História do fracasso da primeira TV ajuda a explicar obstáculos enfrentados por IA

Frequentemente tratados como naturais, os avanços nos meios de comunicação escondem trajetórias marcadas por incertezas e fracassos. Em análise recente, a escritora da National Geographic Erin Blakemore resgata as origens complexas da televisão para explicar como o mundo chegou ao atual cenário de consumo marcado pelo streaming ilimitado.
Ao revisitar a história da primeira televisão — que fracassou em seus primórdios —, Blakemore aponta lições sobre inovação, disrupção e adaptação tecnológica. O episódio evidencia que nem mesmo ideias transformadoras estão imunes a rejeições iniciais ou obstáculos de mercado. A reflexão, segundo artigo do site de negócios Inc., ganha novo fôlego diante do avanço da inteligência artificial.
Das primeiras experiências ao nascimento da televisão
No fim do século XIX, cientistas investigavam o selênio para compreender sua capacidade de converter ondas de luz em impulsos elétricos, etapa fundamental para a formação de imagens em tempo real.
A descoberta ocorreu de forma acidental, quando um operador de telégrafo na Irlanda percebeu que o elemento se tornava fotossensível sob a luz solar, abrindo caminho para novas pesquisas sobre a conversão de luz em sinais elétricos.
O inventor alemão Paul Nipkow patenteou essas “células” em 1885, mas a tecnologia ainda não permitia a transmissão contínua de imagens em movimento — avanço que só seria alcançado décadas depois. Em 26 de janeiro de 1926, o engenheiro escocês John Logie Baird apresentou, em Londres, seu “Televisor” a cerca de 50 pessoas, resultado do aprimoramento das ideias de Nipkow, sobretudo na disposição de fontes de luz e fotocélulas.
Um kit de televisão mecânica Nipkow e um receptor de televisão mecânica baseado no projeto de Paul Nipkow
Getty Images
Apesar da baixa definição das imagens, a demonstração impressionou os presentes. “Eles não acreditaram. As imagens estavam um pouco desfocadas, mas era incrível”, afirmou o assistente Andy Andrews à BBC, em 2016. Meses depois, Baird já realizava transmissões regulares em frequências de rádio desocupadas.
A corrida tecnológica e a evolução dos sistemas
Paralelamente, nos Estados Unidos, o inventor Charles Francis Jenkins desenvolveu o radiovisor, dispositivo que utilizava anéis prismáticos para projetar imagens. Ele afirmou ter realizado transmissões de imagens em movimento em 1923, embora a primeira exibição pública tenha ocorrido apenas em 1925, um ano antes da apresentação de Baird.
O período marcou a proliferação de televisões mecânicas, predominantes nas décadas de 1920 e 1930. Esses aparelhos utilizavam discos perfurados giratórios para escanear imagens e convertê-las em sinais elétricos, posteriormente reconstruídos no receptor por meio da variação da intensidade luminosa.
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Na década de 1930, surgiram os televisores eletrônicos, que substituíram o selênio por feixes de elétrons. A evolução prosseguiu com o desenvolvimento de tecnologias como o Image Orthicon, nos anos 1940, e o Vidicon, nos anos 1950, até a chegada dos sensores digitais presentes nos aparelhos atuais.
Orthicon, por volta de 1948, tubo elétrico para imagens de televisão
Getty Images
Da inovação técnica à revolução cultural
Embora as descobertas iniciais tenham sido decisivas, a televisão só se consolidou como fenômeno cultural com a expansão das emissoras. Em 1946, havia cerca de 44 mil aparelhos nos Estados Unidos; em 1952, esse número já alcançava 24 milhões, impulsionado pelo aumento da capacidade industrial e pela maior disponibilidade de renda e tempo livre da população.
Na década de 1950, a presença da televisão nos lares saltou de 9% para mais de 90%, segundo a NBCUniversal. O novo meio transformou o consumo de informação e entretenimento, popularizando formatos como sitcoms, telenovelas e programas de variedades, além de atrair anunciantes interessados na audiência em massa.
Foto da sitcom britânica transmitida pela BBC tirada em 1990
Getty Images
A hegemonia da televisão se manteve até o início do século XXI, quando os serviços de streaming passaram a disputar a atenção do público. Em 2022, essas plataformas superaram a TV a cabo como principal forma de consumo audiovisual, alcançando mais de 44% da audiência televisiva em maio do ano passado, de acordo com o relatório Nielsen Gauge.
Trazendo essa trajetória para os dias atuais, o artigo de Lucia Auerbach, na Inc., mostra que a IA já tem respondido perguntas que antes eram feitas ao Google, mas questiona como as empresas de IA podem tornar suas tecnologias relevantes em um cenário de transformações ainda mais aceleradas nos meios de informação. "Como as empresas de IA, enquanto uma nova tecnologia, podem garantir a construção de confiança com o público?", escreve.
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