Jonathan Anderson fala sobre visão e pressão em sua primeira grande entrevista após assumir a Dior

No fim de uma tarde de sexta-feira, numa rua tranquila de Paris, Jonathan Anderson se acomoda em uma grande mesa em seu escritório. “O que temos para analisar?”, pergunta. Com um ar de concentração cirúrgica, seu diretor de design, Alberto Dalla Colletta, passa pelas decisões que precisam ser tomadas sobre a coleção de alta-costura e depois se volta para as urgências do prêt-à-porter feminino. “Esta é aquela saia que modificamos”, diz Alberto.
“A parte de trás está bacana”, responde Anderson e então acena para o próximo item. Aos 41 anos, o incansável estilista é o novo ocupante de um dos cargos mais poderosos da moda: a direção criativa da Dior. Sua nomeação, no ano passado, foi recebida com entusiasmo por toda a indústria. Ele encerrava um ciclo de 11 anos à frente da Loewe, durante os quais trouxe um novo e vigoroso fascínio ao mercado. E fez isso enquanto comandava sua própria marca sediada em Londres, a JW Anderson, fundada há 18 anos. Sua estreia na alta-costura, que aconteceu em janeiro, foi uma explosão primaveril de volumes florais que se apoiou na ampla gama técnica da expertise da Dior.
“Jonathan pode ir em qualquer direção. Não penso nos designs dele como tendo uma única aparência”, diz Jennifer Lawrence, uma das primeiras a usar criações de Anderson para a Dior no tapete vermelho. “Normalmente, você recebe três opções de croquis, que pertencem a um mesmo universo. Com Jonathan, parece que 25 estilistas diferentes me enviaram 25 opções diferentes.”
Sobre a lareira, no fundo do escritório, há uma bolsa estampada com as palavras “Ulysses by James Joyce” (parte da série de bolsas com capas de livros que Anderson criou) e sua mesa está equipada com uma máquina de escrever manual e velas em formato de frutas. Oito painéis, dispostos aleatoriamente pelo centro da sala, estão cobertos de imagens de uma campanha publicitária em andamento. Um manequim veste uma toile de algodão cru com marcações, e duas araras de roupas circundam a mesa. Anderson é o primeiro designer da casa desde o próprio Christian Dior a comandar todas as linhas de moda: feminina, masculina e alta-costura, incluindo bolsas e sapatos. Dez coleções densamente carregadas por ano em uma das casas mais importantes do mundo. As reuniões avançam em ritmo vertiginoso.
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Anderson passa a mão pelos cabelos. Seu modo de trabalho costuma lembrar um homem do lado de fora da sala de cirurgia, à espera de que um médico apareça com notícias. “Reuniões de uma hora em dez minutos com Jonathan”, diz Dalla Colletta com um sorriso, enquanto junta seus papéis para sair.
O primeiro desfile feminino de Anderson para a Dior, realizado no Jardin des Tuileries, foi por meses o mais aguardado de Paris. Durante a hora que antecedeu o início, uma multidão transbordou do parque para a Place de la Concorde. Alguns espectadores vestiam fantasias. Outros erguiam cartazes e gritavam para cada celebridade – Jennifer Lawrence, Sabrina Carpenter, Anya Taylor-Joy, Jisoo, Jimin, Robert Pattinson, Johnny Depp e muitos outros – que passava por um trajeto delimitado por seguranças, atravessando uma abertura na multidão.
Dentro de uma enorme estrutura bege, paredes cinza eram adornadas com molduras modernistas italianas, enquanto bancos de madeira robustos faziam as vezes de assentos, compondo um cenário imaginado pelo cineasta Luca Guadagnino e seu designer de produção Stefano Baisi. “Queríamos criar um espaço quase como um museu”, diz Guadagnino, que conheceu Anderson há cerca de 15 anos. Desde então, Jonathan já colaborou com o figurino de três de seus filmes.
Quando as luzes se apagaram, um curto filme do documentarista Adam Curtis foi projetado em painéis triangulares. “Você ousa entrar na Casa Dior?”, dizia o início, e a sequência que se seguiu transformou imagens dos 78 anos de história da marca em um filme de terror. Em seguida, as luzes se acenderam novamente, como se saíssemos de um sonho inquietante, e a primeira coleção feminina de Anderson entrou em cena.
Havia tecidos plissados e torcidos, tailleurs de tweed com saias encurtadas e rendas tecidas em padrões irregulares. Havia variações do famoso tailleur Bar da Dior e subversões lúdicas de modelos clássicos de vestidos. A coleção aludia a ideias decorosas de moda do meio do século, mas seus volumes estranhos, proporções comprimidas e encurtamentos súbitos conferia ao tradicionalismo um toque extremo e vagamente perverso. Os looks ecoavam o vocabulário que Anderson havia introduzido em sua primeira coleção masculina, em junho, que incluía elementos inspirados no vestuário feminino, como uma bermuda cargo de volume exagerado, quase em formato de anquinha. A possibilidade de desenhar coleções masculinas e femininas não apenas lado a lado, mas em conjunto, criando a nova entidade de um “casal Dior”, foi o cerne da proposta de Anderson para um controle tão incomumente abrangente, conta Delphine Arnault, presidente e CEO da empresa.
“É uma visão moderna: você pode ver o look em homens e mulheres com uma intercambiabilidade”, diz ela. Trata-se também de uma visão que Anderson persegue desde seus primeiros dias como designer em sua própria marca, quando, em 2013, causou burburinho ao introduzir em sua coleção masculina um shorts com babados e silhueta de minissaia.
Uma das palavras favoritas de Anderson – a primeira a que recorre para expressar um elogio – é radical. “Radical não precisa ser barulhento; às vezes, radical diz respeito apenas ao processo de tentar descobrir o que é novo. E o que é novo para a Dior é diferente do que seria novo para a Loewe”, diz.
Embora tenha sido fundada há 180 anos, fazendo dela a marca de moda com mais anos de vida no portfólio do grupo LVMH, a Loewe passou a maior parte de sua história como uma empresa espanhola de artigos de couro, construindo reputação por sua expertise artesanal em bolsas e avançando para o vestuário de forma cautelosa. Anderson trouxe não apenas energia, mas, de maneira fundamental, uma compreensão pública do que era o estilo Loewe. “A Loewe precisava de uma linguagem de moda. A Dior não precisa de uma linguagem de moda! Ela precisa de construção de bolsas. Ela precisa de um mundo.” O ato radical de Anderson reside em criar combinações frescas entre elementos distintos.
Evoluir dessa forma, mantendo o que veio antes, exige uma certa relação com o passado. Poucos desfiles de moda começam com um filme de terror. Anderson buscava transmitir, de modo lúdico, o peso assustador de assumir o comando de uma histórica casa de alta-costura parisiense, cujos diretores criativos anteriores vão do próprio Christian Dior, criador do New Look do pós-guerra, a Yves Saint Laurent, John Galliano e muitos outros. Um panteão intimidador. “Nunca estive sob tanta pressão. E ela não vinha de mim mesmo nem da marca. Vinha da sensação generalizada, hoje, de que a moda precisa ser salva. Acho isso uma utopia estranha. Pensei que o filme fosse uma forma de colocar o público na posição em que estou.”
Para Anderson, a maior parte do trabalho é impregnada de luta e obsessão. Seu pai, Willie, foi capitão da seleção irlandesa de rúgbi e Anderson o vê como uma figura de pura força de vontade. “Meu pai vem de uma fazenda leiteira e decidiu bem tarde, entre os 18 e os 20 anos, que queria ser jogador de rúgbi. Ele jogou quando o rúgbi não era profissionalizado: se você ganhasse uma partida, recebia uma libra”, conta Jonathan. Seu irmão, Thomas, também é jogador de rúgbi. “Ao ver a relação do meu irmão com meu pai e a competitividade, eu sempre pensava: ainda bem que não entrei no rúgbi!” E, ainda assim, crescendo em Magherafelt, uma pequena cidade da Irlanda do Norte, sendo rejeitado pela faculdade de moda que seria sua primeira escolha, ele assumiu um manto psíquico semelhante. “Sempre atuei na vida como um azarão e, se não estou com essa sensação, construo um ambiente ao meu redor para sentir que preciso provar algo”, diz Anderson (que brincou comigo dizendo que não faz terapia porque resolve suas questões conversando com jornalistas). A direção criativa da Dior não é um cargo que muitos considerariam uma posição de azarão, mas Anderson sente que compete, em desvantagem, com aqueles que vieram antes. “Tantos designers amados fizeram isso, e as pessoas sempre vão amar o designer do seu período. Alguém como John Galliano foi um gênio no que conquistou na Dior: ele quebrou a espinha dorsal. Mas era um momento muito diferente.”
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Um dos primeiros trabalhos de Anderson na moda foi como assistente de vitrinismo na loja da Prada na Bond Street, em Londres, sob a supervisão da lendária stylist Manuela Pavesi, que foi braço direito de Miuccia Prada. “Eu estava completamente hipnotizado por ela – como personagem e pela forma como usava a psicologia no processo de vender um produto em uma vitrine”, conta. “Lembro de quando a Prada estava fazendo robôs: havia uma vitrine com um manequim simples e uma bolsa. Eu pensei: ‘Isso é interessante!’. Ela disse: ‘Não gosto!’. E, de repente, estava jogando diversos produtos na vitrine: bolsas, 50 robôs.” O ecletismo, de algum modo, se coagulava em um todo interessante. “Ela sempre criava uma contradição meticulosa nas roupas – pijamas com um casaco de crocodilo. Eu tinha medo dela, mas era completamente obcecado: como se chega a esse tipo de pensamento?”
Quando Anderson passou a ter sucesso por conta própria, ele foi reconhecido por um ecletismo semelhante – e também por sua capacidade de articular uma visão que tornava o valor de seu trabalho evidente para empresários, celebridades e outros agentes que moldam o mercado. “Ele é muito bom em apresentar suas ideias”, diz Delphine Arnault. “Não importa quão grande, quão famoso ou quão rico alguém seja, sempre existe uma maneira emocional de enxergar as coisas do lado dessa pessoa – foi isso que aprendi com meus pais”, diz o estilista, que conta ainda recorrer a eles para pedir conselhos “sobre como lidar com pessoas”.
Anderson é conhecido por ter perseguido oportunidades, mais ainda do que por ter sido perseguido por elas. Aos 20 anos, enquanto trabalhava para a Prada, conseguiu ser fotografado para a revista i-D como criador de broches feitos a partir de objetos garimpados. Em 2013, enquanto o LVMH comprava uma participação na JW Anderson, perguntaram a Jonathan se ele possuía alguma sugestão de quem poderia assumir a direção criativa da Loewe, já que a marca precisava de um nome com urgência. Anderson sugeriu a si mesmo. Nos primeiros anos da década de 2020, ele já se posicionava para uma nova atribuição. “Ele começou a conversar comigo sobre o futuro e novos projetos que poderíamos lhe dar dentro do grupo”, recorda Delphine. Quando Maria Grazia Chiuri, a diretora criativa anterior, deixou a Dior, Anderson propôs assumir simultaneamente o masculino, o feminino e a alta-costura.
Àquela altura, o trabalho do estilista na Loewe havia se tornado um fenômeno. Durante seus primeiros sete anos na marca, ele se concentrou no artesanato – uma interpretação moderna, elegante e baseada em volumes do savoir-faire de uma casa histórica. Depois, durante a pandemia, migrou para um conceitualismo mais selvagem, mais lúdico e mais abertamente eclético. Foi a era de couraças reluzentes e tecidos digitalmente pixelados, de casacos dos quais brotava grama viva, de escarpins da Minnie Mouse e de saltos em forma de balão.
“O que ele fez na Loewe foi revolucionário. Não foi apenas uma reformulação de marca. Culturalmente, foi um abalo”, relembra Jennifer Lawrence. “Ele era um artista extremamente poderoso, absorvendo a cultura de uma maneira muito específica e cheia de nuances.”
Anderson estuda e coleciona uma ampla gama de arte, dos mestres flamengos à britânica Anthea Hamilton. Em Londres, integra o conselho do Victoria and Albert Museum. Durante um período, interessou-se por arquitetura e mantém uma paixão da vida toda por cerâmica. O estilo que começou a cultivar em suas coleções após a pandemia – mais depurado – parecia lhe oferecer uma nova maneira de referenciar esses interesses de forma direta.
“Esse tipo de incorporação entre arte e moda é fundamental para Jonathan”, diz o ator Josh O’Connor, que começou a trabalhar com a Loewe como embaixador da marca em 2017. “E acho que criar esses desfiles extraordinários e depois ver as pessoas celebrando o trabalho dele lhe deu cada vez mais confiança.” As fascinações de Anderson mostraram-se contagiosas: O’Connor, que tinha uma avó ceramista, passou a compartilhar algumas delas. “Lembro de ir à casa de Jonathan para jantar em uma noite e ver aquele conjunto incrível – a coleção de cerâmica dele é mágica. Ele tinha peças da Sara Flynn, uma ceramista irlandesa que admiro muito. Tinha Lucie Rie. Tinha uma grande coleção de Ian Godfrey.”
Anderson atribui o nascimento dessa paixão ao avô materno, que trabalhava em uma empresa têxtil, a Samuel Lamont & Sons, no condado de Antrim, na Irlanda do Norte. Muitas das amizades e relações de Anderson hoje têm a arte como eixo central. Ultimamente, ele tem se relacionado com o artista catalão Pol Anglada, com quem colaborou na JW Anderson. “Na vida privada de qualquer pessoa, quando você faz um trabalho como este, é difícil”, me diz. “Eu vi isso com meus pais quando meu pai estava trabalhando para a Copa do Mundo. Quando você vai embora e volta, precisa se redescobrir. À medida que envelhece, aprende que precisa reservar tempo se quiser proteger isso. Porque é muito fácil deixar escapar – é preciso criar um mecanismo.”
Fora isso, atualmente, seus interesses costumam seguir o arco da urgência profissional. “No momento, há um lookbook por semana. Há uma campanha por semana. Você passa a maior parte do dia minerando ideias”, diz. Então, como se achasse que essa descrição não capturava o fascínio envolvido, acrescenta: “Mas também é uma obsessão. Um artista, uma pessoa ou uma peça vintage podem inspirar uma coleção inteira”.
Em uma manhã de dezembro, combino de encontrar Anderson no Musée d’Orsay, onde ele faria uma visita a uma grande exposição dedicada à obra da pintora britânica Bridget Riley, cuja tela Daphne, de 1988, ele possui. Anderson chega atrasado: ele diz que nunca olha sua agenda diária com antecedência, nem planeja a próxima sequência de reuniões, com receio de começar a duvidar se elas valem a pena. Ele parece cansado. “Temos mais uma prova de alta-costura, mais uma de masculino e mais uma de feminino. E o lançamento do cruise e, em seguida, já disponibilizamos para o mercado as coleções pre-fall e Riviera. Esta estação é sempre a mais difícil, porque é muito curta.” Ele dá um sorriso tenso – “mas ainda positivo!”
Anderson me diz que admira a forma como Riley depura seu trabalho até a essência. “É como ter a confiança de ir até o fim”, diz. “Na grande pintura indiana, você encontra isso. Até em um Rembrandt – eles sabem quando parar. Isso convida a mente a pensar mais sobre por que você está diante da obra.”
O curador da exposição, Nicolas Gausserand, que vinha nos acompanhando, chama a atenção para a cor da parede: branca. Riley, hoje na casa dos 90 anos, insistiu, contra a doutrina museológica, que Seurat seria valorizado com a exibição em paredes brancas. “Isso torna os brancos mais brancos”, diz Anderson, assentindo. “É tão radical.”
Entramos no restaurante Le Voltaire para almoçar – não era o plano original, mas estamos atrasados, então o roteiro foi, como costuma acontecer com Anderson, reconfigurado no improviso. Anderson mantém um pé em Londres, onde a JW Anderson está em processo de expansão para mobiliário, arte e objetos colecionáveis. Ele diz que, às vezes, sente um choque cultural ao se deslocar entre Londres e Paris. “São cidades muito diferentes na maneira como se come ou se sai.” Me conta ainda que, neste momento, enxerga seu projeto cultural como “tentar entender qual é o propósito” de uma marca de luxo em uma era digital.
“O que me atraiu na moda foi desenhar algo para o futuro: você cria, mostra, e isso chega à loja seis meses depois. Isso significa que você dá tempo ao consumidor para digerir. Agora estamos nesse período em que desenhamos roupas para gerar estímulo imediato. Quando chegam à loja, já perderam o gás – é um pico de açúcar.” O problema, segundo ele, é que se torna quase impossível sustentar um padrão de qualidade nesse ambiente. “Isso afeta a compreensão. Estamos acostumados a consumir milhões de imagens por dia, mas, quando se trata de leitura, consumimos menos. Respondemos com um emoji. Gravamos áudios, porque é ‘mais eficiente’. Quando eu era mais jovem, eu teria achado que esse seria o cenário dos sonhos.” (Anderson é disléxico.) “Mas fazer roupas é traduzir um pensamento através das mãos, assim como escrever. São ações incomuns.” É justamente esse esforço intencional que, por anos, permitiu à moda ir além do presente acelerado e se antecipar para moldar o futuro, pensa Anderson. O mundo precisa de tempo para conviver com ideias novas até que elas se fixem.
"Minha fraqueza é que posso ficar emocionalmente esgotado pelas coisas mais banais. Pode ser uma modelo que não está disponível, ou uma reunião que simplesmente não funciona. Isso me empurra para a raiva – raiva de mim mesmo, no fim das contas”, diz. “Mas o que mais me irrita hoje é que não temos paciência. Eu não tenho paciência, então faço parte do problema. A gente consome, cancela e segue em frente. Acho que isso é destrutivo para a criatividade. Acho que existe uma falta de grandes filmes e de grandes músicas porque as pessoas têm medo de ser radicais.”
A alta-costura – um território novo para Anderson – o fascina como uma forma de reconstruir uma cultura de ousadia e apreciação. Ele sonha em aproximar a nova alta-costura da Dior do público em geral – expondo-a como em um museu. A ideia é que pessoas que não podem comprar um vestido de alta-costura ainda assim possam aprender a apreciar o trabalho de perto. “Trata-se de fazer as pessoas amarem a moda”, diz. “A alta-costura talvez não seja aquilo que todo mundo compra, mas é o tronco da árvore que sustenta tudo – o legado, a mão, o conhecimento.”
Para Anderson, a alta-costura é também “o mais pessoal” de seus projetos na Dior, porque é onde ele ainda está aprendendo. Sua coleção de estreia no segmento foi inspirada por John Galliano, a primeira pessoa de fora da marca a quem ele mostrou sua coleção feminina – “porque, quando eu era mais jovem, ele era como Deus”, diz. “John chegou com uma sacola de comida do Tesco e dois ramalhetes impecáveis de ciclames silvestres. Eu amo ciclames.” As flores, vindas do próprio jardim de Galliano, tocaram Anderson profundamente. Em homenagem a Galliano – e em um gesto de rara elegância em direção a um precursor vivo –, o ciclame tornou-se uma referência para a coleção, inspirando do bordado à cenografia. Ele decidiu que o desfile se abriria com duas versões (uma em preto e outra em branco) do mesmo vestido abaulado que havia aberto seu desfile de estreia no prêt-à-porter feminino.
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“Eu amo a técnica, então pensei: ok – como fazemos isso de um jeito prêt-à-porter e como mostramos isso de um jeito alta-costura?”, ele diz. “Eu coleciono porcelana de Chelsea [primeira fábrica de porcelana a ganhar proeminência na Inglaterra, fundada por volta de 1743], e quando você vê peças do primeiro ou do segundo período de Chelsea, elas parecem iguais, mas são fabricadas de uma maneira completamente diferente.” O desfile se impôs como um testemunho simultâneo da beleza da precisão artesanal, e tanto Anderson como Galliano, que estava lá para a ocasião, se emocionaram.
Desde que Anderson assumiu o cargo na Dior, grande parte de sua vida tem sido passada em trânsito. Entre novembro e dezembro, além de seus deslocamentos habituais pela Europa, ele viajou para Nova York, Doha e Pequim, enquanto desenvolvia ativamente seis coleções diferentes. Em uma manhã clara e fresca em Los Angeles, ele desce apressado até o lobby do Chateau Marmont para iniciar uma sequência de reuniões que culminará na celebração de uma nova butique em Beverly Hills. “Sempre adorei vir a Los Angeles – eu nunca moraria aqui, mas adoro estar aqui”, diz. Duas mulheres jovens do outro lado do salão o fotografam discretamente – um lembrete de que, na capital das celebridades, Anderson tornou-se ele próprio uma delas.
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Em sua primeira viagem a Los Angeles, conta Anderson, ele entrou em um táxi e pediu ao motorista que o levasse ao número 10.086 da Sunset Boulevard – o endereço de Norma Desmond [antagonista do filme Sunset Boulevard, de 1950, vivida por Gloria Swanson]. “É tipo uma garagem ou algo assim. Mas não há nada melhor do que um personagem hollywoodiano de tempos passados.” Ele lamenta, em parte, a acessibilidade sem mediação das celebridades de hoje, que, segundo ele, corroeu o poder iconográfico que elas costumavam ter.
“Houve um momento em que a Dior criava o visual para a atriz a pedido do estúdio, controlando a silhueta, a ideia, a personalidade. Acho que precisamos desse romantismo que o cinema nos ensinou sobre o que a moda é.” Ele desvia o olhar pensativo em direção a um candelabro perto do bar. “Não me incomodo que a Dior, no futuro, se torne um pouco camp, um pouco performática – acho que John abriu essa porta. E o próprio Dior construiu a porta.”
A nova butique da marca, no quarteirão mais nobre da Rodeo Drive, tem quatro andares e representa um tipo de esforço para restaurar uma coerência de imagem. “É um novo capítulo para a Dior”, diz Delphine Arnault. Projetada pelo arquiteto Peter Marino, a loja inclui um terraço na cobertura, salões privados para clientes VIPs e um restaurante com menus de Dominique Crenn, a primeira chef mulher nos Estados Unidos a conquistar três estrelas Michelin. Desde o último verão, butiques semelhantes foram abertas ou estão prestes a abrir em Pequim, Milão, Nova York e Osaka, todas modeladas a partir da enorme loja da Dior na Avenue Montaigne, em Paris. “São declarações muito grandes e investimentos muito grandes para nós”, diz Delphine. Mesmo em uma era digital, o varejo físico continua sendo o motor de vendas da Dior.
Anderson chega ao terraço e ao lounge do último andar da butique de Beverly Hills às 19:25. A lista de convidados é, para um jantar de moda, excêntrica e interessante. “Era o tipo de reunião de indivíduos que realmente dialogam com Jonathan e com sua mente”, diz Greta Lee, que compareceu usando uma blusa Dior cinza simples e elegante, combinada com jeans. “É inesperado, muitas vezes, esse conjunto de ideias e escolhas que ele faz, e a amplitude do que lhe interessa é genuinamente fascinante.” Jennifer Lawrence chega com o marido, e Charlize Theron, embaixadora de longa data da Dior, é a última a aparecer. Mas também estão presentes Gia Coppola, Maude Apatow e Ejae, voz do filme KPop Demon Hunters. Lauren Sánchez Bezos tira selfies e distribui abraços. Mike White, criador de The White Lotus, está lá, aparentemente surpreso consigo mesmo, vestido pela Dior com um suéter, circulando com uma atenção fascinada, como se estivesse tomando notas mentais. Muitos dos embaixadores-celebridade que Anderson levou para a Dior, como Greta, são colaboradores de longa data e introduzem uma energia mais excêntrica e espirituosa em uma casa francesa tradicional.
Depois de cumprimentar Delphine Arnault, que também voou para a ocasião, Anderson corre até Greta e a envolve em um abraço. (“Para mim, ela não é uma musa, é uma amiga. Não se trata apenas de vestir roupas. Você consegue tomar um drinque e fazer uma refeição de três pratos com essa pessoa?”). No pátio, pequenos recipientes são abastecidos com cigarros Marlboro. (Quando alguém comentou com Delphine que isso não era muito Los Angeles, conta-se que ela brincou dizendo que era muito Los Angeles – nos anos 1980.) Pouco depois das 20h, os convidados se sentam, e o jantar segue, adquirindo gradualmente um certo clima de euforia feliz. Por volta das 21:15, Anderson lidera um grupo de celebridades até o terraço para fumar. Meia hora depois, ele manda circular doses de tequila.
Em Paris, turistas se aglomeram diante das luzes cintilantes da loja principal da Dior, tirando fotografias. A meia quadra dali – diretamente em frente à loja da Loewe –, fica o Dior Heritage, o arquivo meticulosamente preservado da casa, que reúne roupas, acessórios, perfumes, anotações de trabalho, esboços, moldes, correspondências e recortes de imprensa desde a fundação da marca, tudo organizado em caixas impecáveis no cinza característico da Dior. O arquivo vem conduzindo há anos um processo contínuo de rastreamento e aquisição dos primeiros vestidos de alta-costura da maison. Perrine Scherrer, diretora do arquivo, me mostra um tesouro: um vestido Junon intacto, frequentemente considerado a maior obra-prima de Christian Dior.
Quando Anderson chegou à marca, fez um estudo amplo desse arquivo. “Propus um exercício com a equipe em que pedi que trouxessem seis looks de cada designer que já passou pela casa”, diz. (Sua peça favorita de Christian Dior é o Cigale, em tom marfim, de 1952: “É tão aerodinâmico – a construção é impressionante”.) No dia seguinte, ele visita uma nova exposição na Galerie Dior, o museu público da casa dedicado à sua própria história, com 13 salas, localizado a meia quadra da loja principal. Inaugurado em 2022, sob um dos ateliês de alta-costura da Dior, o espaço recebe hoje cerca de 1.500 visitantes por dia – meio milhão por ano – com ingressos esgotados com um mês de antecedência. A exposição atual é composta por peças da coleção de Azzedine Alaïa, que, por razões obscuras, ocultou em vida a extensão de sua coleção Dior. Essas roupas nunca haviam sido exibidas. “A Fundação Alaïa possui 600 peças, e selecionamos cem para apresentar”, diz Olivier Flaviano, diretor da galeria.
Christian Dior apresentou sua primeira coleção em 1947 e morreu dez anos depois, quando sua casa já empregava centenas de pessoas e operava em cinco continentes. Yves Saint Laurent o sucedeu aos 21 anos. “Hoje, se um jovem de 21 anos estivesse à frente de uma casa dessa escala, as pessoas ficariam horrorizadas”, diz Anderson. “Sabe o que quero dizer? Se não olhamos para o passado, esquecemos o quão radical isso foi.”
Flaviano nos conduz pela exposição, onde se encontram exemplos das linhas iniciais mais bem-sucedidas da Dior, uma recriação minuciosa da sala de provas original da maison, uma parede de capas de revistas, e uma fotografia da cartomante de Christian Dior, além dos amuletos que ele carregava. “Monsieur Dior era extremamente supersticioso”, diz Flaviano. “Bom, isso é uma coisa que temos em comum”, comenta Anderson.
No estúdio, na noite seguinte, Anderson se senta diante de seus painéis, que mostram a campanha publicitária que está por vir. “Nós a dividimos em diferentes tipos de personagens. Para mim, o mais importante é que a Dior possa alcançar e ser representada por homens diferentes, mulheres diferentes, pessoas diferentes – a marca é grande o suficiente para não ter apenas um único tipo”, diz Anderson. Ele nunca pensa na campanha enquanto desenha, mas ela é uma parte essencial de como ele entende o trabalho e como ele pode existir no mundo. Ao planejar sua primeira campanha, fotografada por David Sims, ele considerou o que um “aristocrata” – o público original da alta moda – poderia ser em uma era pós-aristocrática.
“Estou realmente feliz”, diz Anderson, com uma abertura incomum, observando os painéis. Ele aponta para uma série de fotografias das modelos Laura Kaiser, Saar Mansvelt Beck e Sunday Rose apertadas juntas em um sofá. “Eu simplesmente adoro isso”, diz. “Há uma espécie de felicidade aí. Quando você vai a uma festa, sempre existe aquela pessoa que está genuinamente se divertindo, aquela que está tentando se divertir e aquela que está seduzindo – é uma boa representação do que tudo isso pode ser.” Ele se volta para um painel centrado em Kylian Mbappé, o jogador de futebol, vestido com jeans, um suéter cinza e gravata com nó Eldredge. “Aqui você tem essa ideia de liderança – você tira o jogador de futebol do contexto, transporta ele. E depois você tem alguém como a Greta [Lee] – e tem esses dois pilares de como uma mulher pode ser, nesta ou naquela faixa etária, e ainda assim ter a mesma energia.”
Ele cruza os braços. “Vinte pessoas vão ter outras opiniões, mas vou ficar com a minha”, conclui, permitindo-se um sorriso de alívio. “Eu estava muito consumido pela ideia da expectativa e se as pessoas iriam gostar. Mas quando vejo tudo isso, fico muito orgulhoso das equipes. Acho que foi a direção certa. É o nascimento de uma linguagem totalmente nova? Ainda não. Mas é um passo adiante em relação a onde eu estava no meu trabalho anterior.” Ele me olha com uma satisfação contida. “Está começando a andar”, diz.





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