Cadeirante desde os 17 anos, empreendedor cria negócio de certificação de acessibilidade para empresas

O que começou como uma ferramenta gratuita para auxiliar pessoas com deficiência e mobilidade reduzida a planejarem seus deslocamentos ganhou nova escala e se consolidou como uma empresa de consultoria e certificação corporativa. Fundado em 2016 pelo empreendedor Bruno Mahfuz, o Guiaderodas nasceu como um aplicativo colaborativo para avaliar a acessibilidade de estabelecimentos em São Paulo (SP).
Com o aumento da demanda do setor privado por adequação estrutural e cultural, a empresa expandiu sua atuação para serviços de diagnóstico, treinamento e emissão de certificados para negócios que buscam ir além do cumprimento das exigências legais, mantendo hoje uma equipe de nove pessoas dedicadas ao processo de certificação.
A trajetória da empresa está ligada à experiência pessoal de seu fundador. Em 2001, aos 17 anos, Mahfuz sofreu um acidente automobilístico e passou a usar cadeira de rodas. Ao vivenciar na prática as barreiras arquitetônicas e de atendimento no dia a dia, idealizou uma plataforma baseada em crowdsourcing para que os próprios usuários pudessem registrar e consultar se determinado restaurante, hotel ou espaço público oferecia condições adequadas de circulação antes de saírem de casa.
Pouco tempo após o lançamento em 2016, a repercussão da iniciativa chamou a atenção de construtoras e grandes empresas, que procuraram o negócio para entender como aplicar o conceito em seus próprios empreendimentos. "As empresas construtoras começaram a nos procurar para entender qual era a nossa visão do tema acessibilidade", relembra Mahfuz.
A partir dessa demanda espontânea, o empreendedor identificou um nicho de mercado não atendido e estruturou o serviço de certificação corporativa, que passou a ser o pilar financeiro da operação. "A ideia de fazer uma certificação veio das próprias empresas, que já entendem que a acessibilidade pode representar um diferencial estratégico para os negócios. Uma coisa é cumprir norma e atender legislação. Outra é ir além, treinar pessoas e submeter o lugar a testes reais", afirma Mahfuz.
Metodologia e experiência prática
O processo de certificação desenvolvido pelo Guiaderodas apoia-se em três pilares fundamentais: conforto, segurança e autonomia. "Entendendo a acessibilidade dessa forma, a gente muda a percepção que muita gente tem de que a acessibilidade é uma coisa para a pessoa com deficiência. Ela é também, mas ajuda todo mundo", explica Mahfuz, citando que guias rebaixadas ou corredores amplos beneficiam igualmente pessoas com carrinhos de bebê, idosos ou pessoas com malas.
Para realizar a avaliação das empresas e edificações, a empresa mobiliza equipes multidisciplinares formadas por engenheiros, arquitetos e pessoas com deficiência. A arquiteta Cristiane, que integra a equipe técnica desde o início do projeto, detalha a abordagem adotada em ambientes já construídos: "A gente faz uma leitura técnica e uma leitura sensível, ou seja, uma leitura da experiência. Vai uma pessoa com deficiência e um arquiteto para vivenciar o espaço, desde a hora em que você ingressa até a hora em que você sai".
Após a vistoria, o Guiaderodas entrega ao cliente um laudo técnico contendo as recomendações de adequação. A execução das obras e reformas fica sob responsabilidade do cliente, enquanto a equipe de Mahfuz oferece capacitação aos colaboradores e acompanhamento durante o processo. Ao comprovar as adequações e assumir um compromisso de aprimoramento contínuo, o estabelecimento recebe o selo de certificação, que é reavaliado periodicamente para assegurar a manutenção dos padrões.
Enquanto a certificação corporativa sustenta a receita da empresa, a frente gratuita de utilidade pública evoluiu no formato tecnológico. O aplicativo colaborativo original foi substituído pelo Gui, uma inteligência artificial integrada ao WhatsApp que reúne dados de acessibilidade globais. A ferramenta permite interações por texto ou voz em qualquer idioma, respondendo a dúvidas sobre restaurantes, hotéis e teatros em tempo real.
Atualmente, o Guiaderodas investe em tecnologia e atua no processo de internacionalização de sua certificação para levar a metodologia a outros países. Para Mahfuz, o crescimento da empresa reflete um movimento em prol da inclusão total, embora reconheça o caminho a ser percorrido. "Eu adoraria viver num mundo em que uma empresa como a nossa não fosse necessária. É óbvio que vai demorar bastante tempo para isso acontecer, mas seria um desejo muito interessante de ver concretizado", conclui Mahfuz.
Veja a seguir a reportagem completa, que foi ao ar no programa Pequenas Empresas & Grandes Negócios, da TV Globo:
Como um guia de acessibilidade deu origem a um negócio de impacto
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