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Belo Horizonte,26/08/2026

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A coragem de se reinventar

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A coragem de se reinventar
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Mudar de desejos, prioridades e maneiras de enxergar o mundo não significa que algo deu errado. Ainda assim, a cultura cobra que, depois de certa idade, saibamos exatamente quem somos — e permaneçamos assim.


Há uma pergunta que parece simples, mas não é: quem você é, além do que faz? Sem cargo, título ou profissão — aquela que você aprendeu a descrever em trinta segundos numa festa. Muita gente trava diante dela não por falta de autoconhecimento, mas porque passou anos construindo uma identidade difícil de separar do que entregava, produzia e representava para as pessoas ao redor.


Tamires Vilela, formada em Direito pela USP, com pós pela FGV e MBA pelo MIT Sloan, conhece esse processo de perto. Foi advogada no escritório Mattos Filho, empreendeu na área de logística para a saúde, trabalhou com filantropia na Fundação Lemann e atuou como executiva na Arco Educação. No papel, uma trajetória ascendente. Por dentro, porém, havia uma sequência de momentos em que algo começou a perder o sentido antes mesmo de ela conseguir nomear o que estava acontecendo. Desse processo nasceu o livro “Entretempos: o que acontece quando a carreira que deu certo já não faz sentido” (Summus Editorial).


O que ela propõe não é uma metodologia para mudar de carreira, mas uma maneira de entender por que ficamos tão paralisados diante daquilo que deixa de fazer sentido — e por que costumamos tratar essa paralisia como um problema a ser resolvido, em vez de um sinal a ser escutado.


Mudar não é falhar


A resposta mais honesta, segundo Tamires, está na própria sociedade da qual fazemos parte.


“Vivemos numa cultura capitalista cujo padrão é expandir. Crescer, produzir, acumular. A régua do sucesso está toda conectada nessa lógica. Uma régua que só tem uma direção sabe ler duas coisas: subiu ou parou. Quem muda de desejo na vida adulta e vira para outro lado acaba registrado na coluna do ‘parou’, porque virar para o lado não é um movimento que essa régua consiga medir. A identidade vai junto no pacote. Quando o que mede uma pessoa é a subida, quem ela é acaba virando o degrau em que ela está.”


É dentro dessa lógica que surgem os julgamentos. Quem desacelera, recalcula a rota ou abandona uma trilha que parecia certa costuma ouvir variações de um mesmo veredicto: “Estava indo tão bem”. “Do nada?” “Para quê?” “É crise de meia-idade.” “É irresponsabilidade.”


Para Tamires, esses comentários quase nunca dizem respeito apenas a quem muda.


“O julgamento vem rápido porque quem desacelera chacoalha a certeza de quem continua no piloto automático. Se somos, ao mesmo tempo, quem cobra e quem é cobrado, ver alguém largar o posto é ver alguém rompendo um contrato que nós mesmos assinamos e seguimos cumprindo sem nunca ter lido.”


A pressão, portanto, não vem apenas de fora. Ela também é internalizada, a ponto de se tornar difícil distinguir aquilo que queremos do que simplesmente aprendemos a querer.


O corpo avisa antes


Na semana mais intensa de seu último cargo como executiva, Tamires mal conseguia andar. Uma protrusão na lombar, um calendário impossível e viagens encadeadas entre diferentes regiões faziam parte daquela rotina. Tomou medicamento para a dor e seguiu em frente. Só algum tempo depois, com distância do episódio, conseguiu perceber o que carregava para além do peso físico.


“Não dá para dizer que a hérnia era só estresse. Tinha, claro, postura ruim e falta de exercício também. Só que, naquela semana, eu carregava tensão de entrega, culpa maternal por mal ter tempo de ver meu filho e outras preocupações familiares. Para mim, o excesso chega do jeito que sabe chegar melhor: com peso nas costas.”


O corpo costuma ser o primeiro a avisar que alguma coisa deixou de fazer sentido. Também é o sinal mais fácil de ignorar quando a agenda não deixa espaço para parar.


Nas mentorias que conduz, Tamires ouve relatos semelhantes com frequência. Uma mentoranda que nunca tirava férias disse uma frase que ficou com ela: “Eu achava que não sabia relaxar, mas, na verdade, tinha medo do que ia sentir se parasse”.


O corpo registra as consequências emocionais do que vivemos e pode influenciar decisões antes mesmo que consigamos racionalizá-las. Batimento acelerado, estômago fechado, ombros que nunca relaxam. Para Tamires, compreender essa relação foi uma forma de deixar de chamar de frescura aquilo que o corpo tentava comunicar.


O cansaço de interpretar o mesmo papel


No livro “Entretempos: o que acontece quando a carreira que deu certo já não faz sentido” (Summus Editorial), Tamires nomeia dois momentos em que o descompasso entre quem somos e o que representamos começa a ficar difícil de sustentar.


O primeiro é o burnout de personagem.


“É um cansaço que tem menos a ver com o excesso de trabalho e mais com o papel que a gente interpreta nele. Eu sei ser personagem, aprendi cedo e fui recompensada cedo demais por isso. A boa aluna, a filha responsável, a executiva que resolve tudo que aparece. Nenhuma dessas versões era mentira. Todas eram pedaços reais de mim inflados para caber num palco. O problema começa quando a gente esquece que dá para sair do palco e quando o aplauso ao personagem vira quase oxigênio. Por fora, você segue em cartaz, mas, por dentro, alguma coisa vai murchando.”


O segundo é o que ela chama de high school corporativo: o momento em que percebemos que toda empresa funciona como uma espécie de escola americana em miniatura, com quadro de honra, rainha do baile e atletas populares. E existem outras escolas, com outras regras, lógicas e personagens. O que parecia identidade, então, pode ser apenas um uniforme — e uniforme se tira.


Há uma palavra em inglês, sem tradução exata, que Tamires usa para descrever essa sensação: outgrow, algo próximo de “tornar-se grande demais para”. O lugar continua existindo e funcionando, mas já não comporta tudo aquilo que você se tornou. É desse descompasso que nasce o que ela descreve como um desejo quase físico de renascer.


O entretempo entre um ciclo e outro


Nem sempre a saída de um ciclo é dramática. Muitas vezes, começa com um gesto íntimo, uma percepção que aparece meses antes de qualquer decisão concreta.


O problema é que, ao perceber que não queremos mais alguma coisa, corremos para a pergunta seguinte: então, o que eu quero? E essa resposta raramente vem de imediato. Antes dela, outras perguntas precisam aparecer.


“Essa pergunta é a definição exata do que eu chamo de entretempos: esse vazio entre o fim de um ciclo e o começo de outro, quando a gente sabe profundamente o que não quer mais, mas ainda não sabe eleger o que deseja viver. Minha provocação é que, em geral, quando a pessoa descobre o que não quer, ela corre no afã de responder: ‘Então, o que eu quero?’. E essa pergunta não se responde assim, de primeira. Ela precisa de perguntas anteriores.”


No livro, ela organiza esse processo em quatro atos, que nem sempre acontecem em sequência, mas costumam ser necessários:



  • Deixar morrer: reconhecer que um ciclo terminou, mesmo que ainda funcione por fora.

  • Mergulhar em si: habitar o vazio sem correr para preenchê-lo com uma nova ocupação ou um novo rótulo.

  • Traçar a travessia: fazer as perguntas concretas — quanto tenho guardado? Qual é meu custo de vida real? Quanto tempo esse dinheiro me dá? — e também pequenos testes: um café com alguém que já vive aquilo, uma hora estudando o tema, um e-mail. Sem largar nada, sem anunciar nada. Qual é o menor passo possível?

  • Abrir as portas: viver a ambivalência como parte do processo enquanto uma nova vida começa a surgir.


A travessia, nesse sentido, não é apenas um projeto de autoconhecimento sem prazo. Também é uma questão prática. Sem olhar para o dinheiro, qualquer plano pode virar fantasia. Quando as contas entram na equação, o vazio deixa de ser indefinido e ganha contornos.


Identidade não é certeza


Uma das ideias centrais de Tamires dialoga diretamente com a pesquisadora Herminia Ibarra, que estuda as transições de identidade profissional. Ibarra mostra que identidade não é algo fixo, descoberto uma única vez e carregado para sempre. Ela é múltipla, experimental e mutante. Carregamos “eus possíveis” que competem entre si o tempo todo.


No burnout de personagem, um desses eus assume o controle e os outros são silenciados. Não desaparecem. Ficam à espera.


A reinvenção, portanto, não apaga a história. Ela a reintegra. Tamires usa como exemplo médicos que se tornaram executivos, líderes de organizações sociais, criadores de conteúdo ou escritores.


“Esse indivíduo aprendeu a lidar com humanos, a ler papers científicos complexos, a trabalhar sob pressão, a interpretar dados. Aprendeu tantas habilidades transferíveis que vira uma questão de aplicação e prática em outro contexto. A gente só realiza aquilo que consegue imaginar como possível, e um entretempo é justamente o momento de voltar a imaginar.”


Saber o que carregar e o que deixar para trás, nesse processo, pode ser menos difícil do que parece. Uma pergunta ajuda: nesse ambiente, nessa relação ou nesse projeto, eu caibo ou eu pertenço?


A distinção vem da pesquisadora Brené Brown, a partir dos conceitos de fitting in e belonging.


“Caber é olhar ao redor, entender as regras e se moldar para ser aceito. Pertencer é ser aceito sendo quem você é. Quase todo mundo já sabe a resposta antes de terminar de ouvir a pergunta.”


Quem você está se tornando?


A trajetória de Tamires mostra, mais do que qualquer metodologia, que a reinvenção não é um evento. É um processo contínuo, que atravessa a vida adulta e pede que a gente reconheça quando a régua usada para medir o que importa deixou de ser nossa.


“Quando essas frações da vida param de combinar com quem a gente é, fica um convite bonito de mergulho em quem somos e em quem estamos nos tornando. O que importa para mim hoje é ganhar dinheiro? É aprender? É ter tempo de qualidade com amigos, com filhos, com os pais? É cuidar do corpo? Esses momentos em que não nos reconhecemos são um convite para repensar quais aspectos da vida a gente quer priorizar agora e por quê. Lembrando que nenhuma decisão precisa ser para sempre. É para aquele tempo. E assim vamos vivendo vários tempos e entretempos ao longo de uma vida.”


Não se trata de abrir mão de quem somos, mas de perceber que nunca fomos uma versão fixa de nós mesmos. A identidade se constrói, se desfaz em partes e se reencontra de outras formas.


A pergunta mais importante, então, não é “quem eu sou?”, mas “quem estou me tornando — e o espaço onde estou ainda consegue comportar isso?”


➥ Leia mais

– Ler o outro para encontrar o que existe em você

– Quando o silêncio a dois não incomoda

– A arte de flanar por aí, sem pressa e sem destino


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