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Belo Horizonte,06/04/2026

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Matthieu Blazy leva a Vogue aos bastidores da Chanel

vogue.globo.com
Matthieu Blazy leva a Vogue aos bastidores da Chanel
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A moda não pode existir sem mudança – mas algumas transformações ultrapassam o simples ciclo das estações. Quando foi anunciado, no ano passado, que a Chanel estava sem um diretor criativo, todo o setor observou a maison com expectativa. Por quase 40 anos, a Chanel expressou a visão de um único homem: Karl Lagerfeld. Após sua morte, em 2019, sua fiel colaboradora Virginie Viard deu continuidade ao legado. A saída de Viard, no ano passado, deixou vago um dos postos mais altos da moda – e, ao mesmo tempo, levantou a possibilidade de uma guinada inesperada no estilo da casa. Matthieu Blazy, 41 anos, um designer relativamente jovem, conhecido por invenções surpreendentes em couro na Bottega Veneta, não parecia uma escolha óbvia. Quando foi anunciado como diretor artístico, em dezembro passado, coube a ele não apenas escapar de uma sombra imensa, mas também mostrar para onde poderia conduzir a marca. O futuro da Chanel dependeria de sua estreia em outubro.
Na noite desse primeiro desfile, o Grand Palais vibra de excitação. Modelos correm e esperam, vestindo roupões e presilhas no cabelo. Quarenta minutos antes do horário da apresentação, Blazy surge – pálido e tenso. “Estou meio fora de mim, para ser sincero... vou fumar um cigarro”, diz, e desaparece novamente.
Awar Odhiang usa vestido que remete à história da origem da Chanel no início do século 20. Todos os looks são da coleção de verão 2026 da CHANEL, a estreia de Matthieu Blazy à frente da marca
Rafael Pavarotti

Blazy chegou ao posto máximo da Bottega Veneta após quase duas décadas de carreira como coadjuvante nos bastidores – uma espécie de arma secreta que todos sabiam existir. Na Raf Simons, onde começou logo após a faculdade, ficou conhecido por introduzir complexidade na modelagem; na Maison Margiela, foi ele quem criou as máscaras cravejadas de cristais que se tornaram um dos símbolos da casa. Seu trabalho na Bottega distinguia-se por uma compreensão sofisticada do artesanato e de sua capacidade de unir ideias aparentemente contraditórias em um todo surpreendentemente humano. “É força que encontra suavidade, estrutura que se funde à fluidez”, diz Ayo Edebiri, embaixadora da Chanel. “Ele enxerga todos os tipos de mulher. Eu me sinto eu mesma em um vestido lindíssimo – que pode ser sexy ou recatado.” Nicole Kidman, colaboradora de longa data da Chanel, completa: “Quando conheci Matthieu, fiquei impressionada com o modo como ele aborda tudo com o coração antes de qualquer coisa”.
Quatro telas no backstage mostram o mundo exterior: o interior do Grand Palais, duas vistas das chegadas no tapete vermelho e imagens de drone da multidão aglomerada atrás das grades na calçada. Todos procuram Blazy. As modelos tomam seus lugares na fila; técnicos de som e imagem murmuram nos fones de ouvido. Quando o estilista finalmente aparece, faz uma ronda rápida, sorri para os colegas e se recolhe novamente às próprias inquietações. “Minha mãe descreve isso como o estresse de deixar os filhos no primeiro dia de aula – você sabe que vai dar tudo certo, mas mesmo assim...”, diz, cruzando os braços e observando as modelos prontas para entrar.
As modelos Abény Nhial e Awar Odhiang com looks da coleção
Rafael Pavarotti
Algumas semanas antes, numa quarta-feira quente de julho, encontrei Blazy nos degraus da Église Saint-Germain-des-Prés – a igreja mais antiga de Paris e um testemunho do poder da permanência, de como um elemento periférico, existindo há tempo suficiente, pode não apenas se integrar à paisagem, mas se tornar seu próprio coração. Para Blazy, aquele lugar também simboliza lar. “Moro não muito longe daqui”, diz ele, levantando-se dos degraus para me cumprimentar. “E meu pai tinha uma galeria perto, eu vivia por aqui.” Blazy veste sua marca registrada: camiseta branca sem logotipo, suéter sobre os ombros, jeans azul desbotado e relaxado caindo sobre mocassins pretos de pele de cordeiro amassada desenhados por ele. Na Bottega, onde o conheci há alguns anos, ele era reconhecido por transformar o refinamento em celebração juvenil da vida cotidiana. Lembro-me de vê-lo, em um banquete de magnatas na Itália, levantar-se para um discurso tímido e gentil – o papel que assumia parecia uma coroa ainda um pouco grande demais para sua cabeça de 37 anos.
Apenas três anos se passaram desde então. Agora, aos 41, com a coroa da Chanel sobre si, transmite uma segurança amadurecida. Os cabelos castanho-claros já exibem fios grisalhos. O rosto, mais definido, tem firmeza no maxilar e uma impaciência no olhar. Ainda assim, permanece nele o ar do eterno estudante – atento, modesto, ansioso por participar. Num setor sob constante pressão, Blazy conquistou a reputação de traduzir liberdade artística em sucesso comercial – e, ao mesmo tempo, de ser, nas palavras de Raf Simons, “uma das pessoas mais amáveis que já conheci na vida.”
Todos os looks são da coleção de verão 2026 da CHANEL, a estreia de Matthieu Blazy à frente da marca
Rafael Pavarotti
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Blazy me conduz até um bistrô que, à primeira vista, parece o menos promissor da região. Num horário em que o 6º arrondissement fervilha de gente bebendo uma taça de vinho, aquele lugar é um oásis silencioso, coberto por treliças verdes e janelas adornadas com o que parece grama sintética. “Esse é o tipo de café que não faz sucesso com turistas”, observa ele, alegre, apontando para as mesas vazias. “Também não faz muito sucesso com os franceses”, completa. Para ele, no entanto, o bistrô é perfeito – rico em detalhes singulares que pessoas de gosto mais apressado talvez tenham apagado.
“Adoro a placa La santé par l’alimentation [saúde pela alimentação]”, diz, admirando as letras itálicas sobre a porta. “Reflete uma época, um jeito de ver o mundo.” Ele gosta das cadeiras de vime e também de gramado artificial. Sob o olhar de Blazy, o que parece estranho revela-se, na verdade, mais autêntico do que os restaurantes turísticos das redondezas, com velas derretendo sobre o boeuf bourguignon e acordeões suspirando nos cantos. Ele se senta ao ar livre, diante de uma pequena mesa com um vasinho de lavanda, e pede um rosé piscine, vinho rosé com gelo.
Focar nos detalhes – específicos de um tempo e lugar, moldados pelas necessidades da vida cotidiana – é o cerne da ideia de integridade e rigor de Blazy. Ele costuma dizer que cria uma coleção antes mesmo de desenhar uma única peça. O que quer dizer com isso é que ele e sua chefe de pesquisa, Marie-Valentine Girbal, colecionam – meticulosamente – dezenas de imagens e amostras de tecidos em pastas, classificadas por temas. Depois, essas pastas são entregues aos seus assistentes de design, que têm liberdade para criar modelos inspirados no material. Em seguida, Blazy passa semanas trabalhando sobre essas propostas – descartando algumas, refinando outras. As pastas são o ponto de partida, a semente de sua visão.
A primeira vez que lhe perguntaram qual era sua visão da Chanel, a resposta veio de forma instintiva. Ele a pronunciou num sopro, e depois temeu soar ingênuo: “Eu disse: ‘A Chanel é moderna’”.
Todos os looks são da coleção de verão 2026 da CHANEL, a estreia de Matthieu Blazy à frente da marca
Rafael Pavarotti
Mas o que isso significa é aberto à interpretação. Onde o estilo de Lagerfeld era exuberante e implacavelmente chique, Blazy é um conceitualista, com gosto por geometria marcada e tons terrosos. Suas coleções na Bottega centravam-se em marrons ricos, roxos amanteigados e tons vibrantes e inesperados de verde. E, enquanto Lagerfeld era uma borboleta monárquica do excesso – circulando com entourage, ampliando sua mansão parisiense com outra casa próxima apenas para fazer refeições, e enchendo esses espaços com livros e tesouros de seu “complexo de Versalhes”, como dizia André Leon Talley – Blazy tem um gosto muito mais discreto. Circula sozinho, muitas vezes a pé, e prefere cerveja a champanhe. Ao assumir o cargo mais raro e desejado da moda, mudou-se para um apartamento que divide com sua irmã gêmea – e mandou seus melhores móveis para o escritório.
“Ele é uma escolha notável para a Chanel, em termos de personalidade e da maneira como isso se reflete em suas roupas”, disse-me Andrew Bolton, curador do Costume Institute do Metropolitan Museum, que há dois anos organizou uma grande retrospectiva da obra de Lagerfeld. “Ele tem uma abordagem muito democrática e igualitária do design, o que acredito que será extremamente benéfico para a Chanel. Sempre senti, com Karl, que havia um senso de sublime em seu trabalho alcançado por meio do luxo. O sublime de Matthieu é mais silencioso. Ele está profundamente engajado em uma estética do cotidiano.”
Uma leve chuva de verão começa a cair. Blazy ergue o olhar, intrigado, e pergunta se quero mudar de lugar. Mas gostamos do chuvisco, então ele acende um Marlboro Gold, pede outro piscine e deixa o tempo seguir seu curso. Durante as primeiras semanas em que foi sondado pela Chanel, diz, não fazia ideia do que estava acontecendo. Um dia, na Bottega, ao sair de uma reunião, recebeu uma ligação de um recrutador. “Percebi rapidamente que, se ele estava me ligando agora, é porque tinha algo grande nas mãos”, conta. Ele o bombardeou de perguntas – seria isso? Aquilo? “Todos sabíamos que havia uma dança das cadeiras acontecendo”, explica. “Em determinado momento, pensei: Merda, talvez seja a Chanel – mas nem tive coragem de perguntar.”
O estilista Matthieu Blazy
Annie Leibovitz
Blazy estava em um trem rumo a Veneza quando recebeu a ligação que confirmava para qual cargo estava sendo considerado. Quase sem tempo para digerir a notícia, as reuniões já começaram a ser marcadas. “Era julho”, ele lembra. “O dia estava absurdamente quente quando cheguei a Paris. Eu estava completamente vestido de forma errada, mas era aquela situação em que você não quer tirar o suéter porque isso acabaria com o styling.” Suando por amor à estética, passou quatro horas em reuniões com a alta direção da maison – surpreso, diz ele, com o ambiente familiar e descontraído. “Quando saí da reunião, pensei”, suspira, como quem acaba de se apaixonar, “nossa, eu poderia ser realmente feliz com essas pessoas.”
Logo depois, voou para Londres para conversar com Leena Nair, CEO da marca. Depois, viajou à Normandia para visitar Alain Wertheimer, presidente do grupo Chanel. “Quase não falamos sobre a Chanel”, conta Blazy. “Ele me disse: ‘Se você está aqui diante de mim, é porque deve ser um bom designer – então não vamos falar de trabalho’.” Os dois conversaram sobre infância, família e suas afinidades com a arte. Apenas nos últimos cinco minutos da conversa, Wertheimer voltou ao tema da moda – e foi então que Blazy mencionou sua visão sobre modernidade.
“Ele me perguntou: ‘Você acha que a Chanel é moderna hoje?’ Eu disse: ‘Acho que os pilares ainda são modernos – mas podemos empurrar um pouco mais adiante’.” Wertheimer sorriu. No carro, de volta para casa, o motorista ligou um rap francês, janelas abertas. Blazy se permitiu um instante de contentamento. “Foi quando pensei: Talvez isso funcione.”
Bruno Pavlovsky, presidente de moda da Chanel, me contou que ele e seus colegas tinham uma ideia muito clara do tipo de criador que buscavam: um gênio capaz de habitar a marca. “Com alguns designers, trata-se da visão deles, mesmo quando passam de uma marca para outra”, disse. “O que aprendemos a valorizar na Chanel é um camaleão – alguém que use seu brilho imaginativo para reviver a maison em seus próprios termos. Matthieu tem uma visão – nós o amamos por ser Matthieu –, mas ele coloca tudo isso a serviço da marca.”
Do lado de fora do bistrô verde, a chuva engrossa. Blazy propõe caminharmos até um de seus restaurantes favoritos, a poucos quarteirões dali. Enquanto apressamos o passo pela Rue Cardinale, ele se recorda do momento em que sua nomeação foi anunciada e o segredo de sua nova função na Chanel se tornou notícia mundial. “Entrei em pânico. Fiquei apavorado. Estava num restaurante em Milão, e o garçom veio até mim mostrando o Instagram e dizendo: ‘Você está no meu feed!’ E ele nem era alguém que sabia que eu trabalhava com moda.” Tomado por uma súbita urgência de fugir dos olhares curiosos que imaginava encontrar em cada esquina, arrumou uma mala e fugiu da cidade, escondendo-se no sul da Itália por dez dias.
Agora, garçons de camisas brancas listradas e gravatas cinza o recebem com familiaridade. Blazy explica que descobriu aquele lugar por acaso – e que, embora à primeira vista pareça uma brasserie turística de Saint-Germain, trata-se de um dos restaurantes mais antigos ainda em funcionamento em Paris, preservando sua marcenaria original em estilo art nouveau.
Blazy diz estar feliz com o trabalho dos últimos meses. O estúdio, segundo ele, começara a gerar boas ideias. “Todos me dizem: ‘Estou tão animado para o seu desfile!’. Mas eu também estou – e, na verdade, ainda nem sei exatamente o que ele será. Há uma ideia geral que não muda”, diz, dando de ombros com incerteza. “Agora o que precisa acontecer é a mágica.”
Comece com um casaco. Um blazer masculino – britânico, digamos – de tweed: o arquétipo cotidiano da masculinidade refinada. Vista-o em uma mulher. Pegue uma tesoura. Corte-o na altura do quadril. Feche as lapelas. Acrescente um ou dois botões. “De repente, você tem o arquétipo de uma jaqueta Chanel – a partir de uma peça masculina”, explica Blazy. Ele sabe disso porque realizou exatamente essa operação com sua equipe no primeiro dia de trabalho no estúdio da Chanel. Foi um exercício de despir um século de camadas acumuladas de tradição e retornar ao choque original da novidade.
“O modo como Karl via a Chanel é uma visão muito específica do que a casa é”, explica. “Quando você volta aos primeiros anos de Gabrielle Chanel, percebe que muitas coisas aconteceram e ainda não foram contadas, embora tenham dado origem aos códigos.” Ao visitar a sala de provas de Lagerfeld no ateliê parisiense, Blazy percebeu que não poderia trabalhar ali (“era um espaço carregado demais de legado e pressão”), então montou um novo estúdio no lado oposto do prédio: uma sala simples, moderna e inundada de luz. Em vez de continuar nas estradas pavimentadas por Lagerfeld e Viard, ele retornaria ao caminho criativo de Gabrielle “Coco” Chanel e tomaria outra direção. O exercício da jaqueta masculina anunciava essa mudança.
Ao começar o novo cargo, Blazy passou um tempo nos arquivos da maison, conduzindo sua própria pesquisa e observação. Seguindo uma intuição, conversou com Jean-Claude e Anne-Marie Colban, irmãos que dirigem a tradicional alfaiataria masculina Charvet. “Eles sabiam coisas que eu desconhecia, como, por exemplo, que Coco comprava presentes para o namorado na loja.”
O namorado era Arthur “Boy” Capel, jogador de polo inglês por quem Chanel foi apaixonada de 1909 até sua morte, uma década depois – anos em que seu estilo, carreira e mistério pareciam emergir do nevoeiro. Blazy imaginou Coco fazendo pedidos na Charvet, estudando o caimento dos ombros e as aberturas dos punhos das camisas masculinas. E sabia que Capel, um esportista da elite inglesa, vestia muito tweed.
No início da década de 1910, Coco compareceu a uma festa à fantasia vestida com roupas masculinas. Diferente dos outros convidados, usou o mesmo traje na manhã seguinte, trazendo-o para o campo do cotidiano. Blazy suspeita que havia um significado mais pessoal nessa escolha. “Todas as minhas amigas usam roupas dos namorados”, diz. “Eu também uso as do meu namorado quando estou apaixonado – é uma forma de me sentir mais próximo, entende?” O empréstimo de Chanel do vestuário masculino já foi muito comentado, mas Blazy o entende como um gesto de liberdade – e de um tipo muito específico.
“Ela não queria parecer uma mulher para quem os homens compravam tudo. Gostava de montar a cavalo. Estava sempre em movimento”, explica. E suas roupas nasciam de circunstâncias práticas. O bege Chanel surgiu porque o fornecedor de malha, Rodier, tinha um lote encalhado nessa cor, rejeitado por outros costureiros. Ela forrava as bolsas com tecido vinho porque era mais fácil enxergar as joias contra aquele tom. A Coco Chanel de Blazy é menos uma visionária que brotou do nada e mais uma mulher que criou roupas fascinantes para atender a necessidades profundamente pessoais – as limitações, liberdades e paixões que davam textura à sua vida diária, sobretudo com Boy Capel. “O que logo se percebe é que a Chanel, como a conhecemos esteticamente, não existiria se ela não estivesse apaixonada por aquele homem”, diz Blazy.
A leitura da Chanel como uma história de amor é a resposta de Blazy àqueles que descartariam seu conceitualismo do cotidiano como algo pouco adequado a uma maison tão luminosa. Sim, ele cria a partir do jogo das ideias, e não de arabescos luxuosos traçados pelo lápis à maneira de Lagerfeld. Mas ideias também carregam paixão, sensualidade e até memória do corpo; um tweed que não é transfigurado por um desejo é apenas tweed. (O romance com Boy Capel também serve como um desvio conveniente, já que a outra grande história de amor de Coco, com o barão Hans Günther von Dincklage, a liga à espionagem da Abwehr [serviço alemão de inteligência militar]. “Há uma intimidade e uma sensualidade no trabalho de Matthieu que também existiam em Chanel”, diz Andrew Bolton.
Hoje, como a maior parte dos grandes nomes do luxo, a marca realiza boa parte de seus negócios na Ásia e no Oriente Médio. Mas tem sido incomumente cuidadosa em não se lançar cegamente aos ventos da oportunidade de mercado. Nunca teve coleção masculina nem infantil. Num momento em que se diz que o futuro está no comércio online, redobrou sua aposta nas butiques físicas. “Chanel é sobre manter o foco extremo – você não pode fazer tudo e ser o melhor”, diz Pavlovsky. Isso talvez seja verdade: embora a maison também enfrente a retração do mercado de luxo, sua queda tem sido mais suave que a de muitas outras.
À maneira belga, Blazy gosta de trabalhar em torno da modelo, com a tesoura na mão. “Antes, o processo funcionava assim: Karl desenhava, o ateliê traduzia, e ninguém ousava tocar na peça – ela se tornava sagrada imediatamente”, explica. “Eu posso começar com um tailleur e, ao final do dia, ele vira um vestido. Na primeira vez em que cortei uma peça, ou uma bolsa!, todo mundo ficou, ainda que não horrorizado, surpreso.”
Agora, ele está em seu estúdio, ao lado de Krzysztof J. Lukasik, designer de acessórios, e de Marie-Valentine Girbal, chefe de pesquisa e, na prática, seu braço direito. Os dois se comunicam quase sem palavras: quando Blazy hesita diante de uma decisão, costuma lançar um olhar na direção de Girbal – e ela lhe devolve, com um mínimo movimento dos olhos, o que pensa. (“Em determinado momento, simplesmente entramos em sintonia”, ela explica). Se o círculo criativo de Lagerfeld era formado por um séquito de modelos masculinos e figuras soignées, o grupo de principais colaboradores de Blazy – que o seguiu da Bottega – parece outra tribo: descontraídos millennials obcecados por design. Se não estivessem ali, criando a coleção para uma das maiores marcas de moda do planeta, a impressão é de que estariam reunidos em um porão colaborando em uma boa revista independente. “É ótimo estar rodeado desse tipo de gente”, diz Artur Davtyan, diretor de design de Blazy. “Você consegue ter conversas que não são apenas sobre estética – ‘gostamos disso’ –, mas sobre construir conceitos em torno das coleções.”
Agora, o som de jazz preenche a sala. Girbal e Lukasik avaliam protótipos de bolsas. Quando começou a desenvolver a coleção, Blazy imaginou alusões (sem saber exatamente o porquê) ao Pequeno Príncipe, o livro de Antoine de Saint-Exupéry. A equipe passou então a experimentar bolsas globulares, feitas de metal e pintadas com duas camadas de esmalte, cravejadas de pedrinhas como estrelas. Elas o fazem lembrar de um planetário que visitou quando era menino.
Um novo grupo entra para revisar amostras de tecido. Uma veterana da casa, com três décadas de experiência em sourcing [fornecedores e suprimentos] nos tempos de Lagerfeld, sugere uma bolsa de festa em tom berinjela, coberta de minúsculos paetês cintilantes – um estilo que já fez enorme sucesso na Chanel. Blazy recusa: não gosta muito daquele roxo e, sobretudo, não suporta lantejoulas pequenas. “É trauma pessoal”, diz.
“Gostaria de ver talvez um painel com essas bolsas que fizemos ao longo do último ano?”, ela insiste. Blazy sorri. “Vou contar meu trauma”, começa. Numa noite de Halloween, explica, quando morava em Nova York e trabalhava na Calvin Klein, topou se vestir de drag pela primeira vez. O vestido era coberto de pequenas lantejoulas. Quase imediatamente, ficou preso em um elevador por duas horas. Teve de sair rastejando, por cima dos pés dos bombeiros. “Para completar o walk of shame, saí do hotel e não conseguia achar um táxi”, ele conta. Sorri e balança a cabeça: “Lantejoula pequena, nunca mais”.
Blazy gosta de se afastar do estúdio por alguns minutos entre uma sessão e outra, para que o espaço possa ser reorganizado e seus colegas de criação tenham tempo de se preparar, combinar detalhes – ou reclamar – sem ele por perto. Exila-se numa varanda para fumar um cigarro. “Tudo precisa ser feito com muito respeito, porque estamos discutindo ideias e cores, e gosto não é universal – não existem erros absolutos.” Sua anedota sobre ficar preso no elevador é emblemática: bem-humorada, mas firme. “Acho que eu seria um ótimo diplomata”, comenta.
Alguns dias depois do jantar, encontro Blazy para um café em uma esquina do Parc Montsouris. É uma manhã gloriosa – luminosa, arejada, perfumada. Flocos de pólen de acácias descem pela ladeira da Rue d’Alésia, enquanto o bairro se movimenta em torno de seus afazeres matinais. É uma paisagem da juventude de Blazy: ele cresceu não muito longe dali e vinha visitar um amigo que morava na região. Na adolescência, os dois invadiam festas na universidade da cidade, logo adiante. “Foi realmente o lugar onde tive minha primeira sensação de liberdade e diversão”, ele diz. “Parece Paris, mas não foi desenhado para parecer um cartão-postal.”
Aluno pouco brilhante na infância, Blazy foi mandado primeiro para um internato marista, numa região arborizada do sul de Ardèche, e depois para uma escola militar na Grã-Bretanha. Na La Cambre, tradicional escola de design belga, estudou moda ao lado de música e arte e, como jovem funcionário da marca Raf Simons, foi levado para conhecer galerias.
Até hoje é um colecionador atento e exigente de arte e roupas, mas tem se sentido especialmente atraído, conta, por obras que existem “fora do mercado”. Naquela tarde, ele se encontrará com Richard Peduzzi, cenógrafo de 82 anos com quem pretende colaborar. “A Marie-Valentine me mandou um podcast em que ele aparecia”, explica Blazy. “Achei muito sutil – gostei do que ele dizia. Às vezes, você encontra pessoas e sente uma conexão imediata. A última vez em que senti isso com alguém de outra área que não a minha foi com Gaetano Pesce.”
Em 2022, Blazy e Pesce, que morreu no ano passado, colaboraram no cenário de um desfile da Bottega que incluía um chão especial de resina despejada. Blazy pediu que alguém fosse ao estúdio fazer uma amostra. Quando entrou na sala, encontrou um homem chamado Stefano, braço direito de Pesce, derramando a resina. “Meu coração parou”, diz Blazy – e não por causa do piso. Ainda assim, ele, que vinha de um relacionamento de 17 anos com o designer Pieter Mulier, diretor criativo da Alaïa, não sabia muito bem como se aproximar romanticamente. “Levou um bom tempo”, ele ri. “E algumas cartas.” Depois de alguns meses, os dois se acertaram. Blazy, que não falava italiano, aprendeu. “Estou em um momento bom na vida pessoal – é claro que há pressão, mas estou apaixonado”, ele diz. “Prefiro manter tudo de maneira reservada. Sinto que isso me preserva.”
Ele me guia pela delicada Rue du Square Montsouris, uma ladeira de paralelepípedos que serpenteia diante dos portões estreitos de casas miúdas, cobertas por trepadeiras de rosas. No fim da rua, paramos para admirar um edifício branco, modernista, projetado por Le Corbusier. Alguns quarteirões adiante, em outra ruazinha estreita, passamos diante de mais um vestígio do modernismo, a fachada larga captando o sol da manhã. Blazy olha para o prédio enquanto passa, sem parar, e só depois se volta para contemplá-lo à distância.
“Acabei de comprar essa casa”, diz, tímido. É sua segunda grande aquisição imobiliária em Paris. Ainda na época da Bottega, comprou uma casa singular perto de onde cresceu, durante muito tempo propriedade da escultora Valentine Schlegel – uma artista com quem ele sentia afinidade especial e que havia morrido recentemente. Blazy está restaurando o espaço para transformá-lo em um ateliê compartilhado de artes. Esta nova casa, porém, terá outro papel: será um estúdio pessoal, fora da Chanel – um lugar onde ele possa trabalhar nos fins de semana, longe da pressão do escritório. “É para me deixar respirar”, ele diz. “A Marie-Valentine pode vir trabalhar lá também, e é um espaço onde posso receber pessoas, porque não gosto de receber em casa – é íntimo demais. Com esse tipo de trabalho”, acrescenta, meio envergonhado, “às vezes você precisa receber gente.”
Passamos rapidamente pela casa; então ele olha para trás. “É meio estranho saber que eu também moro aqui, nessa casa”, diz, e por um momento não fica claro se ele se refere ao prédio à nossa frente ou à Chanel. Ele sorri. “Seria um sonho ao qual eu nunca teria permitido que eu mesmo aspirasse.”
Os convites para o desfile de outubro chegam com um pingente em formato de uma casa em miniatura. Espiando por uma lente na fachada, era possível enxergar, gravados no interior, a data e o local do show. Era um gesto sobre olhar de perto – e sobre enfatizar a intimidade cotidiana que é marca tanto do projeto de Blazy quanto do clima familiar que o atraiu para a Chanel.
“Esta maison funciona de outro jeito: é um negócio de família. É administrada por pessoas que têm um sentido de união. As portas ficam abertas de um departamento para outro. Existe o que chamamos de bienveillance – benevolência, gentileza.” Com essa visão doméstica, cotidiana, calorosa da maison, tinha-se a sensação de que a Chanel deixara de ser a antiga casa de Karl Lagerfeld e passara a ser a casa de Matthieu Blazy.
É a véspera do desfile, e Blazy está sentado em uma das pontas de uma sala nos escritórios da Chanel. Flores chegam sem parar, incluindo um enorme buquê enviado por Raf Simons. Blazy não tem dormido muito nos últimos dias, mas exibe o brilho de quem concluiu um trabalho criativo: nas últimas semanas, as peças, os looks, o espetáculo inteiro se encaixaram. “Estou muito feliz”, ele diz.
“No momento, temos 77 looks preparados, o que talvez seja demais – ou talvez seja exatamente o número certo. Editar para quem, você entende o que eu quero dizer?”, ele comenta. “Nós somos a Chanel. É um desfile.” Um desfile, na visão de Blazy, é um gesto em si mesmo. “Ele vai em muitas direções diferentes. Eu preciso testar ideias. Eu quero errar. Não precisa ser perfeito – é o primeiro desfile. É uma proposta.”
Desde o verão, ele vem se concentrando nos grandes temas da apresentação. “Gabrielle Chanel era o paradoxo completo – ela se colocou como igual ao homem e, ao mesmo tempo, era essa séductrice à noite.” Ele me leva até os looks. “A primeira parte do desfile fala justamente desse paradoxo.”
Blazy nunca mostra nem mesmo aos seus mais próximos colaboradores o cenário da passarela antes do dia do desfile, para que o espaço permaneça absolutamente novo aos olhos de todos. Quando os convidados entram no Grand Palais, na noite de segunda-feira, a primeira reação é olhar para cima. Suspensos no teto (e meio enterrados no chão) estão 15 planetas gigantescos: um universo jovem, um céu primordial, o cenário clássico de "O Pequeno Príncipe", uma visão futurista de um passado distante. E, ao mesmo tempo, o planetário de infância de Blazy. Depois, olham para baixo: o chão do Grand Palais foi totalmente recoberto de resina preta salpicada de jatos de cor, lembrando as formas galácticas do universo. A superfície capta o brilho dos planetas suspensos. Em alguns pontos, ela é polvilhada de areia, criando uma textura áspera, como se o piso tivesse sido queimado pelo tempo. E se estende como se fosse infinita.
A superfície foi criada por Stefano, o namorado de Blazy. Durante todo o verão, os dois a aperfeiçoaram juntos, testando cores e formas. Não é mero detalhe que o chão sobre o qual todos os convidados caminham – o palco onde as modelos traçarão suas rotas – tenha sido feito à mão por duas pessoas apaixonadas.
As luzes se apagam, o primeiro look cruza o salão. Blazy criou uma jaqueta Chanel de dois botões a partir da silhueta de um casaco masculino cinza, com calças de vinco marcado – uma versão da peça que ele cortou no primeiro dia de estúdio. Na mão esquerda, a modelo carrega sua interpretação da clássica bolsa 2.55, com estrutura interna de metal maleável, de modo que o acessório possa ser amassado, torcido, deformado. “Elas parecem John Chamberlain. Parecem acidentes de carro. São bolsas que já viveram”, me contou Blazy. Nas orelhas da modelo, brincos brancos em forma de espinhos – sua versão da camélia Chanel.
A terceira modelo usa uma blusa no tom vinho com que Coco Chanel costumava forrar suas bolsas; a quarta veste blusa e uma saia transpassada aparentemente simples, toda em seda – um visual baseado na liberdade e no movimento, com um ocasional lampejo de perna. “É muito interessante ter mulheres cobertas que, quando se movem, se revelam – é algo muito sensual”, diz Blazy. Mas essa sensualidade paradoxal, ele acredita, mantém as mulheres no controle. Blazy dividiu o desfile em três capítulos, e o primeiro, chamado Le Paradoxe, reúne poder e sedução no mesmo gesto. Surge um vestido de duas peças, vermelho e coberto de lantejoulas miúdas, com ares de flapper. Os paetês são pequenos. (“Mudei de ideia”, diz ele, rindo.)
De repente, entra um look com camisa branca masculina e saia de noite – “o paradoxo máximo”, como define Blazy. A camisa foi feita com tecido e técnica da Charvet: simples, elegante, uma espécie de lembrança do amor de Coco Chanel.
O segundo capítulo de Blazy chama-se Le Jour – o dia, o cotidiano, o movimento através da vida comum. “A silhueta já começa a ficar mais feminina”, ele explica. “Ela se aproxima mais do corpo.” Mas é nos materiais e na construção que ele passa a inovar intensamente. O que, à primeira vista, parece um tailleur Chanel clássico é, na verdade, uma saia presa diretamente à barra de um suéter, como se fosse um vestido; ela dança ao redor dos quadris conforme a modelo caminha. Blazy manda alguns vestidos brancos para a passarela, sinalizando discretamente, diz ele, seu casamento com a Chanel.
Em seguida, Blazy exagera as barras desfiadas que Coco adorava, transformando-as em franjas irregulares por meio de fios finíssimos de miçangas que tomam conta da peça aos poucos. “É aquele gesto aristocrático de não ligar mais para isso – você usa as roupas de novo e de novo porque é assim que se sente confortável”, ele me diz. “Não é franja, é desgaste: é usado, amado.” O capítulo também inclui os “espantalhos” de Blazy: algodão fino tecido para se parecer com um saco de batatas, com fios de ráfia saindo da blusa, lembrando trigo.
“Todo mundo que presta atenção sabe que Coco Chanel veio de um meio camponês”, diz o ator Pedro Pascal, que, da plateia, se encantou com os looks de espantalho. Blazy explica: “Coco Chanel pegou as roupas do trabalhador – peças em que você pode se mover – e as deu à aristocracia. Isso se torna o guarda-roupa moderno. Mas tudo começou em algo funcional”. Numa sala cheia de gente que chegara em carros pretos, era, para ele, uma reafirmação do poder de moda contido no cotidiano.
A trilha sonora muda para o rap francês, enquanto as roupas, tecidas em seda, deslizam pelo ar. Há tailleurs. Há vestidos clássicos bordados com flores de ráfia vibrante. Há versões transparentes do tweed e o que Blazy chama de “bijoux ladies”, mulheres adornadas com camadas de colares e joias de inspiração flapper. Então surge o look final, o vestido belga-floral-piña-colada, usado pela modelo Awar Odhiang. Os aplausos começam muito antes de ela deixar a passarela. No finale, ela sorri e dá uma volta cheia de liberdade no centro do piso criado por Blazy, braços erguidos no ar. Nicole Kidman descreve o clima da coleção como “amor verdadeiro”.
Por fim, o criador surge de uma escada lateral. O Grand Palais inteiro se levanta para aplaudi-lo. Blazy abraça Awar Odhiang com força, dá uma volta rápida pelo percurso da passarela e corre em direção à saída, sorrindo. Naquela noite, diz ele, vai se permitir ir para casa fazendo o caminho mais longo.




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