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Belo Horizonte,26/08/2026

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O infinito particular das coisas não ditas

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O infinito particular das coisas não ditas
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“Não só estamos no universo, como o universo está em nós.” O astrofísico Neil deGrasse Tyson utiliza essa frase para explicar uma ideia tão científica quanto poética: muitos dos elementos que formam o corpo e a mente humana, como o oxigênio, o cálcio e o ferro, foram produzidos no interior de estrelas há bilhões de anos. Tudo isso para dizer que, não somos meros observadores do cosmos. De certa maneira, também somos parte dele.


Há algo de muito especial nisso. Afinal, nossa espécie desenvolveu uma consciência e, com ela, a capacidade de contemplar a grandiosidade do universo que nos criou, enquanto construímos um universo próprio dentro de nós. Como se cada pessoa também carregasse um outro mundo dentro de si, ou um infinito particular, como diria Marisa Monte.


Mas nem sempre alimentamos esses espaços íntimos. Segundo a psicóloga Adriana Santiago, especialista em saúde mental, o cérebro humano foi construído para buscar conexão com o outro, e compartilhar uma experiência pode ativar circuitos ligados à recompensa social. “Nós nos sentimos vistos, acolhidos e pertencentes”, explica. E não há nada de errado nisso. Afinal, tem coisa melhor do que colocar o assunto em dia com os amigos?


O problema surge quando compartilhar deixa de ser um encontro e passa a funcionar como uma dependência, um impulso ou a única maneira de sentir que aquilo realmente aconteceu. É como se uma experiência só tivesse valor quando vista e o que sentimos internamente precisasse ser confirmado pelo olhar do outro, afirma a psicóloga.


Guardar também é elaborar


Acontece que guardar uma ideia para si é essencial para que ela amadureça por meio do diálogo interno. Quando dividimos algo cedo demais, corremos o risco de permitir que opiniões, julgamentos e interpretações externas interfiram no que ainda está florescendo. Em vez de descobrir o que realmente pensamos, passamos a esperar que alguém nos diga o que pensar. “É como interromper um filme na metade para perguntar a todos qual deveria ser o final”, observa a especialista.


Também vale lembrar que nem toda emoção precisa ser imediatamente traduzida em palavras. Primeiro, é importante sentir, observar e acolher. Depois, compreender o que aquele sentimento quer dizer e decidir se realmente vale a pena compartilhá-lo. “É como massa de pão: precisa de tempo para crescer antes de ir ao forno.”


Um espaço só nosso


Adriana explica que a maturidade emocional também passa pela descoberta de que algumas das experiências mais bonitas da vida, não precisam ser explicadas para ninguém. Quando deixamos de viver uma experiência para o olhar do outro, ela passa a existir verdadeiramente para nós mesmos.


E isso não precisa ser algo grandioso. Pode ser caminhar e sentir um profundo sentimento de gratidão, ler algumas páginas de um livro que tocou em algum lugar da sua memória ou desenvolver um projeto que só você entende a importância. Manter algo em foro íntimo, ajuda a desenvolver autonomia emocional e autoconhecimento.



“Uma boa relação consigo mesmo depende da capacidade de estar na própria companhia sem precisar de plateia.”



Por isso, pare por alguns segundos e pense em quão especial é a beleza das coisas que permanecem intocadas, apenas em nosso universo interno. “Elas se tornam quase um segredo compartilhado entre quem somos e quem estamos nos tornando”, observa Adriana.


Mas aprender a preservar esse espaço nem sempre é tão simples quanto parece.


Antes de contar, faça uma pausa


Durante uma sessão de terapia, levei à minha psicóloga justamente essa dificuldade: apesar de parecer uma tarefa fácil, eu simplesmente não conseguia deixar de compartilhar. Era o famoso “oversharing”, termo em inglês usado para descrever aqueles momentos em que revelamos algo pessoal sem pensar antes.


O conselho foi imaginar uma pequena caixa dentro da minha mente e, sempre que surgisse o impulso de contar alguma coisa, eu deveria refletir: eu realmente quero dividir essa informação ou prefiro guardá-la apenas para mim? Caso decidisse não compartilhar, bastaria imaginar a caixa se abrindo e aquela lembrança sendo colocada ali dentro, intocada, preservada apenas na beleza da própria memória.


Aquela imagem ajudava a tornar a decisão mais concreta e também mudava o significado de guardar. Em vez de parecer uma perda ou uma privação, o silêncio se transformava em cuidado: a lembrança não era descartada, apenas preservada no meu espaço mais íntimo.


Adriana também sugere fazer uma busca interna para compreender esse critério. A pergunta não deve ser “o que pode ou não pode ser contado?”, mas “para que estou contando?”. É para criar conexão, dividir uma alegria ou pedir apoio? Ou para buscar algum reconhecimento?


O limite saudável está justamente na liberdade de escolher nossas ações, enquanto a prisão surge da necessidade de agir sem refletir sobre isso. Quando conseguimos contar algo sem obrigação e guardar sem culpa, provavelmente encontramos um bom equilíbrio, afirma a psicóloga.



“De qualquer forma, eu acho profundamente bonito saber que, mesmo quando compartilhamos muito de nós, sempre vai existir um universo inteiro que continua habitando silenciosamente dentro da gente.”



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