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Belo Horizonte,03/04/2026

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Valorize quem você é

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Valorize quem você é
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Quantas vezes você já se viu construindo uma vitrine impecável para atrair validação e o amor dos outros enquanto esconde suas fragilidades em um estoque nos fundos da loja, oculto até de si mesmo? Aqui, podemos admitir: é exaustivo, não é? Rejeitar nossa natureza e esconder nossa verdade não só nos consome, como nos afasta de nós mesmos. Mas, felizmente, um dia nos damos conta de que essa fachada polida custa caro demais.


 A autoaceitação começa justamente quando essa vitrine beira o insustentável.

“Ela é o primeiro passo para uma mudança na relação com a gente, com a nossa vida interior, e não para ganhar mais likes”, reflete Regina Gianetti, jornalista e instrutora de mindfulness pelo Centro Mente Aberta da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Quando a gente aceita uma fraqueza, uma característica nossa com a qual a gente sempre lutou, isso nos torna pessoas mais inteiras, mais verdadeiras com a gente mesma”, arremata a apresentadora do podcast “Autoconsciente”.

“Enquanto uma pessoa está em guerra consigo – tentando ser outra, negando sua história, rejeitando partes de si – toda tentativa de mudança vira esforço, culpa e auto agressão. Não há solo fértil aí”, destaca a terapeuta holística Jacqueline Pereira,

idealizadora do projeto “Gente de Verdade “e autora do recém-lançado “A coragem de ser gente de verdade: Um caminho para uma vida sem máscaras” (Cultrix/Vida Simples).


Tente mensurar a quantidade de energia que desperdiçamos ao lutarmos contra quem somos. Na prática da autoaceitação, esse manancial precioso passar a ser direcionado para se viver melhor, escolher com mais consciência e agir com mais autenticidade, observa Jacqueline. 


Regina concorda que aceitar-se é assumir a verdade a nosso respeito e nos pacificar com ela. Quando paramos de lutar contra nossas características, o desgaste diminui e nosso interior deixa de ser “pesado, amargo e tóxico”. “Conforme a gente vai aceitando uma coisa aqui e outra ali, e a aceitação vai se expandindo para diversos traços da gente, todo esse conflito vai minguando”, descreve.

“Isso torna o nosso ambiente interno mais saudável e alegre. E a gente passa a ver a vida de uma forma mais leve e positiva, mais aberta.” 

A aceitação, é bom lembrar, é filha da autocompaixão. Ou, como diz Jacqueline, a atitude de se olhar, se compreender e “trocar o chicote pela lucidez”. “Em vez de: ‘Eu sou fraca, errada, sempre estrago tudo’, passa a ser: ‘Percebo que, nessa situação, eu reagi por medo. O que posso fazer diferente da próxima vez?’. Menos ataque, mais consciência e gentileza”.

A aceitação, pontua a terapeuta, não elimina o erro, mas evita o colapso, ou seja, a pessoa falha, reconhece, ajusta e segue, sem se punir por dias, semanas ou anos. “O erro vira dado, não identidade”. 

Garimpando tesouros


Lembra do estoque nos fundos da loja? Pois a desconstrução de crenças cristalizadas, que nos afastam de quem realmente somos, pode ser comparada com um “garimpo” nesse quarto escuro, segundo a astróloga Claudia Lisboa.

“É preciso tirar pedra sobre pedra do que está atrapalhando e ocultando aquilo que há de mais rico em nós”, ela propõe.
 


Claudia coloca a autoaceitação como o “chão, régua e compasso” para qualquer caminho de autocuidado. Isso porque, ao aceitarmos quem somos, passamos a trabalhar com o que está “disponível” e não com o que imaginamos que deveríamos ser. Apenas aterrados em nossa realidade, sabemos quais instrumentos internos estão à disposição para investirmos no que nos preenche com sentido e propósito. 


Vale ter em mente que a grande frustração humana nasce do abismo entre a nossa individualidade única e as solicitações padronizadas do mundo externo. Sabendo disso, podemos redirecionar o foco da atenção para a nossa alma.

“No momento que você deixa de olhar para fora e começa a olhar para si, entendendo o que há de potente e de importante no que somos, isso deixa de ser uma barreira. Muito pelo contrário, passa a ser uma baita ferramenta para uma transformação pessoal”, ensina Cláudia.

Na visão de Jacqueline, a aceitação rompe o pacto silencioso com o ideal e devolve a pessoa para a vida real, que é exatamente onde a potência de cada um mora.

“Ela é um primeiro passo para a alquimia interior, porque é ali que cessam as resistências e começa o verdadeiro movimento interno. Sem aceitação, a mudança é violenta. Com aceitação, ela é orgânica, sustentável e profundamente humana”.

O caminho da autoidealização para a autoaceitação, geralmente, segue quatro etapas, segundo a historiadora Jaciana Melquiades, podcaster de “Eu preciso falar de amor”: a primeira é a negação, na qual fingimos que a questão não existe; em seguida, está a resistência, quando admitimos sua existência, mas buscamos justificativas externas ou culpados; o luto vem depois como um momento doloroso em que nos damos conta de nossa imperfeição e finitude; e, finalmente, a integração consigo mesmo.


“A aceitação é um primeiro passo para a alquimia interior, porque é ali que cessam as resistências e começa o verdadeiro movimento interno. Com ela, a mudança é orgânica, sustentável e humana”

 “Quando a gente aceita quem a gente é hoje, com tudo, com luz, com sombra, com medo, a gente para de gastar energia mascarando a realidade.”

Apenas quando nos encaramos no agora é que podemos finalmente nos mover na construção de quem queremos nos tornar. “O amor-próprio vem desse lugar onde você se olha inteira e está em paz.”


Aceitar a nossa finitude e os nossos contornos nos ajuda a reconhecer os próprios limites, respeitá-los e comunicá-los. Isso é importante para resguardar a nossa energia ao invés de consumi-la na inglória tentativa de corresponder a idealizações para provar nosso valor.

“Você pode decepcionar alguém. Entretanto, se beneficia do tempo e da liberdade que ganha”, resume Jaciana, para quem é importante seguir a vida com a leveza de não ter que dar conta da responsabilidade alheia e se permitir ser vulnerável.


 


Quando abraçamos nossa natureza, do jeito que ela é, ativamos potenciais antes adormecidos


O que não serve se vai


O que a família e a sociedade nos transmitem desde o berço serve para nos dar forma, nos colocar em pé. Citando o psicanalista francês Jacques Lacan, a psicanalista e psicóloga Adriele Sussuarana lembra que “o Eu é o Outro”, ou seja, nossa identidade é construída a partir de expectativas alheias. Mas com o tempo, precisamos separar o joio do trigo, deixando cair os valores que não servem ao que reconhecemos como parte de nós. “Não tem como uma pessoa ficar aprisionada a uma imagem, a um papel, a uma identificação que foi projetada e imposta para ela”, diz Adriele. Uma hora a necessidade de libertação fala mais alto.

“Quando consegue deixar isso cair, por mais doloroso que seja, é extremamente libertador, porque permite que ela possa ser o que quiser.”

Nossa era é dominada por um modelo de “empreendedor de si mesmo”, em que somos cobrados a performar uma perfeição inexistente, critica Adriele. Para ela, aceitar as próprias contradições é algo contínuo que vai na contramão das tentativas ilusórias de controlar uma noção fixa sobre si mesmo.


É preciso uma dose de desprendimento, leveza e humor. Afinal, por que levar tudo tão a sério se ainda tomaremos formas tão distintas? “O processo de análise coincide com a aceitação de que sempre vai existir algo de desconhecido e incontrolável naquilo que denominamos nós mesmos, e isso tem uma relação muito próxima com se surpreender e se encantar com as coisas ao nosso redor”, sublinha a psicanalista.


Relações mais autênticas


Aceitar-se nos permite compreender também a singularidade alheia, eliminando a projeção de nossos desejos não realizados nas pessoas ao redor. Foi na astrologia, aos 20 anos, que Claudia Lisboa encontrou o mapa para o autoconhecimento e para o olhar compassivo com os demais.

“É uma ferramenta incrível porque mostra as diversas potências das pessoas”, diz. “Eu posso entender que o outro também é diferente e ser eu mesma um exemplo de autoaceitação.”

Ao aceitarmos as nossas próprias versões e facetas, podemos aprofundar as nossas relações, relevando mais os furos dos outros ou nos despedindo do que não nos convém, ou seja, exercendo uma autenticidade fluida.


“Quando a pessoa aceita seus limites reais, para de prometer o que não sustenta. Ela diz ‘não’ sem culpa, organiza melhor o tempo e respeita o próprio ritmo”, ressalta Jacqueline.

Há ainda outro salto de consciência: aceitar-se faz com que a gente pare de pedir ao outro aquilo que não estamos nos dando.

“As relações ficam mais honestas e menos dramáticas, pois há menos cobrança, menos dependência e mais presença”, afirma a terapeuta holística.

“Quando a pessoa aceita seus limites reais, para de prometer o que não sustenta. Ela diz ‘não’ sem culpa, organiza melhor o tempo e respeita o próprio ritmo. Nas relações, há menos cobrança e dependência”

“Se a gente se aceita verdadeiramente, não há o que esconder, não há porque fingir”, reforça Regina.

Essa transparência alimenta a confiança nos relacionamentos. Veja que alquimia interessante: nos revelarmos com franqueza, abertura e liberdade tende a nos aproximar das outras pessoas, que ficam à vontade para responder na mesma sintonia.


Estar confortável na própria pele, consciente de quem somos, é uma libertação


O fluir incessante da vida


No Zen-budismo, não existe um “eu” fixo: somos seres em transformação a cada segundo, o que abre outra perspectiva para compreendermos o tema da aceitação.

“Nós não sabemos quem somos. Nós vamos nos fazendo”, reflete a Monja Heishin, da Soto Zen Japão.

No entanto, temos tendências, sendo importante conhecer as raízes das características que nos são peculiares.

“O acolhimento às nossas manifestações e escolhas é, para mim, o passo fundamental no processo do autoconhecimento”, diz.

Ela prefere substituir “autoaceitação” por “autocompreensão” ou “autogestão”. O objetivo é evitar o “enclausuramento” em apenas uma forma de ser, evocado pela palavra “autoaceitação”, e que esse importante processo de acolhimento e autorreflexão seja confundido com conformismo e passividade. A autocompreensão nos permite ver com mais clareza como funcionamos no mundo e rumar às mudanças.

“É preciso compreender nossos limites, ver com clareza e transformar”, observa Heishin.

Dentro dessa tradição, o sofrimento é um conflito interno, um “inferno” em que nossas emoções se digladiam conosco e com os demais. Para contornar a falta de educação emocional, o primeiro passo rumo à paz é observar como reagimos: “Por que gritei hoje? Por que fiquei contrariada?”, propõe a professora do centro Daikanshi Zen.


Ao compreendermos as raízes de nossas contrariedades, podemos mudar de direção “com maciez e sem violência”. “O céu é vivermos autônomos, compassivos, com empatia e nos compreendendo”, diz. Ao desenvolvermos um estado mental de abertura e “não medo”, deixamos de bloquear o fluir incessante da vida, e nossas mudanças internas podem desabrochar.


Heishin critica o “antropocentrismo”, ou seja, a visão de mundo centrada na humanidade, que nos afasta da nossa natureza interdependente. Faz mais sentido para ela acessarmos nossa verdadeira essência, como uma criança que corre num jardim, com os limites necessários, mas sem os aprisionamentos do “certo ou errado”.


Esse caminho nos leva à responsabilidade coletiva, pois, ao cuidarmos da nossa natureza interna, cuidamos da vida na Terra.

“Não existe centro, existe movimento e nós estamos misturados neste movimento”, diz. “Um dos recursos, importantíssimo, é a meditação Zen: esse inspirar e expirar a vida que é você e tudo que existe.”

O todo em nós


Pode reparar: na galeria de fotos do seu celular estão os sorrisos, as paisagens bonitas e os melhores ângulos, recortes que escolhemos compartilhar com o mundo. Rolando um pouco mais, porém, encontraremos as fotos borradas e mal enquadradas. O real é composto pelo rolo de câmera completo, incluindo tanto as imagens agradáveis quanto as que julgamos imperfeitas. Você pode escolher olhar com mais carinho para todas elas.

“É difícil aceitar algo que você reprime, que esconde dos outros e até de si mesmo”, resume Regina. “A cada conteúdo nosso que a gente aceita, a sensação é de libertação.”

Podemos buscar novas paisagens para o nosso olhar e, nesse trajeto, produzir mais imagens bem alinhadas, desde que saibamos que as borradas ainda estarão lá.

“Quando você para de brigar com a vida, com você mesmo internamente, você fica muito mais leve, porque você está pacificado”, diz Jaciana. “E não é parar de brigar porque deixou de se importar, mas porque você entendeu quem é e onde quer chegar. Quando a gente sabe para onde está indo, o caminho não fica mais fácil, mas fica mais leve.”

Tal postura acorda a autorresponsabilidade em nós. Afinal, o que posso fazer com aquilo que sou? Isso acontece porque, segundo Jacqueline, a aceitação gera presença, clareza e direção. Como ela diz:

“Quem aceita, se responsabiliza. Quem se conforma, se abandona”.
 


A autoaceitação não nos torna perfeitos, mas nos faz inteiros, como você deve ter compreendido. Longe de ser um troféu, ela é um processo de se reconhecer e vir a ser o que deseja a nossa natureza mais íntima e genuína, também chamada de essência. A fonte que jorra nossos potenciais para fazermos da vida uma jornada gratificante.


Um dia, a luta interna vira dança. E a alegria de se aceitar e se acolher contagia tudo ao redor


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