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Belo Horizonte,05/06/2026

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Caixinha de memórias: reconexão e novos significados da própria história

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Caixinha de memórias: reconexão e novos significados da própria história

Abrir a caixinha e ir tirando, um por um, bilhetes, fotos e ingressos, revivendo cada lembrança e sentimento da época, é um ritual quase terapêutico. O cheiro do papel envelhecido, a tinta meio desbotada revelando marcas do tempo e a letra de alguém especial num escrito qualquer trazem à tona sentimentos valiosos para o presente.


Gabriela Bubniak, 32, possui uma caixa dessas onde guarda as lembranças dos últimos 17 anos. Entre as recordações, estão o caderninho com recados das amigas da quarta série, o último Tamagotchi (aqueles mascotes virtuais), fotos Polaroid, bilhetinhos do marido do início da relação e as cartas do dia em que foi pedida em casamento.


No entanto, nem todas as lembranças são de momentos totalmente felizes. Muitas vezes, as dificuldades também estão registradas e completam o pano de fundo daquela memória. “Mas acho que cada item da caixinha tem um pedaço do que fui e construiu um pouco do que sou, justamente por serem lembranças de momentos imperfeitos, como é a vida.


Recentemente, revisitar a caixinha ajudou Gabriela a reencontrar propósito. Formada em jornalismo e cansada da profissão há alguns anos, “tinha colocado na cabeça que precisava de novos ares”. Talvez até apostar em outra área.


(Foto: Matheus Wittkowski) Na caixa de memórias, o recorte de jornal preserva uma versão de Gabriela no início da vida adulta


Entre cartas e fotos, encontrou um recorte de uma entrevista concedida ao jornal de sua cidade, Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, que publicava sobre interesses, desejos e escolhas das leitoras. Ali, ela deixou registrado o quanto acreditava no caminho que havia escolhido e que o jornalismo realmente a faria feliz.



“De alguma forma, ele me trouxe de volta: me lembrou da minha escolha, da minha vontade e do motivo de ter começado essa jornada.”



Reconectar e ressignificar


Segundo a psicóloga Karoline Gregol, esse hábito pode ajudar a se reconectar com a própria história. Ao entrar em contato com objetos de valor sentimental reunidos ao longo do tempo, fica mais fácil perceber o caminho que foi construído e reconhecer traços de si que continuam presentes, mesmo depois de tantas fases.


Além disso, ao olhar para as experiências vividas com mais repertório, também é possível encontrar novos significados para a própria história. O que antes parecia confuso, doloroso ou distante, pode, com o tempo, ganhar novos contornos. A caixinha também favorece o autoconhecimento porque ajuda a perceber mudanças, reconhecer padrões e identificar recursos que já foram valiosos para atravessar outras fases da vida. “Tudo isso é muito importante para um processo terapêutico.”


Por isso, Karoline também guarda souvenirs da própria trajetória, como a primeira conta de luz recebida ao morar sozinha. “Sempre que me percebo triste ou com pouco significado, recorro a caixinha de recordações. Com o passar do tempo ela se transformou em uma caixa bem grande, quase um baú de memórias físicas. Ela sempre ajudou a me conectar de volta comigo e a me lembrar das muitas coisas lindas que vivi ao longo da vida.”


Lembranças fora da tela


A escolha do que vai para a caixinha também pode fazer parte do ritual. Para Karoline, guardar um objeto é uma forma de preservar não apenas a memória, mas também a sensação do que ela deseja reencontrar no futuro. Há prazer nesse gesto de selecionar, tocar e decidir o que merece permanecer.


Como psicóloga, ela explica que essa relação com o objeto físico tem um efeito importante. Quando lidamos com algo concreto, como um bilhete, uma foto impressa ou um pedaço de papel, o cérebro tende a envolver vários sentidos ao mesmo tempo: o tato, a visão e, às vezes, até o cheiro. Com isso, a lembrança pode ganhar uma nova camada de presença e ser acessada de uma forma mais viva.



“Essa experiência multissensorial pode fortalecer a forma como a lembrança é acessada. O contato físico com esses objetos tende a aumentar a sensação de presença e a conexão com sua própria história.”



“É diferente de apenas rolar a tela ou abrir uma pasta de fotos no celular”, observa. No ambiente digital, o acesso costuma ser mais rápido, visual e atravessado por muitos estímulos ao mesmo tempo, o que pode fazer com que algumas memórias passem com menos pausa e profundidade.


Para Gabriela, pode ser que, na posteridade, tudo isso vire só um monte de papel sem valor para outras pessoas. Mas, para ela, são verdadeiros tesouros, pequenos recortes de sentimentos. “Cada um deles me desperta algo diferente, e sempre algo bom. Se um dia eu tiver filhos, vou querer contar as histórias ligadas a esses itens e incentivá-los a fazer a própria caixinha de valor afetivo. Dizem que a nostalgia sempre esteve em alta e para mim isso faz muito sentido.”


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