A Itália que a Itália não conta: 10 dias entre Roma, Ischia, Capri e Toscana
Não sou jornalista. Sou restaurateur. Isso muda tudo na forma como viajo, como me sento à mesa e como me levanto dela. Não anoto por obrigação — anoto porque algo me acertou, me ensinou, me incomodou ou me emocionou. Nessa viagem, vivi as quatro coisas ao mesmo tempo – às vezes no mesmo prato.
Deixei o Rio de Janeiro com uma lista generosa de reservas e endereços. Mas a Itália tem o péssimo hábito de desmontar qualquer planejamento com um supplì (bolinho frito com arroz de risoto, molho de tomate e ragu de carne moída, recheado de muçarela) inesquecível, comido em pé num balcão cafona, ou com um suco de limão espremido na hora, numa ilha que o mundo ainda não descobriu completamente.
A viagem que aconteceu não foi a que eu havia planejado. Foi bem melhor. Voltei para o Brasil com o caderno cheio, alguns vídeos, muitas fotos e uma certeza: a Itália não se explica – se experimenta. O que a Itália me mostrou, dessa vez, foi que os pratos mais memoráveis não são, necessariamente, os mais elaborados – são os mais honestos. O nhoque com ragu de coelho, a batata com lardo…
Há uma generosidade na cozinha italiana que não se aprende com técnica — se aprende com tempo, com repetição, com pertencimento. É possível estudar, adaptar e se inspirar. Mas essa camada mais funda, a que faz uma receita atravessar gerações intacta, só se conquista vivendo. Retornei inspirado para um novo cardápio. Mas, sobretudo, com a confirmação de que uma boa mesa não precisa de justificativa. Precisa de presença.
Roma

Roma sempre me recebe com a mesma sensação: a de que sabe que vai durar mais do que eu e, por isso, não tem pressa alguma. A gastronomia romana tem essa arrogância elegante: não precisa se justificar, não precisa inovar. Ela simplesmente é.
Logo no primeiro dia de viagem, dois pratos da Trattoria Pennestri me colocaram imediatamente no modo de observação: uma língua ao molho ferrugem com Grana Padano e gema curada ralada — o tipo de prato que exige foto antes e silêncio depois — e um rosbife com um blue cheese delicioso, limpo, preciso. Receitas que revelam uma “cozinha com ponto de vista”. O vitelo saltimbocca também foi positivo. O bucatini com brócolis, não. E tudo bem — num bom restaurante, o que falha também informa.
No dia seguinte, o Peppo me trouxe uma das maiores surpresas. O espaguete grosso com vôngole e fior di zucca foi destaque, mas foi o supplì que ficou para sempre na minha memória. Daqueles petiscos que fazem você entender por que os romanos brigam pelo supplì como os brasileiros brigam pela coxinha.
Por indicação local, fui conhecer A Rota: ambiente cafona, decoração sem graça, alma autêntica. O bolinho de carne estava interessante. Os supplì, ruins. Mas a pizza de linguiça com batata era ótima. Às vezes, o lugar mais humilde entrega o momento mais honesto: uma lição que toda cozinha sofisticada deveria ter estampada na parede.
Na Osteria La Quercia, no meu penúltimo jantar romano, tudo se encaixou: o cacio e pepe foi o melhor que comi em toda a viagem — referência absoluta. A chicória, maravilhosa. O galeto, simplesmente incrível. Uma das refeições mais completas e redondas de toda a jornada. Então veio o Zia… Uma estrela Michelin, transbordando requinte em várias etapas. Mas o que ficou gravado não foi a mais elaborada delas, foi a codorna assada. Uma receita que me fez parar de comer para pensar. Aquela codorna pode ser um prato no Pope. Pode ser o recheio de um ravióli. Pode ser o início de alguma coisa.
Uma instituição
Ainda em Roma, o Roscioli merece parágrafo próprio. Fundado em 1972 como uma padaria, pela família de mesmo nome, se tornou um dos mais importantes deli-restaurantes da cidade. O balcão de frios é uma aula de cura italiana: presuntos de diferentes regiões, mortadelas, queijos — tudo selecionado com obsessão. A degustação de presuntos crus teve como êxtase absoluto o San Daniele: adocicado, delicado, com aquela gordura que derrete antes de você perceber. A mortadela, também ótima, chegou fatiada grosseiramente — um pecado venial numa casa desse nível. Já a almôndega foi o ponto alto da refeição: extremamente macia, com pão na massa, segundo o garçom. Um prato simples, executado com total domínio. Em tempo: a reserva com antecedência é obrigatória.
@arotapizzeria
@laquerciaosteria
@peppo_official
@rosciolisalumeria
@trattoriapennestri
@ziarestaurant
Ischia

Ischia é o tipo de lugar que faz você entender por que os italianos não têm pressa de mostrar o que têm. A ilha vulcânica no Golfo de Nápoles vive à sombra de Capri (maior, mais famosa e mais cara) e é exatamente por isso que ainda guarda algo real. O almoço no Al Fuga’ foi uma surpresa positiva: o rigatoni al pomodoro estava genuinamente bom, daqueles que lembram que a simplicidade tem técnica. A cotoletta (costelinha) infelizmente chegou fria e crua ao centro. Apresentação linda, execução falha – ponto técnico que nenhuma beleza de prato resolve.
À noite, no Nonna Sofia, pedi o mini nhoque com ragu de coelho: incrível, memorável, do tipo que você tenta reconstruir mentalmente na cozinha de casa. A sobremesa, um semifreddo, fechou com qualidade. Voltei no dia seguinte e, dessa vez, apostei no alla Nerano. Criada nos anos 1950 no restaurante Maria Grazia, na praia de Nerano, entre Sorrento e a Costa Amalfitana, a receita original do molho usa abobrinha fatiada fina, frita em azeite e seca ao sol, posteriormente finalizada com queijos caciocavallo e Grana Padano, manjericão e manteiga. No Nonna Sofia, o chef ainda teve a generosidade de me contar em vídeo como faz seu alla Nerano. Um documento valioso.
Coube ao Terra e Sapori a refeição mais afetiva de toda a viagem: coelho na lenha com bucatini al pomodoro. Simples, sem artifícios — me remeteu à infância, ao frango assado com macarrão que minha mãe fazia. Essa é a magia da comida bem-feita: quando ela atravessa décadas em uma única garfada. No final da ilha, ainda parei na barraquinha do Enzo la Bomba para um suco de limão siciliano com laranja e granadina, espremido na hora. Simples assim – e o melhor que já tomei na vida.
@_al_fuga_negombo
@enzolabomba
@nonnasofiaischia
@ristoranteterraesapori
Capri
Capri, por sua vez, é linda demais para ser verdade e cara demais para ser justa. Mas a comida, quando acerta, acerta com força. O almoço no Aumm Aumm me brindou com a melhor pizza da viagem: uma Diavola que cumpriu tudo o que prometeu. A berinjela à parmegiana, pedida quase por curiosidade, foi uma revelação – maravilhosa, daquelas que roubam a cena diante de um prato muito mais caro do lado. Super simples, com pomodoro fresco e nacos de fior di latte de altíssima qualidade, gratinada no forno a lenha.
@aummaumm_capri
Toscana

As colinas, os ciprestes, os vinhedos em fileiras perfeitas: a Toscana é o cenário que qualquer pessoa já viu sem ter estado lá. Mas a comida toscana tem uma honestidade que desafia qualquer cartão postal.
Em Pienza, na Trattoria Latte di Luna, o pici al pomodoro cumpriu seu papel com dignidade. A glória ficou com o pato — feio de aparência, rico de sabor. Às vezes a estética engana e o prato surpreende. Já no hotel Borgo Casa al Vento, em Gaiole in Chianti, o jantar trouxe um tortelli recheado com batata cujo molho merece registro e reflexão: manteiga, sálvia, raspas de limão siciliano e laranja, Grana Padano. Elegante, aromático, equilibrado. Saí da mesa querendo fazer aquela combinação.
Em Panzano, fui ao Solociccia, de Dario Cecchini — uma figura que é maior que o restaurante, no bom sentido. O rodízio de carnes entregou bem, mas o momento inesquecível foi a batata assada servida com um potinho de lardo ao lado. Simples, generoso, perfeito. Dario entende que hospitalidade é um gesto, não uma ficha técnica. E lardo, vale contar, é um toucinho curado em bacias de mármore, com sal, alho, alecrim e especiarias, produzido na pequena cidade de Colonnata. A tradição remonta aos trabalhadores das pedreiras, que usavam o ingrediente como fonte de energia. Hoje é um produto com Indicação Geográfica Protegida (IGP).
Por último, a Osteria Al Ponte me presenteou com um nhoque recheado com molho de tomate e muçarela de búfala, salteado ao molho de blue cheese, nozes e guanciale. Ousada, uma combinação que funcionou na boca, romana e cremosa ao mesmo tempo. O tipo de prato que não se espera e, por isso mesmo, fica na lembrança.
@borgocasaalvento
@dariocecchinimacellaio
@latte_diluna_
@osteriaalponte
Por Eduardo Araújo
*Eduardo Araújo é sócio do Café 18 do Forte e dos restaurantes Giancarlo, Glorioso e Pope, no Rio de Janeiro
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