Rémy Martin mexe nas estruturas do cognac clássico
Poucas bebidas carregam tantos códigos quanto o cognac. Durante décadas, ele habitou um território quase intocável do luxo europeu: poltronas de couro, charutos, taças balão e uma certa liturgia masculina que ajudou a transformar o destilado francês em símbolo máximo de sofisticação clássica. Só que o mundo mudou. A alta gastronomia ficou mais leve, os bares passaram a valorizar frescor e textura, e até os grandes ícones do álcool premium começaram a entender que elegância não precisa necessariamente vir acompanhada de solenidade.

É exatamente nesse ponto que entra o Rémy Martin Tercet, um dos lançamentos mais interessantes da última década dentro do universo do cognac. Quando chegou ao mercado, em 2019, o rótulo parecia quase uma provocação elegante à tradição da categoria. Em vez de potência excessiva, madeira dominando tudo e aquele perfil austero que marcou tantos cognacs históricos, Tercet apareceu apostando em outra direção: fruta mais evidente, textura sedosa, frescor aromático e uma relação muito mais natural com a gastronomia.

A história do projeto começou bem antes do lançamento. A ideia nasceu ainda mais de dez anos antes, quando Baptiste Loiseau, Cellar Master da Rémy Martin, passou a imaginar um cognac que revelasse uma faceta menos rígida da maison francesa fundada em 1724. Em vez de construir um destilado centrado apenas no envelhecimento e na madeira, Loiseau queria destacar aquilo que muitas vezes se perde dentro do cognac tradicional: a própria uva.
Mas talvez o mais interessante do projeto tenha sido justamente a decisão de dividir protagonismo. O nome Tercet não surgiu por acaso. Para tirar a ideia do papel, Loiseau reuniu outros dois especialistas fundamentais do processo produtivo da Rémy Martin. Francis Nadeau, Wine Master da maison, entrou com a leitura dos vinhos-base e da expressão aromática da fruta. Já Jean-Marie Bernard, Master Distiller, trabalhou a precisão da destilação e a textura final do líquido. O resultado virou uma espécie de obra em trio, rara num universo historicamente marcado pela figura quase solitária do maître de chai.
No copo, isso aparece de maneira muito clara. O Tercet tem um perfil mais luminoso, com frutas amarelas maduras, figos frescos, notas amanteigadas delicadas, especiarias suaves e um lado quase vínico em certos momentos. É um cognac que parece querer circular pela mesa inteira, não apenas encerrar a noite ao lado de um café ou charuto.

Não por acaso, a própria Rémy Martin passou a apresentar o rótulo como um cognac pensado para compartilhar. A bebida funciona especialmente bem ao lado de pratos com manteiga, aves assadas, cogumelos, queijos curados e preparações mais delicadas da cozinha asiática. Em alguns restaurantes europeus, Tercet começou inclusive a aparecer em harmonizações de menu degustação, algo que até pouco tempo atrás parecia improvável para boa parte dos grandes cognacs.
O lançamento também ajuda a entender um movimento maior que vem acontecendo no mercado de luxo líquido. Assim como o vinho passou a valorizar mais origem, frescor e identidade de terroir, o cognac começou lentamente a abandonar aquela estética excessivamente pesada dos anos 1990 e 2000. Hoje, muitos consumidores querem profundidade, mas também querem fluidez. Querem complexidade sem precisar transformar cada gole numa cerimônia.
@remymartin
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