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Belo Horizonte,21/07/2026

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Ângela Barbosa Dias

Os Desdobramentos da Maternidade - Epílogo

Arquivo Pessoal
Os Desdobramentos da Maternidade - Epílogo Fiz essa tatuagem em agradecimento à Nossa Senhora que em todo o processo do Lolô, ela nunca nos abandonou... mãe é mãe,né? Mães entendem as dores das outras mães


Impactados pelo estado atual do Lorenzo e não podendo permanecer com ele ali no atendimento, meu coração  parou por algum tempo, era uma angústia e um medo assoberbado, que precisei que as lágrimas  pudessem cair para  acalmar minha alma. Era  necessário fé e coragem  para enfrentar aquele novo cenário. Mesmo tomados pelo desespero, o papai do Lolô precisou de entrar em contato com os médicos, para sinalizar o que estava acontecendo, naquele instante  eu implorava que Nossa Senhora que é mãe, guardasse  e protegesse a vida do meu filho.

Transfigurados pelo medo, fomos chamados pelas médicas de plantão , que esclareceram que Lolô estava tendo vários episódios  de Convulsão, que o estado dele era gravíssimo, que ele precisaria  ir para um leito da UTI  e aquela Unidade Hospitalar  não tinha essa modalidade  Pediátrica, mas que ele ficaria internado, aguardando  uma transferência, pedimos  que entrassem em contato com a oncologista  dele e passasse  o caso.

Administrando toda aquela  apreensão, pedíamos a Deus  que nosso filho tivesse todo suporte necessário  para atender às demandas da sua enfermidade naquele momento.

Bombardeados com as falas eos olhares das médicas, precisávamos filtrar aquelas informações  tão pesadas  e  manter uma oração  de confiança do amor de Deus sobre a vida do nosso Lolô.

Estávamos desde setembro  atravessando o desconforto desse diagnóstico, era um deserto emocional, mas não iríamos esmorecer, tinha um menino muito amado lutando para continuar  conosco, em nossa família.

Movida pelo amor mais profundo e puro, assim que o Lolô  foi para um leito no hospital, fui ao encontro dele, falei no ouvidinho dele:

- A mamãe está aqui ;

- Mamãe ama você, dei beijinho e segurei na mãozinha dele.

Nos bastidores do meu coração, vi naquela noite ele lutando  pela vida; máscara pulmonar, oxigênio, soro, medicações e outros aparatos, mas permanecia ali com ele, e ver as pessoas com aquele olhar de pena, feria minha humanidade, Lolô era um pequeno grande guerreiro  lutando pela  vida, e o amor de sua família o encorajava a continuar.

Fragilizado por tudo que o nosso pequeno estava passando, o papai do Lolô precisou ir para casa, explicar para o irmão o que estava acontecendo e durante  toda  noite fui passando as  notícias  do nosso pequeno.

A Oncologista enviou mensagem que de manhã ela iria ao hospital. 

Ao amanhecer, a enfermeira trouxe o Kit de intubação, aquilo me causou um medo extremo. Quando a Pediatra de Plantão chegou, disse que era necessário realizar esse  procedimento, então, pedi que aguardasse a oncologista chegar, ela  estava a caminho do hospital,  precisava do parecer dela que já estava ciente de toda situação  do meu Lolô.

Esmorecida pelos últimos  acontecimentos e  sobressaltada com tantas informações, a palavra intubação me causava  pânico, ali grudada com meu Lolô, pedia a Nossa Senhora sabedoria e calma para fazer o melhor para saúde dele. O pai do Lolô já estava no hospital, aguardando a Oncologista.

Sem meias palavras, a Oncologista explicou minuciosamente  o que estava acontecendo, por ser um tumor  extremamente  agressivo,  a convulsão era um dos sintomas altamente preocupante, ela estava associada a forte dor de cabeça, que por isso era necessário  mantê-lo sedado. Revelou que a situação  dele era gravíssima e que precisávamos nos preparar porque Lolô tinha pouco tempo de vida.

Meu Deus, era impiedoso  demais ouvir aquelas palavras, não pude me conter,  a carga emocional foi tão grande que as lágrimas eram insuficientes  para  acalentar meu coração, senti-me esvaziada de qualquer sentimento, era um luto antecipado que a maternidade não me deu ferramentas para suportar, ali naquela sala experimentei a incapacidade  humana de salvar a vida do  meu filho.

Ainda devastados, a Oncologista continuou dizendo  sobre a necessidade  de intubar o Lolô e que  ele precisaria ir para uma UTI.

Sucumbidos pela dor e cientes de tudo que tínhamos  ouvido, eu e meu marido, o pai do Lolô, entendemos que o quadro dele, infelizmente, era  avançado e  irreversível, já não havia nada na medicina que pudesse ser feito para impedir a evolução  do Câncer e suas sequelas. Com o coração  despedaçado, decidimos que não iríamos permitir a intubação, era sacrifício demais para nosso pequeno,  geraria mais sofrimento para ele, então   pedimos  que Lolô fosse poupado de qualquer dor e desconforto e que  queríamos  ficar com ele, não deixaríamos ele sozinho na UTI.

Com muita empatia, a Oncologista entrou em contato com o diretor  do  hospital, onde Lorenzo  iniciou seu tratamento,  e pediu um quarto  com todo suporte da UTI, para  que pudéssemos ficar com ele , atravesssaríamos  juntos, em família,  aquela situação, não faltaria amor e carinho como nosso filho amado.

Buscando acomodar no coração  os estágios terríveis que essa enfermidade  apresenta, retornei para o leito e  conversei com Lolô, que ele ia para outro hospital de ambulância, que a mamãe iria com ele.

Ali ficamos aguardando; assim que ambulância  chegou, a equipe  veio  buscá-lo, ouvi naquela ambiência, algumas falas cruéis  e insensíveis, que Lolô não resistiria a transferência. Foi desolador ,o medo se instalou no meu coração, pedi que Nossa Senhora intercedesse  pela vida dele , e que  toda minha dor naquele instante  fosse transformada em perdão, era desumano aquelas pessoas  sepultarem meu filho vivo.

Mas com muita fé , Nossa Senhora  enviou um guardião de anjos naquela ambulância, com muita compaixão e empatia os profissionais  fizeram  todo o manejo com ele com muita calma  e paciência, demonstraram um carinho extremo em cada detalhe.

Já na ambulância me  acolheram e encorajaram a não desistir, ali fui segurando a mãozinha dele e agradecendo a presença amorosa da Mãezinha do céu   que  passou a frente e enviou pessoas de bom coração para me ajudar a caminhar. Percebi naqueles momentos  que minha maternidade era uma oportunidade  de viver a plenitude do poder curativo do próximo na vida da minha Família.

Parecendo tudo desabar ao nosso redor, o papai do Lolô passou para nossa família  o quadro real do Lorenzo, alguns familiares  foram para o hospital aguardar a chegada do Lorenzo  na outra Unidade Hospitalar. Foi um momento de muito acolhimento e apoio.

Naquele contexto tão doloroso, eu não tinha palavras para dizer o que meu coração carregava, meu desejo  era só  ficar grudadinha nele, foi muito  exaustivo  aquela transferência, o corpinho estava frágil  demais, mas  ele era um exemplo de coragem , enfrentando uma grande batalha pela vida.

A Oncologista  chegou no hospital, reforçou a necessidade  da Morfina, para poupar qualquer desconforto  de dor, ele estava lutando bravamente  para se manter conosco, eu sei que ali, ele não podia falar mas sentia em cada respiração  seu esforço  para não nos deixar. A médica liberou algumas visitas, para que pudesse estar com ele, nesses últimos  momentos .

Nós, o papai e a mamãe, enchíamos Lolô de amor, de beijinho e  de  carinho e  com muita resiliência  e fé acreditávamos no Deus que  realiza milagres  e que nos fortalecia a seguir  em frente com ele e por ele.

Mesmo tudo parecendo incerto e intransponível, buscava  alimentar  serenidade  e um sopro de esperança. Mas na madrugada daquele sábado, fui visitada  por uma dor dilacerante, ver Lolô apresentando uma disfagia, que era uma dificuldade  para engolir a saliva, foi difícil demais, fui tomada pela angústia, era preciso fazer  aspiração nasal, eu como mãe vi que aquele procedimento o incomodava e eu não podia fazer nada para impedir aquele sofrimento. Nesses momentos segurava a mãozinha  dele, para que ele soubesse que não estava sozinho e pedia a Nossa Senhora que pudesse sustentá-lo.

Lolô estava lutando do seu jeitinho, demonstrando força e coragem, então colocava tudo nas mãos Deus.

Minha maternidade  não me autorizava a desanimar, eu tinha confiança de que nossos amigos e familiares  estavam nos  embalando  através da oração  para nos amparar diante aquela realidade.

Naquela domingo, recebemos  a visita de alguns familiares, momentos tomados de  carinhos e significados . O papai nesse dia trouxe uma pessoa muito especial, seu irmão Henzo que  veio passar o dia conosco.

O papai teve uma ideia genuína  de trazer os brinquedos preferidos  do Lolo, arrumamos tudo pertinho dele, colocamos seus adesivos na mãozinha e compartilhamos lembranças memoráveis de nossa família.


Henzo, na sua pureza e na  sua sabedoria infantil conversou, brincou e relembrou com ele suas bagunças  preferidas, temos a certeza que Lolo ouviu tudo e o seu coração ficou quentinho com tanto amor, talvez,  Henzo não entendesse a gravidade  que habitava naquele quarto,  mas era um menino tão gentil que sempre demonstrava  um amor incondicional ao seu irmão querido e companheiro de travessuras e vida.

Tentando não sabotar minha esperança, diante de tanta dor,  recebemos a visita do responsável  pelos Cuidados  paliativos daquele hospital, momento de muito acolhimento e empatia conosco.

Fez questão de  ouvir nossa fala, queria saber  como tudo aconteceu e  como estávamos organizando emocionalmente  aquele momento, o que estávamos  sentindo, perguntou sobre o  irmão, os avós... foi muito significativo  e importante aquele movimento, nos permitiu desabafar tudo aquilo que nosso coração trazia nesse tempo de luta.

Depois de nos  ouvir e nos confortar, disse que precisava explicar sobre essa nova fase, iniciou dizendo que  o Câncer  acarreta  mazelas terríveis ao  seres humanos, que o corpo vai perdendo a luta e falhando nas suas funções vitais, continuou pontuando  tudo o que iria acontecer detalhadamente, ali, eu e o papai do Lolô ficamos  em  silêncio, porque não existia nenhuma palavra para transmitir nossa dor, nossa angústia e nossa incapacidade  de reverter aquele quadro.

O trabalho dessa equipe multidisciplinar era melhorar a qualidade  de vida dos pacientes, aliviando sofrimento através do controle da dor, buscando amenizar qualquer desconforto no paciente e amparar a família nessa etapa tão dolorida.

O médico paliativista ficou muito sensibilizado, por que se tratava de um menininho de apenas 5 anos, lutando pela vida, disse que enviaria um psicólogo  para dar suporte a família. Naquele instante o chão desapareceu, as lágrimas transbordaram, o coração parecia desmoronar, sentíamos que  estávamos perdendo aquela batalha.

Aqueles dias experimentei um luto antecipado, aquele território  era de muito sofrimento,  tudo estava fora do meu controle , senti meu coração  gemendo, as lágrimas  conduziam minha impotência, em alguns momentos, precisava suplicar que Nossa Senhora  colocasse minha família  no seu manto Sagrado, eu e meu pequeno Lolô  continuamos a pedir a cura, rezando e suplicando um milagre, coloquei  o tercinho na  sua mãozinha como fazíamos em casa, não faltava fé, oração e esperança nos nossos corações.


No limite do amor, Lorenzo  era um grande  guerreiro, lutando  para ficar mais um pouco conosco, não estava  fácil, mamãe via seu esforço, suas intercorrências respiratórias  e seu corpinho debilitado.

Quando perdia a veia, era uma luta para conseguir  novamente, eu implorava que  mexesse  nele bem devagar, eu não desgrudava dele, orava baixinho no silêncio  do meu coração, pedia para a Mãezinha colocar ele no seu colo e me ajudar a maternar nesse campo de tanta dor e sofrimento, não deixar que essa tempestade  esmorecesse minha fé.

Dia 27 de abril de 2021, quarto dia de internação, Lolô vinha lutando bravamente pela vida, eu valorizava seu esforço  em cada  respiração, tudo era  muito pesado, ali naquele ambiente, a infância estava escamoteada, eram tantos protocolos  a ser seguidos que era um ciclo doloroso demais para qualquer criatura , imagina para um menino de apenas 5 anos.

Naquele dia a enfermagem organizou  um mutirão para dar banho no leito, enquanto organizavam a troca dos lençóis, elas me arrumaram na poltrona e colocaram meu pequeno no meu colo, que saudade de tê-lo em meus braços  novamente, ficamos ali juntinhos abraçados... foi um momento memorável do amor mais sensível e puro, eu queria  poder estacionar as horas e permanecer ali para sempre com ele.

Aquele momento foi um presente para minha maternidade que vivia um sentimento de dor inatingível  na lógica humana.

Mas ao decorrer desse dia, depois de desfrutar aquele momento tão precioso, às 15h vimos os equipamentos anunciarem que  Lolô estava no seu limite, sua vida estava por um fio, meu Deus foram dificílimos aqueles instantes, mas Lolô insistiu e resistiu e com muita coragem permaneceu ali conosco.

Logo fomos amparados por toda equipe, o Médico Paliativista  de forma bem humana, compreendendo que estávamos passando pelo momento mais avassalador da vida da nossa família, com muita tranquilidade  disse que Lolô tinha chegado em uma situação  irreversível e a despedida se aproximava.

Foi demais tudo aquilo, ali precisei me agarrar no amor de Nossa  Senhora, a dor era imensurável, eu precisava reconstruir  internamente o que não foi programado  pela lógica  da vida.

Nos debruçamos e ficamos ali com ele, senti que seu corpinho estava cansado demais, ele foi um guerreiro insistiu e não desistiu.

Nossa Senhora nos ofertou mais 3 horas com ele, ficamos ali juntinhos, contudo às 18h  foi extremamente dificil...Ali diante aos  nossos olhos ele deu seu último suspiro, o papai muito forte  e admirável disse para  o Lorenzo que  ele poderia ir em paz e que íamos amá-lo para sempre, que ele foi forte e corajoso e nunca nos  esqueceríamos dele. Fizemos uma oração e entregamos nosso tesouro.

Calei-me no silêncio mais profundo, vazio e desolador que uma mãe pode passar.

Termino este capítulo,  agradecendo a todos que acompanharam a  jornada  do pequeno Lorenzo.

Quando alguém recebe o diagnóstico  de Câncer  na família, é tão brutal,  que todos   adoecem  juntos, lutamos  bravamente pelo nosso filho,  Lolô foi um pequeno grande guerreiro, incansável  na sua caminhada de  cura, ele só tinha 4 anos quando tudo começou e foi um gigante nessa batalha. 

Pedimos muito um Milagre a Nossa Mãezinha do Céu, mas sei que Ela  intercedeu por ele, não aos nossos  olhos terrenos, mas no céu, lá eu  sei que ele agora pode  viver sua infância plenamente, andando, falando, cantando, correndo, brincando  e fazendo  suas bagunças...sendo criança na sua plenitude. 

Com muita fé, sempre compartilhei minha maternidade  com Nossa Senhora, exemplo inigualável  de mãe, hoje sei que ela materna ao lado do meu pequeno cuidando e amando.

Somos uma família  comum, que tivemos a honra e o  privilégio  de ser pais de um menino tão extraordinário que mudou nosso olhar pela vida. Ele veio ao mundo para nos ensinar o amor mais desprendido, a olhar o próximo com gentileza e a amar sem reservas.

Gratidão é o nosso sentimento hoje de ter compartilhado esses 5 anos com o nosso Lolô, um tempo de muita aprendizagem, experiências e resiliência.

Nossa família  foi abençoada  por ter recebido esses dois meninos  incríveis e encantadores, que trouxeram o verdadeiro encantamento da maternidade.

A Saudade ainda é devastadora demais ,porque o amor é muito grande,  nunca briguei com minha saudade, porque através dela recordo momentos inesquecíveis  que o tempo não apaga.

Nesse trajeto de dor, eu vivo um dia de cada vez. Precisei na minha maternidade  reescrever essa história. O Henzo não podia  ser penalizado por essa dor, ele também tinha direito  de ter uma mãe e uma família, o luto tem um sabor amargo demais e devolver alguém que amamos é muito dolorido, mas vamos seguindo  encorajados pelo amor mais puro que nosso pequeno depositou em nós.

Minhas páginas tem algumas cicatrizes e memórias eternas do bem mais precioso que chamamos de FILHOS.

Lorenzo será para sempre nosso raio de luz, que apesar da sua tenra idade foi incrível  e insubstituível  na nossa família...

Se Deus me perguntasse hoje se queria ser mãe do Lolô e passar por tudo novamente,  eu aceitaria  com muito amor. 

Tenho certeza de que Lolô tocou a eternidade impactando a vida de quem conheceu sua história e jamais será esquecido.

Finalizo compartilhando com vocês   que em novembro  de 2021 conhecemos um projeto chamado Bosque da Memória, um lugar incrível de beleza natural que nos transmite vida,  plantamos um lindo IPÊ amarelo em sua homenagem e participamos do livro, contando um pouco da vidinha desse guerreiro. 


Que possamos olhar seu IPÊ  com os olhos da alma e perceber  que plantar uma árvore  é plantar vida. E ver sua árvore  florir é ter certeza de que Lorenzo continua vivendo.

Encerro dizendo que nosso pequeno Lorenzo  deixou um legado de Amor e coragem.

Lolô, saiba que nos nossos corações  você  sempre estará, nosso amor contigo vai seguir, o amor nos une para sempre.



Lorenzo Costa Barbosa nasceu em 28/11/2015, carioca, estudante, flamenguista, levado, bagunceiro, "cozinheiro", carinhoso e corajoso. Devolvi para Deus em 27/04/2021...






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