‘Onde estiver a vida, é lá que eu vou’
Em uma sociedade marcada pela cobrança constante por produtividade, a vida parece ter se transformado em uma espécie de roda de hamster: os dias passam numa corrida contra o relógio, atrás de novas conquistas, mas nem sempre acompanhados de um propósito capaz de dar sentido ao caminho. Nesse ritmo acelerado, as emoções acabam ficando em segundo plano e, aos poucos, a vida entra no automático, com pouco espaço para sentir-se vivo de verdade.
No episódio desta semana do Pod Ser Simples, videocast da Vida Simples, o psiquiatra e neurocientista Diogo Lara fala sobre os reflexos emocionais da hiperprodutividade e o “sedentarismo emocional”: uma espécie de atrofia da capacidade de sentir, provocada pelo esforço constante em dar conta de tudo.
“O ego tem uma função de adaptação à vida”, explica o psiquiatra. Diante de um sofrimento que pode ser desestabilizador, ele recorre aos mecanismos de defesa aprendidos ao longo do caminho para ajudar a seguir sem “arranhões”. O objetivo é reduzir a intensidade dos sentimentos e, assim, diminuir a chance de imprevisibilidade ou frustração.
Anestesia dos sentimentos
É nesse cenário que as distrações anestesiantes se tornam uma ferramenta para driblar emoções desconfortáveis: seja rolar infinitamente o feed das redes sociais, beber álcool, usar substâncias, assistir a pornografia ou mergulhar em jogos, exemplifica o neurocientista. “O ego vai usar recursos para você não entrar em contato com seus sentimentos. Ele vai te dar um drible para evitar ou, quando sentir, que logo faça algo para parar aquela emoção que considera ruim.”
Ele compara esse mecanismo a uma espécie de pequeno pacto com o diabo: o ego ajuda na adaptação a uma sociedade, mas cobra um preço alto por isso. Em troca da sensação de controle, conquista e adequação, os sentimentos vão sendo bloqueados, como se fosse preciso entregar a própria alma para conseguir seguir funcionando.
Um novo olhar para as emoções
Durante o podcast, Lara lembra que, no passado, mesmo já sendo um psiquiatra e neurocientista renomado, ele ainda operava a partir do ego, do orgulho e da competição acadêmica. Por fora, tudo parecia bem: era produtivo, reconhecido e bem-sucedido. Por dentro, fazia de conta que estava feliz, enquanto dores não elaboradas conduziam boa parte de suas escolhas.
“Como Jung sintetizou: ‘até que o inconsciente se torne consciente, ele dirigirá sua vida e você o chamará de destino.’”
Em 2010, o neurocientista passou por um trauma que se tornou o ponto de virada de sua trajetória. Sozinho em casa, recebeu a notícia de que a ex-esposa havia tirado a própria vida. “Eu ainda era apaixonado por ela”, conta.
Após meses de sofrimento profundo, o médico decidiu experimentar uma sessão voltada ao processamento das memórias — uma terapia baseada na reconstrução de lembranças, que busca usar as ferramentas emocionais desenvolvidas no presente, para ressignificar o passado.
O que antes era um estado de anestesia deu lugar a uma sensibilidade apurada sobre as próprias emoções. “O sofrimento nada mais é do que eventos difíceis não processados que acumularam resíduos […] O organismo tem 3,8 bilhões de anos de sabedoria embarcada; confie nesses sentimentos. Essa dor elaborada dará espaço para o amor, que é nossa essência vital.”
‘Onde está a dor, é lá que eu vou’
Lara entendeu, então, que chave para sair do sedentarismo emocional é dar espaço para que as emoções sejam vivenciadas, confiar no próprio corpo e entender que os sentimentos passam. Uma vez organizados internamente, eles se transformam em aprendizado e clareza emocional, explica o neurocientista.
A ideia central é que sentir não significa ser assolado pelos sentimentos, mas estar vivo. Mesmo após um término, por exemplo, ao ouvir uma música dolorosa, existe ali algo fundamental sobre a nossa essência humana. “Mesmo se você levou um ‘pé na bunda’ e está ouvindo uma música triste, naquele momento você está se sentindo vivo. Se você se anestesia com uísque, está abrindo mão de viver.”
Por isso, Lara carrega alguns lemas que funcionam como uma espécie de bússola interna. Um deles é: “onde estiver a dor, é lá que eu vou”. O mesmo vale para o medo. Para ele, aquilo que assusta também mostra um caminho, porque, quando a gente atravessa esse limite aos poucos algo se expande e é possível evoluir. No fim, ele observa que o objetivo pode ser sintetizado em uma frase: “onde estiver a vida, é lá que eu vou”.
Atualizar as defesas construídas pelo ego
O psiquiatra conta que, aos poucos, entendeu que não basta apenas entrar em contato com emoções difíceis. Se a ideia é viver com qualidade, também é preciso fazer “fazer as pazes” com as defesas e adaptações que são desenvolvidas ao longo do caminho, pois no fundo, é apenas uma tentativa de se proteger.
“É como dizer: ‘ok, defesa, ok, cobrança, eu sei que você quer o meu bem. Você quer me ver chegando lá, realizando coisas, pertencendo e sendo valorizado. Não quer me ver por baixo, nem sentindo que falhei. Você está me ajudando, é minha aliada’”, exemplifica.
Mas reconhecer essa função não significa deixar tudo como está, porque aquilo que antes ajudava a dar conta da vida também pode, com o tempo, se tornar fonte de sofrimento. Por isso, o é necessário atualizar constantemente essas estratégias e encontrar novas maneiras de seguir.
O Pod Ser Simples conta com patrocínio da Tok&Stok, da Inovar Previdência e da Verde Campo. Os episódios vão ao ar quinzenalmente no YouTube da Vida Simples. Confira!
➥ Leia mais
– Quem é você quando as luzes se apagam?
– A finitude como bússola
– A arte de se reinventar juntos
O post ‘Onde estiver a vida, é lá que eu vou’ apareceu primeiro em Vida Simples.




COMENTÁRIOS