Motoboys viram motor da economia e impulsionam novo mercado de aluguel de motos no Brasil

A economia brasileira ganhou, nos últimos anos, um motor que ronca nas ruas, vielas e avenidas de pequenas e grandes cidades: o de motoboys. Se antes a motocicleta era vista, sobretudo, como um meio de transporte mais barato e ágil, hoje também é ferramenta de trabalho, ativo produtivo e porta de entrada para a renda de milhares de brasileiros. Esse movimento acompanha a expansão do trabalho mediado por plataformas digitais e ajuda a explicar a força de um mercado que cresceu quase em silêncio: o de locação de motos.
Os números mostram que a base desse mercado está longe de ser marginal. Em 2024, o Brasil tinha 1,7 milhão de pessoas trabalhando por meio de plataformas e aplicativos de serviços, alta de 25,4% em relação a 2022, segundo o IBGE. Desse total, 29,3% atuavam em aplicativos de entrega de comida e produtos, o equivalente a 485 mil trabalhadores. No mesmo ano, o país tinha 1,1 milhão de ocupados que trabalhavam como condutores de motocicletas, e 351 mil deles já atuavam por aplicativos — cerca de um em cada três.
“O avanço ajuda a explicar também o boom da própria motocicleta como ativo econômico. Dados da Abraciclo mostram que 2025 terminou com recorde histórico de emplacamentos no varejo, com 2.197.851 motocicletas licenciadas no país, alta de 17,1% sobre 2024. Para 2026, a entidade projeta novo crescimento, para 2,3 milhões de unidades. A leitura do setor é clara: a demanda segue aquecida pela mobilidade urbana e pelo uso profissional”, destaca Geraldo Carneiro, fundador da Byker.
Do lado da locação, a aceleração foi ainda mais forte. Segundo a ABLA, as empresas do setor emplacaram 70.571 motocicletas em 2024, um salto de 89,6% sobre o ano anterior. A frota total de motos das locadoras chegou a 140.865 unidades, avanço de 81,4% em um ano. Não se trata apenas de mais uma vertical do aluguel de veículos: é um segmento que passou a capturar uma demanda direta de trabalhadores que precisam rodar imediatamente, mas não conseguem, ou não querem, assumir o custo de compra e financiamento de uma moto própria.
Informalidade e renda variável
A conta faz sentido para um público marcado pela informalidade e pela renda variável. Em 2022, 77,1% dos trabalhadores por aplicativos eram por conta própria, segundo o IBGE. Já um estudo divulgado pelo Ipea em 2024 mostrou que, entre entregadores “plataformizáveis”, a renda média caiu de R$ 2.250 em 2015 para R$ 1.650 em 2021, enquanto aumentou o contingente de profissionais submetidos a jornadas longas e caiu a contribuição previdenciária. Na prática, isso ajuda a entender por que o financiamento tradicional nem sempre é viável para esse trabalhador: a renda oscila, o histórico formal muitas vezes é frágil e o custo financeiro pesa mais.
“O crédito, aliás, segue sendo um gargalo mais amplo para pequenos empreendedores e trabalhadores autônomos. Dados do Banco Central mostram que a penetração do crédito é muito desigual por faixa de renda: entre quem ganha até um salário mínimo, apenas 11% tinham operações de crédito. No universo do microempreendedor individual, a percepção de dificuldade continua alta. Em junho de 2025, 63,2% dos MEIs ainda consideravam difícil acessar crédito, segundo sondagem do Sebrae com a FGV; em 2024, esse índice era de 67,8%”, explica Carneiro.
É nesse intervalo entre a urgência de trabalhar e a dificuldade de comprar que o aluguel de motos se consolida como alternativa operacional. Para o entregador, a locação reduz a barreira de entrada: dispensa o desembolso alto da compra, encurta o tempo para começar a rodar e, em muitos modelos, já inclui manutenção, suporte e previsibilidade de custo. Para a economia urbana, isso significa algo mais amplo: mais gente conseguindo gerar renda rapidamente, especialmente em um mercado em que a demanda por entrega se tornou estrutural e não mais pontual, como foi no auge da pandemia.
Solução para falta de acesso a crédito
É nesse contexto que empresas como a Byker tentam se posicionar. A companhia, que atua com locação de motos e aposta em uma operação digital, quer se apresentar como uma solução para o motoboy que precisa trabalhar sem enfrentar a trava inicial da compra de um veículo. Na avaliação da empresa, o crescimento dos aplicativos de entrega e a dificuldade de acesso ao crédito criaram um espaço para modelos mais flexíveis de uso da moto.
“Hoje, a moto deixou de ser apenas um bem de consumo e passou a ser, para muita gente, um instrumento de trabalho. Quando o trabalhador não consegue acessar crédito ou não quer se comprometer com um financiamento longo, a locação entra como uma alternativa para ele continuar produzindo e gerando renda”, afirma o fundador da Byker.
Na visão da empresa, o avanço desse mercado também está ligado à mudança de perfil do próprio empreendedor e do trabalhador urbano. “Existe uma camada enorme de profissionais que precisa de agilidade. Esse público não pode esperar meses para organizar crédito, entrada, documentação e aprovação. Ele precisa começar a trabalhar agora. A locação atende justamente essa urgência e ajuda a manter a engrenagem da economia rodando”, diz Carneiro.
Para ele, o que está em curso é uma reconfiguração do trabalho nas cidades. Os motoboys passaram a ocupar um lugar central na circulação de mercadorias, alimentos e serviços, enquanto a motocicleta se firmou como uma peça-chave da economia de plataforma. “O crescimento do aluguel de motos, nesse cenário, não é um fenômeno isolado: é a resposta de mercado a um Brasil em que milhões de pessoas precisam transformar velocidade em renda e renda em sobrevivência”, conclui.





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