O poder do karma (Matrix), traz boas explicações e insights. O lançamento acontece no dia 13 de agosto, quinta-feira, às 19 horas, na Livraria da Vila, unidade Fradique Coutinho, na Vila Madalena, em São Paulo.


Num bate-papo virtual, ele falou sobre controle, medo, confiança, entrega e a alegria de servimos ao propósito do nosso coração.


Por que a palavra karma ganhou uma conotação negativa no ocidente?


Eu sinto que isso acontece em diferentes lugares do mundo por influência de leituras equivocadas dos textos sagrados, por meio dos quais esses ensinamentos foram transmitidos. Eu sinto que isso nasce de equívocos de cognição e de percepção, que, por sua vez, criaram crenças que vêm realmente alicerçando o imaginário e, consequentemente, a realidade de uma gigantesca população. É muito sério isso.


Começo meu novo livro com uma frase de Brihadaranyaka Upanishad dizendo que nós somos os nossos desejos mais profundos, que são criados pelos nossos pensamentos persistentes — ou seja, as nossas crenças. Então, se nós acreditamos que o karma é um castigo e que nós estamos fadados a uma punição eterna, acabamos criando essa realidade. Nós estamos nos colocando dentro de uma cela sem chave, porque a realidade é criada pelos nossos pensamentos, palavras, ações e crenças mais profundas. Se nós acreditamos nisso, estamos nos colocando dentro de um círculo vicioso, dentro de um labirinto, porque não tem saída.


Então, em algum momento, essa distorção foi propagada pelo efeito do “telefone sem fio” e hoje está aí, no imaginário coletivo, a noção de que karma é um castigo, uma sentença punitiva. Isso é absolutamente errado. O karma não é castigo.


O que é o karma, afinal?


O karma é uma ferramenta pedagógica refinada, é um sistema de aprendizado, um instrumento que possibilita a evolução da consciência, uma vez que nos possibilita acordar potenciais adormecidos. Então, karma não é a conta que a vida cobra de você; é a escola que a vida te oferece.


Perceba que diferença radical de entendimento e de visão a respeito do conceito. Se você tem essa visão de que o karma age em seu benefício, para te ajudar a crescer e acordar os seus potenciais, você se move na direção da expansão. A vida colabora, pois conspira a favor dessa evolução. Mas, se você acredita que é refém, que tem que pagar e que está sendo castigado, você vai se afundando no vitimismo, numa ideia de que a vida está contra você, e isso vai gerando cada vez mais sofrimento.


No livro, você escreve que “o destino é composto pela interação entre a graça divina e a nossa vontade pessoal. Em cada decisão tomada, estamos cocriando nosso destino com o nosso livre arbítrio”. E como fica a interferência do inconsciente nas escolhas que fazemos?


A todo instante, esses impulsos inconscientes acabam criando isso que chamamos de destino. É por isso que eu tenho enfatizado a importância do autoconhecimento. Porque, se você não se conhece, é tomado por impulsos inconscientes e faz coisas à revelia da sua vontade consciente.


Por exemplo: você sente ciúmes, sente inveja, fica com raiva e se vinga; você reage a situações diversas da vida a partir de feridas emocionais, a partir do passado em você que não foi compreendido. E aí só lhe resta chamar essa situação de vida de destino. Não, não é seu destino. É uma criação sua feita de forma mecânica e inconsciente. O que está na base dessa ideia é que existe uma lei de ação e reação, mas que é uma lei mecânica. Talvez quem mais se aproximou do entendimento dessa mecanicidade foi Isaac Newton, quando falou sobre as leis da mecânica, a Terceira Lei de Newton: “Toda força de ação provoca uma força de reação de mesma intensidade e em sentido contrário”. Isso se aplica à lei do karma: se você planta abacaxi, colhe abacaxi. Se você planta laranja, colhe laranja. Você colhe aquilo que planta. Se planta o bem, recebe o bem; se inspira amor, recebe amor; se inspira gentileza, recebe gentileza, e assim sucessivamente.


Mas, se não estamos conscientes dos nossos pensamentos, palavras e ações, estamos gerando um karma que. muitas vezes, nos desfavorece, e nós não sabemos como isso foi criado. Então, num dia a gente sente que tudo já está escrito, tudo já está definido; no outro, sente que tem a capacidade de fazer alguma coisa acontecer, de cocriar. Mas, na verdade, essas duas coisas estão caminhando juntas.


Você afirma que uma parte do destino não pode ser controlada e outra nós temos a liberdade de escolher. Pode diferenciar uma parte da outra?


Olha só: se nós já plantamos abacaxi, vamos ter que colher abacaxi. Não temos como querer que nasça outra coisa. Não dá para querer que nasça laranja, maçã, não. Plantei abacaxi, tenho que colher abacaxi. Mas, se estou consciente de que o abacaxi foi plantado por mim, então vou colher e agradecer esse abacaxi. Vou comer abacaxi, fazer suco de abacaxi, fazer geleia de abacaxi, colocar na salada… serei criativo na utilização desse abacaxi, ao invés de ficar brigando com ele. E vou começar a pensar: “Poxa, se eu plantei abacaxi, mas agora estou precisando de outras coisas, vou me planejar”. Vou começar a criar a condição para que, no futuro, eu tenha colheita de outras frutas para poder satisfazer a minha necessidade.


De acordo com seus ensinamentos, assumir as rédeas do nosso destino não significa controlá-lo. Significa o que, então?


A gente não tem como determinar como esse plantio de pensamentos, palavras e ações vai gerar resultados. Nós temos o conhecimento da lei de ação e reação, temos o entendimento de que colhemos aquilo que plantamos, mas não temos como controlar o processo. Então, trabalhamos para fazer com que a nossa vida esteja alinhada com a lei divina do amor, da verdade, da justiça. Procuramos fazer com que nossos pensamentos, palavras e ações estejam a serviço do bem comum, mas não temos controle. Por isso nós falamos, inclusive, de um “servir sem esperar gratificação por esse servir”. Por isso falamos de uma renúncia aos frutos desse bem que fazemos. Fazemos o bem de forma incondicional: “Eu te amo porque eu sou amor, e não porque eu espero de você uma recompensa por isso. Não estou esperando algo em troca”. É isso que vai fazer com que o universo possa, em algum momento, nos trazer de volta esse bem que estamos realizando — não porque estamos fazendo com essa intenção, e sim porque nós realmente compreendemos que não faz sentido sermos canais de destrutividade, de ofensa, de sentimentos que não queremos para nós. À medida que a gente vai se afinando com esses princípios, vamos experimentando esse retorno do universo, mas não temos como controlar.


Como você explica no livro, o Karma Yoga propõe que nossas ações não devem se orientar pelos resultados. É um alento conhecer um ponto de vista diferente daquele que rege o contemporâneo e que nos impele a correr atrás de metas em todas as áreas da vida…


A verdade é que viver assim não satisfaz o nosso coração, porque não traz paz. Não traz paz e não favorece o universo, logo o universo não corresponde. Para que o universo possa corresponder aos nossos anseios mais profundos, nós precisamos soltar o controle. Precisamos soltar a necessidade de que tudo aconteça da forma como a gente espera, especialmente essa busca frenética por validação, por reconhecimento, por retorno. Não é assim que funciona. O universo vai realmente te dando na medida em que você relaxa e se entrega ao fluxo, na medida em que você semeia o bem sem esperar nada em troca.


Em 2016, você lançou o livro Propósito: A coragem de ser quem somos (Sextante). Nesta nova obra, o assunto retorna, dez anos depois. O que a gente ainda não conseguiu compreender sobre propósito?  


Ainda existe na base do nosso imaginário esse controle ou a ideia de que o propósito tem que atender às nossas expectativas. Há uma tentativa de controle sobre o propósito, uma tentativa de controle sobre o servir: “Ah, eu quero servir se for desta maneira, se for daquela maneira…”. E não é bem isso. No livro, cito o exemplo de Jonas, que passa a vida em busca do seu propósito. Ele se dedica e ora a Deus: “Por favor, revela para mim, mostra qual é o meu lugar nesse mundo, o que eu preciso fazer”. Até que Deus se revela e fala: “Vá para Nínive”. E ele se revolta porque não quer ir para lá, pois tem as questões dele em relação a Nínive, e aí pega o barco para Társis. Perceba que existe um controle sobre a ideia de propósito. Falta mesmo a purificação do ego nesse nível. Então, acho que eu retorno com o tema do propósito para refinar, para dar um passo a mais. Estamos subindo mais um degrau no entendimento e na entrega para a espiritualidade.


Muitas pessoas entendem que a busca pelo propósito virou mais uma cobrança. Como isso vai se revelar para elas?


Olha, vou ter que dar uma resposta que, puxa vida, que duro, né? A pessoa vai ter que sofrer um pouquinho mais até conseguir se humildar o suficiente para compreender que essa é uma verdade da vida. E não é a vida que está impondo, é uma coisa que ela precisa encontrar dentro de si. Ela precisa encontrar sentido para questionamentos do tipo: Por que nasceu? Por que encarnou aqui nesse mundo? O que está fazendo aqui?


Fazendo uma analogia com a árvore: se ela é uma macieira e está tentando dar laranja, não vai ser feliz nunca. Se ela é um crisântemo e está querendo ser uma rosa, não vai ser feliz nunca. Então ela tem que ter realmente esse amaciamento. Ela vai precisar entrar na “lavanderia cármica”, vai precisar passar pelo amaciante da humildade, vai ter que passar pelo sabão da autorresponsabilidade para conseguir relaxar e compreender: “Puxa vida, realmente eu vim aqui para isso”. E poder se entregar.


Claro, a gente procura facilitar essa jornada de transformação. O objetivo dos satsangs, da minha escola online, dos livros, é, no mínimo, diluir esse sofrimento. Mas, infelizmente, algumas pessoas vão precisar sofrer para conseguir realmente soltar o controle, o medo, o orgulho e se render.


O medo costuma atrapalhar a conexão com o nosso propósito. Afinal, de onde vem tanto medo?


Nós fomos condicionados, praticamente desde o nosso nascimento, a sentir medo. A criancinha nasce sem medo, confiando na vida e está lá brincando, sendo espontânea. Mas aí ela acaba sendo reprimida, castigada e punida por estar sendo ela mesma. Então começa a sentir medo de ser ela. Começa a sentir medo porque vai ser castigada, porque vai ser punida. E esse medo vai entrando, vai se aprofundando e se instala na base da nossa personalidade. Esse medo de sermos excluídos, de sermos rejeitados, de sermos humilhados, de não sermos amados pelo fato de estarmos sendo nós mesmos. Isso tem sido assim, por conta de uma inabilidade de educarmos nossos filhos. O assunto é muito profundo. Nós estamos despreparados para receber filhos. Porque a gente tem feito isso mecanicamente, inconscientemente, para atender necessidades culturais, religiosas, para atender uma programação, às vezes, até biológica. Mas ainda não fomos educados espiritualmente para compreender o que significa trazer uma criança a este mundo. Eu acredito que, para mudar isso, temos que ter cursos de preparação dos aspirantes a pais. Porque é um sacerdócio, e os pais têm que ter o mínimo de consciência para isso. Do contrário, nós vamos repetir que a ignorância procria ignorância. Isso vai se repetindo, se repetindo, se repetindo…


A sociedade se move com base no entendimento de punição e reforço, que tem no seu núcleo o medo, e reforça esse medo. Então a pessoa vive com medo porque ela quer ser aceita, quer ser inserida, precisa sobreviver, precisa ser promovida, precisa ter as necessidades essenciais atendidas. É assim que somos controlados por um sistema que age à revelia de quem o criou, porque esse é um sonho coletivo muito antigo que nos recebe aqui quando nascemos. Nossos pais e professores só são canais que nos repassam essas crenças, esses condicionamentos, esse sonho coletivo que a sociedade está sonhando. É um sonho que tem como eixo o medo de sermos nós mesmos. Por quê? Porque a gente acredita que, se formos nós mesmos, seremos punidos e não seremos aceitos nesse mundo.


É por isso que, em suas aulas, livros e palestras, você orienta as pessoas a migrarem do medo para a confiança, a confiança de que o que for necessário para o nosso desenvolvimento chegará até nós?


Que passo tão grande, né? Esse passo do medo para a confiança, percebe? Se nós somos reféns desse sonho coletivo, se somos reféns desses condicionamentos, como é que a gente consegue abrir mão disso e confiar que a vida vai dar, percebe? E é nesse lugar que nós estamos hoje enquanto sociedade humana. É por isso que eu trouxe esse texto, trouxe essa mensagem, justamente para iluminar o que eu considero ser um canto escuro da nossa alma — da alma individual e da alma coletiva.


No livro, fica claro que o perdão é outro fator indispensável para a plenitude do Ser. Como não é possível forçar o perdão genuíno, ele aflora pra valer quando a consciência alcança que tipo de compreensão?


Tem que alcançar a compreensão de que a vida está a nosso favor e não contra nós. Isso está na essência do que estou querendo dizer neste livro: que o karma não é um castigo, não é uma punição, e sim uma ferramenta pedagógica. Ele está tentando nos ensinar algo que nós estamos com muita dificuldade de aprender e, às vezes, vai realmente nos trazer esses ensinamentos de uma forma difícil. Por quê? Porque nós somos cabeças-duras e temos dificuldade de aprender algumas coisas. Então, às vezes, ele vem de uma forma que a gente não quer, não quer mesmo receber, não quer aceitar, mas vem a nosso favor.


Se a gente tem essa humildade de compreender que a vida está a nosso favor e que ela é uma professora muito, muito resiliente, que está ali persistentemente querendo nos ensinar algumas lições, aí só nos resta esquecer essa ideia de vingança, essa ideia de reparação, e perdoar. Perdoar porque, na verdade, esse perdão é o que nos liberta do mal dentro de nós mesmos.


➥ Leia mais



O post ‘Somos cocriadores da nossa realidade’ apareceu primeiro em Vida Simples.




COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.