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Belo Horizonte,04/04/2026

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Depressão funcional: quando o adoecimento não interrompe a rotina

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Depressão funcional: quando o adoecimento não interrompe a rotina
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Na mitologia grega, Sísifo foi condenado a empurrar uma pedra montanha acima todos os dias. Na vida cotidiana, viver com a depressão funcional pode se aproximar dessa imagem. Os compromissos são cumpridos, a agenda continua cheia, o trabalho é entregue e a vida social permanece ativa. Por fora, tudo funciona. Mas, por dentro, há a sensação de falta de sentido.


Cada tarefa, ainda que simples, pode exigir um esforço desproporcional. A rotina segue, mas o cansaço constante e o vazio tornam difícil encontrar sentido no que antes parecia ser mais fácil ou até prazeroso. Diante deste cenário, em que a saúde mental é frequentemente associada à produtividade, como perceber que precisamos de ajuda?


Na depressão do tipo “comum”, os sintomas se manifestam de forma mais visível. A dificuldade em sair da cama, o isolamento social, a queda no rendimento funcionam como um sinal de alerta para nós mesmos e quem convive conosco. Em contrapartida, nos quadros de depressão de alto funcionamento, o adoecimento não apresenta indícios tão claros.


De acordo com a psicóloga e especialista em TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental) Karoline Gregol, as relações sociais e de trabalho continuam ativas nesses quadros. No entanto, possuem uma carga emocional desproporcional e muito maior do que o considerado saudável.


“Em muitos casos, as pessoas que desenvolvem esse transtorno possuem histórias de invalidação emocional ao longo da vida, especialmente na infância, à convivência em ambientes muito exigentes e também a uma predisposição genética”, afirma.


Aos poucos, a produtividade vira um escudo. Se manter cumprindo as tarefas e sustentando uma imagem de competência passam a ser uma estratégia para não entrar em contato com o próprio sofrimento. Segundo Karoline, isso mantém o funcionamento externo, mas não impede o desgaste interno, que tende a piorar.


É nesse terreno silencioso, que os sintomas começam a aparecer, tais como:



  • Sensação persistente de vazio ou apatia;

  • Impressão constante de estar no limite;

  • Dificuldade de sentir felicidade, inclusive diante de conquistas importantes que, em outro momento, trariam entusiasmo;

  • Irritabilidade frequente;

  • Autocrítica intensa;

  • Cobrança interna permanente para dar conta de tudo, e descansar deixa de ser pausa necessária e passa a ser motivo de culpa;

  • Para homens, os sinais muitas vezes se manifestam por meio do uso de substâncias, acompanhado da dificuldade persistente em admitir tristeza ou vulnerabilidade;


  • Em mulheres, é comum que os sintomas sejam internalizados, aparecendo como culpa recorrente, sensação de insuficiência e um ciclo de pensamentos repetitivos, negativos e intrusivos que parecem não ter fim.


É necessário ter calma, pois sentir alguns desses sintomas não significa um diagnóstico. Em muitos momentos da vida eles podem surgir de forma pontual, como resposta a um momento turbulento. Para que seja considerado um quadro clínico, é preciso que um conjunto específico de sintomas aconteça ao mesmo tempo e que o contexto seja avaliado com cuidado por um profissional.


Escrever ajuda a perceber quando pedir ajuda


A escrita pode ser uma aliada para identificar padrões, intensidade e frequência dos sintomas. No papel, o que parecia confuso começa a ganhar forma. E isso pode ajudar a entender quando é hora de procurar um especialista.


Diário das emoções: em um caderno, anote diferentes emoções, como raiva, felicidade, estresse, tristeza e apatia. Ao longo de um período, registre a intensidade de cada uma, em uma escala de 0 a 10. Se os sentimentos negativos permanecerem elevados por muito tempo, sem causa aparente, pode ser um sinal de que é hora de buscar ajuda.


Escrita terapêutica: colocar no papel o que se sente ajuda a organizar os pensamentos. O que antes parecia confuso começa, aos poucos, a ganhar forma. Se preferir, vale apenas listar tudo o que vier à mente. O objetivo é perceber a frequência com que certos pensamentos retornam e o espaço que ocupam no dia a dia.


Se tudo parece estar em ordem por fora, mas algo continua pesado por dentro, talvez seja hora de olhar com mais atenção para esse vazio.



Nem todo sofrimento interrompe a rotina, alguns apenas seguem escondidos, enquanto se manter ocupado evita o contato com o que dói. No fim, o primeiro passo pode ser reconhecer o próprio limite, e se permitir também ser frágil.



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