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Belo Horizonte,08/04/2026

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Crise em grandes empresas revela falha estrutural na construção das carteiras no Brasil

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Crise em grandes empresas revela falha estrutural na construção das carteiras no Brasil
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“O problema não está nas empresas que entram em crise. Está nas carteiras que não foram construídas para suportar crises”, afirma Paula Pellegrini, educadora financeira e especialista em planejamento patrimonial.
A recente pressão financeira sobre grandes empresas brasileiras reacendeu discussões sobre risco no mercado de crédito. No entanto, especialistas apontam que o impacto desses episódios vai além das companhias diretamente envolvidas e revela uma fragilidade mais profunda na forma como investidores estruturam suas carteiras.
Nos últimos meses, empresas de grande porte passaram a enfrentar revisões de rating, aumento do custo de capital e maior dificuldade de financiamento. Em paralelo, o ambiente macroeconômico segue desafiador, com crédito mais restrito e maior seletividade por parte de instituições financeiras.
De acordo com dados da Serasa Experian, o Brasil registrou, ao final de 2025, um total de 8,9 milhões de empresas inadimplentes, somando aproximadamente R$ 213 bilhões em dívidas. Esse cenário indica um nível elevado de tensão no sistema de crédito, com potencial de propagação entre diferentes setores da economia.
Para Paula Pellegrini, o ponto central não está apenas nos eventos recentes, mas na forma como eles são interpretados. “A tendência é tratar cada crise como um caso isolado. Mas, na prática, esses eventos são sintomas. Eles revelam uma fragilidade estrutural na forma como o risco é incorporado nas carteiras.”
Segundo a especialista, a análise tradicional ainda se concentra no ativo ou no emissor, sem considerar a dinâmica mais ampla em que esse investimento está inserido.
“Um investimento não existe sozinho. Ele faz parte de uma cadeia econômica. Quando um elo relevante entra em estresse, os impactos se espalham de forma não linear, atingindo agentes que muitas vezes não estavam no radar inicial.”
Esse efeito se intensifica em um ambiente de maior interconexão financeira. A expansão de instrumentos de crédito no mercado de capitais ampliou as relações entre empresas, fundos e investidores, criando estruturas mais complexas e, ao mesmo tempo, mais sensíveis a choques.
Na prática, isso significa que diferentes ativos dentro de uma mesma carteira podem estar expostos a um mesmo fator de risco, ainda que isso não seja evidente à primeira vista.
“O investidor acredita que está diversificado porque possui diferentes produtos. Mas, na prática, muitas vezes está concentrado no mesmo risco estrutural.”
Para Paula, essa distorção tem origem na forma como o processo de decisão é conduzido. “No Brasil, ainda se constrói carteira com base em produto e rentabilidade. A lógica estrutural, que envolve função do capital, prazo e nível de risco, costuma ficar em segundo plano. Isso compromete a capacidade de absorver choques.”
A consequência é que, em momentos de instabilidade, o investidor tende a reagir aos efeitos, em vez de antecipar as causas. “Quando a estrutura não está bem definida, qualquer evento externo ganha uma proporção maior dentro da carteira. O problema não é apenas o que aconteceu no mercado, mas como o patrimônio foi organizado para lidar com isso.”
Na avaliação da especialista, o cenário atual exige uma mudança de abordagem. “O que está em jogo não é apenas alocação, mas a arquitetura patrimonial. É a forma como o capital é organizado para resistir ao tempo, ao risco e à interdependência.”
Esse modelo propõe uma organização do patrimônio baseada em função, horizonte de tempo e exposição a risco, reduzindo a dependência de decisões pontuais e aumentando a resiliência da carteira.
Em um ambiente de crédito mais restritivo e interdependente, essa mudança tende a se tornar cada vez mais relevante. “Crises não são exceções no sistema. São testes de estrutura. E, no Brasil, a maioria das carteiras ainda não foi construída para passar por eles.”
Paula Pellegrini é educadora financeira e especialista em planejamento patrimonial com mais de 33 anos de experiência no mercado financeiro.




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