O corpo não mente: o que o parkour revela sobre a arquitetura urbana

Existem duas maneiras de se locomover por uma cidade: seguindo suas instruções ou desobedecendo-as. A primeira está escrita em bancos, cercas, grades e calçadas; a segunda é praticada por aqueles que interpretam a arquitetura como um campo de possibilidades. Saltar sobre um muro, escalar uma fachada, deslizar por um corrimão: o parkour não é apenas um esporte, é uma forma de interpretar o espaço público a partir de uma perspectiva radicalmente subversiva.
“O parkour muda completamente a sua perspectiva”, explica Miguel Espada, fundador da academia La Nave Parkour em Madrid e da Associação de Parkour de Madrid. “Quando você caminha pela cidade, não vê mais apenas um lugar de passagem; vê um lugar onde você pode fazer algo”, acrescenta Espada, que possui quase 40 mil seguidores no Instagram. No caso dele, a arquitetura deixa de ser um pano de fundo e torna-se uma interlocutora. Cada ladeira ou escada levanta uma questão. E uma reação.
Dos subúrbios brutalistas de Paris à Praça Azca, em Madri
O parkour surgiu no final da década de 1980 em áreas como Lisses e Évry, bairros residenciais nos arredores de Paris
Slingshot/GettyImages
Vamos dar uma olhada em sua história. O parkour surgiu no final da década de 1980 em áreas como Lisses e Évry, bairros residenciais nos arredores de Paris. Os jovens começaram a usar o ambiente urbano como um espaço para treinamento e expressão física. Ali nasceu uma nova forma de se movimentar, que rompeu com o uso original da arquitetura e ressignificou a cidade como um parque de diversões.
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Miguel Espada descobriu o parkour na adolescência, no bairro de Vallecas, em Buenos Aires, por meio de vídeos online daqueles mesmos jovens parisienses, na época em que a internet ainda fazia um ruído estático ao ser conectada. Mais especificamente, vídeos de David Belle, unanimemente considerado o pai da disciplina. “O parkour permitiu me expressar de forma criativa e artística”, explica Espada. Essa dimensão expressiva é fundamental para entender o parkour como um fenômeno urbano.
O parkour pode oferecer uma perspectiva crítica sobre o espaço público
Cavan Images/GettyImages
Não se trata de fugir, competir ou superar obstáculos, mas de reescrever rotas impostas. O banco deixa de ser apenas um banco. A escada deixa de ser apenas uma escada. O mobiliário urbano se emancipa de sua função prescrita.
Baseando-se em sua experiência, Espada colaborou com instituições culturais, universidades e coletivos de arquitetura para investigar como o parkour pode oferecer uma perspectiva crítica sobre o espaço público. Seu diagnóstico é tão simples quanto perturbador: a cidade não foi projetada para o movimento, mas para a inatividade passiva.
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Para muitos especialistas, o parkour também está ligado à arquitetura brutalista
Alvaro Medina Jurado/GettyImages
Para muitos especialistas, o parkour também está ligado à arquitetura brutalista. Com concreto aparente, linhas retas, corrimãos e beirais, esses edifícios oferecem obstáculos claros para saltos, escaladas e ascensões. Suas grandes estruturas modulares criam rotas naturais e desafios físicos que os praticantes de parkour podem explorar de forma criativa.
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A dimensão política do parkour
A cidade que melhor complementa o parkour não é a mais espetacular, mas sim a mais honesta com seus materiais
Mango Productions/GettyImages
É aí que entra a dimensão política do parkour: colocar o corpo onde a cidade só esperava trânsito. O corrimão que impede a prática de skate transforma-se em uma trave de equilíbrio. O muro, concebido como uma barreira, transforma-se em uma plataforma para ganhar impulso. "Para mim, é um teste brutal de como a cidade é construída", diz Miguel. "Às vezes, uma cerca quebra só de alguém se apoiar nela. Isso não é vandalismo, é apenas um projeto mal elaborado. Se alguém cair ali, vai se machucar", afirma.
A cidade que melhor complementa o parkour não é a mais espetacular, mas sim a mais honesta com seus materiais: concreto sólido, paredes de tijolos, declives acentuados, superfícies irregulares. Na capital, Vallecas, AZCA e Madrid Río emergem como paisagens coreografadas sem intenção. "Todo bairro operário é construído para durar", explica Miguel. "Isso o torna um lugar perfeito para treinar."
Paradoxalmente, quando o planejamento urbano tenta suprimir essas práticas — adicionando pontas, superfícies inclinadas ou substituindo paredes robustas por cercas frágeis — ele não só combate o parkour e o skate, como também empobrece a experiência urbana. A cidade se torna mais frágil e menos habitável.
O parkour nos lembra de algo que a cidade esqueceu: o corpo humano foi feito para escalar e saltar
O parkour nos lembra de algo que a cidade esqueceu: o corpo humano não foi feito apenas para andar em linha reta
Vagengeym_Elena/GettyImages
Em contraste com essa tendência, Miguel Espada vislumbra outra possibilidade: um projeto que integre o brincar como um valor urbano. Não parques temáticos de parkour, mas praças com esculturas utilizáveis, bares discretos e volumes projetados para serem tocados. "Eu não mudaria o planejamento urbano atual; eu adicionaria elementos esculturais com os quais as pessoas pudessem interagir", reconhece. A diferença é sutil, mas fundamental: não se trata de programar o movimento, mas de permiti-lo.
O parkour nos lembra de algo que a cidade esqueceu: o corpo humano não foi feito apenas para andar em linha reta. Ele foi projetado para escalar, pular, se pendurar e absorver impactos. "Antes, você precisava usar seu corpo para viver", diz Miguel. "Agora, só o usamos para ir do sofá até o metrô." Resgatar essa relação é também resgatar uma forma de habitar o mundo.
Em tempos de cidades inteligentes e renderizações perfeitas, o parkour introduz uma variável incômoda: a experiência real. Não há simulação possível quando se trata de cair. É por isso que sua ética se opõe ao mero espetáculo: aprender a cair, avaliar riscos, conhecer limites. "O parkour não é perigoso; o perigoso é quem não se conhece", conclui. Talvez seja por isso que ele seja tão revelador para a arquitetura. Porque nos força a pensar no corpo não como um usuário abstrato, mas como um ser consciente. A arquitetura projeta a cidade. O parkour a coloca à prova. E nesse diálogo, o espaço público deixa de ser um pano de fundo e se torna, mais uma vez, um território vivo.
Matéria originalmente publicada na Architectural Digest Espanha
Tradução: Adriana Marruffo




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