Dia da Mulher: Como negócios liderados por empreendedoras superam a barreira dos 5 anos no Brasil

Sobreviver aos primeiros cinco anos de um negócio é uma missão que seis em cada dez empresas brasileiras não conseguem cumprir, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No empreendedorismo feminino, o desafio não é diferente. De acordo com a pesquisa "Empreendedoras e seus Negócios 2025", do Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME), 38% dos negócios liderados por mulheres ultrapassaram a marca dos seis anos de existência, sendo 19,8% desse total com mais de uma década de mercado.
O perfil da empreendedora brasileira é resiliente: 58,3% são chefes de família e utilizam o negócio como principal fonte de sustento para seus dependentes, o que torna a continuidade do empreendimento uma prioridade absoluta. A busca por independência financeira (38,5%) e aumento de renda (34,1%) aparecem como os principais motivos que levaram esse público ao empreendedorismo, principalmente para mulheres negras das regiões Norte e Nordeste.
"A dependência financeira do sucesso do negócio faz com que essas mulheres atuem com mais força, afinco, determinação, mesmo com todos os desafios que elas enfrentam", avalia Ana Fontes, CEO e fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME).
A pesquisa, divulgada em outubro de 2025, foi realizada pelo Laboratório de Gênero e Empreendedorismo, com execução da Ideafix. A amostra é composta por 1.043 mulheres, sendo 50% base do Instituto Rede Mulher Empreendedora e 50% base da Ideafix (nacional).
A trajetória empreendedora de mais de três décadas da fundadora da Sodiê Doces, Cleusa Maria da Silva, 59 anos, comprova como persistência e visão de mercado foram essenciais para o sucesso do negócio. Mãe solo, ela começou o empreendimento para sustentar sua família ao perceber uma oportunidade no mercado. Ela lembra que a confeitaria na época era baseada em encomendas feitas com dias de antecedência. O diferencial foi oferecer bolos de qualidade para pronta entrega, atendendo o cliente de "última hora".
No começo, trabalhava de 15 a 20 horas por dia e montava os bolos em cima da tampa do freezer por não ter como adquirir uma mesa adequada. Para ela, o segredo para a longevidade foi reinvestir o lucro no próprio negócio e manter o respeito pela qualidade dos produtos e pelo cliente. “O dinheiro que eu vendia uma franquia não investia na minha vida pessoal... Não tinha esse ego de 'preciso comprar um carro do ano, preciso ter minha casa'. Não, eu preciso reinvestir no meu negócio”, afirma.
Em 2025, a Sodiê Doces alcançou faturamento de R$ 800 milhões, aumento de 8,1% em relação ao ano anterior. Atualmente, a rede conta com 400 unidades em operação no Brasil e duas lojas em Orlando, nos Estados Unidos.
Cleusa Maria da Silva, fundadora da Sodiê Doces
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Reinvenção
A longevidade dos negócios também está relacionada à capacidade de se reinventar. Com dez anos de marca, a estilista Isa Silva, 35 anos, é um exemplo disso. Ela compartilha como o rebranding e a mudança para modelos de lojas temporárias (pop-ups) e e-commerce mantiveram o negócio vivo. Para Silva, a sustentabilidade hoje é o combustível para a sobrevivência de qualquer empresa no país.
“Nosso e-commerce próprio vende para todo o Brasil e internacional também, onde temos um fluxo de venda para Nova York, Paris e Lisboa”, diz.
Recentemente, Silva finalizou a primeira loja temporária da marca no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador (BA), que funcionou desde o mês de janeiro de 2026. A expectativa é abertura de novas unidades nesse formato em outros estados ao longo do ano. A marca ainda conta com o ateliê e showroom localizado no Centro de São Paulo (SP).
Isa Silva apostou em rebranding em nova fase da marca
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Outro destaque desse novo momento da marca é a divisão em duas frentes para diversificação do público: a linha Acredite no Seu Axé (mais acessível, com camisetas de R$ 199,90) e o atendimento sob medida (com peças a partir de R$ 2.500).
Silva também destaca que as redes sociais são uma vitrine estratégica que contribuem para a existência de empresas no cenário atual. “Temos que estar muito abraçadas com as redes sociais porque hoje é um comércio, uma estratégia de negócio”, frisa.
Viralização nas redes
De olho no potencial das redes sociais, a empreendedora Millena Moreira, 27 anos, aproveitou o alcance das plataformas para viralizar sua confeitaria por meio da produção de conteúdo. Ela acumula posts que somam milhares de visualizações. Hoje, ela soma mais de 708 mil seguidores no Instagram e TikTok.
Contudo, ela ressalta que a atenção na estruturação do modelo de negócio é a base para alavancar outros aspectos. Moreira apostou na confeitaria em 2019, com poucos recursos dentro da própria casa. Em 2021, ela iniciou com o delivery e, dois anos depois, abriu a loja física.
“O principal fator foi entender desde cedo que confeitaria não é só fazer doce, é administrar um negócio. Eu sempre tive muito cuidado com custos e reinvesti grande parte do que eu ganhava”, diz.
Millena Moreira viralizou nas redes com produção de conteúdo sobre o negócio
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Mais do que atrair clientes para sua loja física, ela utilizou sua presença digital para diversificar a receita, lançando e-books e cursos que já alcançaram mais de 35 mil alunas. Segundo a empreendedora, as redes sociais criam uma conexão e confiança fundamentais para sustentar o negócio a longo prazo.
“O trabalho foi impulsionado pelo alcance das redes sociais... Eu sempre procurei mostrar não só o resultado final, mas também o processo, os bastidores. Isso cria conexão e ajuda a construir confiança”, relata.
Gestão cautelosa
Luciana Padovez Cualheta, pesquisadora do Centro de Empreendedorismo do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getulio Vargas (FGV), explica que as mulheres tendem a ter um nível maior de planejamento operacional e controle financeiro. A postura mais cautelosa em relação a riscos e endividamento, que antes era vista como fraqueza, hoje é entendida como uma vantagem competitiva para a perenidade, especialmente em cenários econômicos instáveis com juros altos.
“As mulheres tendem a ter um nível maior de planejamento operacional e de controle financeiro. Essa postura cautelosa e racional pode contribuir para modelos de crescimento até mais sustentáveis”, pontua.
Fontes corrobora que as empreendedoras constroem cenários onde prevalecem o diálogo, o que contribui para uma gestão mais assertiva. “Mulheres têm uma visão mais sistêmica, elas não olham para o problema e para a solução só numa linha reta. Elas olham o entorno, elas estão muito mais abertas a debater, inclusive com colaboradores, com parceiros, com fornecedores”, afirma.
Desafios
Veronica da Silva Lima, analista de negócios do Sebrae SP, observa que a dificuldade estrutural de acesso ao crédito obriga as mulheres a serem mais criativas e disciplinadas com os recursos escassos. Ela destaca a resiliência feminina como um fator estratégico e ressalta que as empreendedoras que buscam redes de apoio e capacitação constante têm muito mais chances de manter a saúde financeira e a longevidade de suas empresas.
“O empreendedorismo feminino no Brasil acaba sendo muito resiliente. Essa capacidade de se adaptar a todas as situações faz com que o negócio dela prospere. Pela dificuldade de acesso ao crédito, a mulher acaba conseguindo lidar melhor com o mínimo, com a escassez que ela tem. Isso faz com que ela tenha que ter uma maior disciplina financeira”, reitera.
Além do acesso ao crédito, Fontes aponta que outras linhas de capital também precisam ser viabilizadas para esse público. “Precisamos muito trabalhar ferramentas de acesso a capital para mulheres, não só linhas de crédito, mas também, por exemplo, as linhas que são de dinheiro a fundo perdido para inovação, mais de 95% dessas linhas são concedidas para homens e não para mulheres”, destaca.
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Veja 5 dicas práticas para a sustentabilidade do negócio:
1) Validação real: Testar produtos com clientes reais antes de investir pesado em expansão. Antes de qualquer investimento pesado, é fundamental garantir que seu negócio resolva um problema real de clientes reais. Um erro comum, apontado por Cualheta, é testar ideias apenas com amigos e familiares, que tendem a dar feedbacks positivos por afeto, mas não representam necessariamente o mercado consumidor.
2) Gestão financeira: É necessário estruturar a gestão desde o início, acompanhando o fluxo de caixa, margens de lucro e o ponto de equilíbrio. Não subestime os "custos invisíveis", como contadores, sistemas, logística e taxas de manutenção.
3) Foco na qualidade e no cliente: Em setores de alta concorrência e baixas barreiras de entrada, o diferencial é o que evita a "competição apenas por preço". O cliente deve ser visto como o bem mais importante da empresa.
4) Escala gradual: Crescer sem planejamento pode levar à diminuição do lucro devido ao aumento descontrolado de custos. A escala deve ocorrer em etapas validadas.
5) Uso estratégico da tecnologia: Utilize redes sociais e Inteligência Artificial como ferramentas para melhorar o atendimento e a produtividade, e não como um fim em si mesmas.
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