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Belo Horizonte,30/05/2026

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Quando o silêncio a dois não incomoda

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Quando o silêncio a dois não incomoda

Foi numa noite de domingo que costuma ser inquietante e, às vezes, até angustiante… Vocês estavam sentados no sofá, cada um num canto, cada um com um livro ou o celular silenciado. Ninguém falava. E, por algum motivo, aquilo não era estranho. Não havia aquela urgência de puxar assunto, contar uma piada, perguntar algo. Apenas a presença. O silêncio. E uma sensação rara: a de que estar junto era suficiente.


Para muitas pessoas, essa cena soa como desconforto. Como se o silêncio fosse um vácuo a ser preenchido com palavras, gestos ou qualquer estímulo que impeça a mente de devanear. Mas há quem já tenha descoberto um caminho: o silêncio compartilhado pode ser uma das formas mais profundas de afeto.


A psicóloga Márcia Julianelli explica que “em alguns momentos, é importante ter uma pausa natural que sinaliza conforto entre os indivíduos”. “A presença física muitas vezes já é o suficiente para determinadas pessoas se sentirem tranquilas”, diz.


Quando a confiança dispensa palavras


Em relacionamentos mais maduros – amorosos, familiares ou de amizade –, chega um ponto em que as palavras perdem a centralidade. Mas isso não significa que não há o que dizer. Talvez o que aproxima as pessoas já não depende da validação verbal constante.


“Depois de um tempo, as pessoas vivenciam um nível de confiança umas com as outras e não precisam de palavras para demonstrar que estão juntas”, destaca a psicóloga.


É como se o vínculo tivesse se tornado tão sólido que o silêncio deixasse de ser uma ameaça e passasse a ser um território seguro. Ali, o simples fato de existir lado a lado – lendo, olhando a paisagem, ou mesmo cada um perdido em seus pensamentos – fala mais do que qualquer declaração elaborada.


O silêncio que acolhe e o que afasta


No entanto, nem todo silêncio é igual. Há aquele que conforta e há o que fere. De acordo com Márcia, a diferença está na comunicação que o acompanha. Ou na sua falta.


“Enquanto no silêncio saudável existe conforto e paz entre as pessoas conectadas, o outro tipo de silêncio ignora os sentimentos alheios”, explica.



“Atitudes como, por exemplo, ficar de mãos dadas ou uma expressão facial podem significar muito mais para a outra pessoa.”



O silêncio saudável não é vazio. Ele é preenchido por gestos, olhares, pela linguagem silenciosa do corpo que diz “estou aqui”. Já o silêncio que nasce da indiferença, da raiva ou do desinteresse tende a isolar e a ferir. A diferença está na intenção. E na presença.


Por que o silêncio incomoda tanta gente?


Se para alguns o silêncio é acolhedor, para outros ele é um campo minado. A psicóloga aponta que pessoas muito intensas ou ansiosas podem associar a quietude a “tensões, medo do abandono, rejeição ou traumas passados”


“Para uma pessoa com ansiedade, o silêncio pode intensificar pensamentos distorcidos, o que pode comprometer seu bem-estar emocional”, alerta


“Quando o próximo prefere ficar em silêncio, isso pode desencadear emoções, causando desconforto internamente”, complementa.


Isso acontece porque o silêncio, quando não estamos acostumados com ele, provoca um confronto indesejado com os próprios pensamentos.



“Há esse confronto com pensamentos internos, o que nos faz lidar com sentimentos e questões pessoais que geralmente não queremos sentir.”



Num mundo saturado de notificações no celular e conversas simultâneas, o silêncio se tornou tão estranho que muitas pessoas preferem qualquer ruído a enfrentar a própria companhia.


O silêncio como linguagem


A ironia é que, quando bem compreendido, o silêncio é uma das formas mais eloquentes de comunicação. “O silêncio é uma forma de comunicação não verbal que pode indicar respostas ou transmitir emoções, revelando até mais do que palavras”, afirma Márcia, que nos dá exemplos concretos:


“Nos relacionamentos amorosos, uma pessoa pode transmitir respeito pela outra em silêncio, fortalecendo vínculos afetivos. E quando alguém está de luto, por exemplo, muitas vezes não é necessário falar, e sim, ficar ao lado, demonstrando empatia e atenção.”


Quantas vezes tentamos consolar com frases prontas quando o que a pessoa mais precisava era apenas da nossa presença silenciosa? Aprender a ficar em silêncio, às vezes, é o maior gesto de amor.


Como se tornar mais confortável com esse momento


Caso o silêncio te assuste, é possível ressignificar essa relação. E o caminho começa dentro de cada um.

Márcia sugere que a chave está na “maturidade emocional”.



“A pessoa pode, por exemplo, optar por atividades que contribuam para melhorar a sua saúde mental. Assim, mesmo em silêncio, a pessoa estará mais confortável consigo mesma e com o outro.”



Cultivar momentos de pausa intencional, desligar o ruído externo, aprender a sentar em silêncio sem a muleta do celular – tudo isso são exercícios que nos reconectam com a nossa própria companhia. E quando a gente se tolera em silêncio, fica muito mais fácil tolerar o silêncio do outro.


Na próxima vez que o sofá te convidar para uma noite de domingo sem palavras, respire fundo. Pode ser que esse silêncio não seja um problema, mas sim um presente. A confirmação silenciosa de que vocês já não precisam provar nada um ao outro. Apenas estar. E estar juntos, em silêncio, já é uma conversa inteira.


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