Incerteza não é obstáculo, é parte do caminho de crescimento
Ela chega de mansinho, mas quando se instala, pesa. Pode ser na véspera de uma decisão importante, na madrugada em que o sono não vem ou diante de um silêncio que pede resposta. As perguntas vira e mexe aparecem: e se der errado? E se não for a escolha certa? E se eu estiver perdendo algo? A ansiedade se alimenta do que ainda não aconteceu, e o futuro, que sempre foi incerto, parece mais ameaçador do que nunca.
Vivemos numa cultura que cultiva certezas. Planejamentos de cinco anos, metas mensuráveis, métricas para tudo – da performance profissional ao humor diário. Aprendemos que “não saber” é um defeito a ser corrigido, uma falha na gestão da própria vida. Mas e se o problema não estiver na dúvida, e sim na relação que estabelecemos com ela?
Para a psicóloga clínica Katherine Sorroche, essa dificuldade nasce de algo estrutural. “O ser humano precisa de previsibilidade para se sentir seguro. Quando não sabemos o que vai acontecer, o que se perde não é apenas a resposta – é a sensação de chão.”
Além disso, há um contexto cultural que transforma a dúvida em fracasso.
“Vivemos em uma cultura que valoriza respostas rápidas, planejamento e desempenho. A dificuldade não está na incerteza em si, mas na forma como aprendemos a nos relacionar com ela.”
Quando o controle vira prisão
Coordenadora de Psicologia do Hospital Pró-Cardíaco, Renata Dahwache aprofunda a reflexão a partir da psicanálise. Para ela, a busca desenfreada por controle tem raízes numa crença inconsciente que nos acompanha desde sempre: a de que somos imortais.
“Carregamos a crença inconsciente da imortalidade. Se estivéssemos o tempo todo conscientes da nossa finitude, ficaríamos paralisados.”
A nossa única certeza factual é a morte, mas nossa maior incerteza é o “quando”. “É como se todas as pequenas incertezas do dia a dia fossem uma reatualização dessa incerteza fundamental.”
Na contemporaneidade, essa dificuldade se exacerba. Somos cercados por recursos tecnológicos que prometem encobrir a imprevisibilidade da vida. “Quando essa ilusão de controle falha – e ela sempre falha –, sofremos um baque psicológico, pois somos lembrados da nossa condição de desamparo.”
Renata aponta ainda para a pressão pelo “imperativo de gozo”: a obrigação de ser produtivo e feliz o tempo todo.
“As redes sociais amplificam isso; estamos sempre diante da imagem de alguém que parece estar ‘aproveitando mais’ a vida. Esquecemos que a perda não é um defeito casual, é parte estruturante da vida. Escolher é renunciar.”
O psicoterapeuta Thiago Guimarães, que trabalha com a psicologia analítica de Carl Jung, complementa: “Quanto maior a necessidade de controle, maior tende a ser a ansiedade. Vivemos em uma época que valoriza planejamento constante e previsibilidade. Isso faz com que muitas pessoas tentem transformar a vida em algo totalmente administrável. Como isso é impossível, surge frustração.”
O que acontece quando a resposta não vem
Quando não temos respostas claras para situações importantes, a mente tende a preencher o vazio – e, muitas vezes, o faz com cenários negativos. Katherine explica que, sem respostas, aumentam a ruminação, a ansiedade antecipatória, a sensação de perda de controle e, em alguns casos, a paralisação. Mas existe um outro caminho possível.
“Quando a pessoa consegue sustentar esse ‘não saber’, ela começa a desenvolver recursos internos – como tolerância emocional, flexibilidade e confiança em si.”
Renata nomeia esse vazio como o encontro com “o Real” – aquilo que não conseguimos simbolizar. “Sem um sentido pré-fabricado para nos apoiar, sentimos insegurança, e o psiquismo tenta, muitas vezes de forma desesperada, preencher esse vazio com fantasias, preocupações excessivas ou até sintomas físicos, numa tentativa de dar algum contorno ao desconhecido.”
Guimarães oferece um olhar acolhedor para esses momentos. “Períodos de incerteza costumam marcar transições importantes da vida. São momentos em que antigas referências deixam de funcionar, mas novas ainda não se organizaram completamente. Nem toda dúvida é sinal de problema. Muitas vezes é sinal de crescimento.”
Treinar a mente ou elaborar?
Será possível “treinar” a mente para tolerar melhor o desconhecido? As respostas das especialistas apontam para um caminho menos óbvio.
Para Katherine, o trabalho não é de controle, mas de relação. Ela sugere nomear o que está acontecendo – por exemplo: “eu estou ansiosa porque não tenho resposta” –, diferenciar o que está sob controle do que não está, reduzir a necessidade de antecipação constante e criar pequenas experiências de não controle. “A psicoterapia ajuda muito nesse processo, porque amplia a capacidade de sustentar estados emocionais sem precisar eliminá-los rapidamente.”
Renata faz uma ressalva importante: “A psicanálise segue o caminho oposto ao do ‘treinamento’. A própria tentativa de ‘treinar a mente’ para não sentir incerteza já é, em si, mais uma estratégia de controle. A alternativa não é o treinamento, mas a elaboração. Ter um espaço para falar e contornar essas angústias. Uma vida mais autêntica permite que existam espaços em branco e afetos reais”
Guimarães concorda e sugere caminhos como aprender a observar as próprias emoções antes de reagir, perceber quando a mente está criando cenários catastróficos, diferenciar intuição de ansiedade e desenvolver confiança na própria capacidade de adaptação.
“A tolerância ao desconhecido cresce quando a pessoa percebe que não precisa prever tudo para conseguir lidar com o que vier.”
O momento em que a busca por respostas vira problema
Katherine aponta o limite: a necessidade de respostas deixa de ser saudável quando deixa de ser uma busca por compreensão e passa a ser uma tentativa de aliviar a ansiedade a qualquer custo. “Isso acontece quando a pessoa não consegue esperar, quando precisa de respostas imediatas, quando busca garantias o tempo todo ou entra em sofrimento intenso diante da dúvida.”
Renata complementa: “Ela se torna prejudicial quando paralisa o sujeito. Se estamos o tempo inteiro exigindo garantias antes de agir, nos desconectamos do desejo autêntico e passamos a operar no automático. A necessidade excessiva de respostas tenta eliminar o risco de viver, e, ao fazer isso, esvazia o sentido do que fazemos.”
Guimarães também resume: “Nesse ponto, a busca por respostas deixa de ser curiosidade e passa a funcionar como defesa emocional.”
Estratégias para conviver com a dúvida
Para quem sente que a ansiedade está tomando conta, as três especialistas oferecem caminhos práticos.
Katherine sugere:
- Trazer a atenção para o presente, em vez de viver apenas no “e se…”;
- Dividir decisões grandes em pequenos passos possíveis;
- Aceitar que nem todas as variáveis estarão sob controle antes de agir;
- Estabelecer limites para a busca de informação (excesso também aumenta ansiedade);
- Cultivar momentos de pausa e silêncio.
Renata aposta na palavra e na arte:
- Falar sobre a própria angústia (em análise ou com vínculos seguros);
- Abrir mão das garantias prévias – o sentido de uma escolha só se revela depois
- Engajar-se em arte, cultura, literatura. “A arte é a forma mais sublime de lidar com o não saber.”;
- Sustentar a pergunta: suportar ficar um tempo com ela, sem correr para preencher.
Guimarães propõe atitudes cotidianas:
- Diminuir a expectativa de controle total sobre o futuro;
- Continuar agindo mesmo sem ter todas as certezas;
- Evitar decisões impulsivas apenas para reduzir ansiedade;
- Conversar com pessoas de confiança antes de conclusões definitivas.
A liberdade que vem com o não saber
Aceitar que não temos todas as respostas pode, de fato, ser libertador? Para Katherine, sim, porque reduz a exigência de controle total. “Quando a pessoa aceita que não precisa saber tudo para seguir, ela se autoriza a viver com mais leveza. A liberdade emocional não está em ter todas as respostas, mas em conseguir seguir mesmo sem elas.”
Renata ressalta que a liberdade está em tirar dos ombros o peso da onipotência.
“Quando aceitamos que não temos o roteiro de tudo, abrimos espaço para o desejo e para a invenção da nossa própria caminhada.”
No entanto, ela faz um alerta: “Isso não pode ser idealizado o tempo todo. A mente humana precisa viver um pouco na fantasia para operar. A liberdade não está em destruir todas as fantasias de controle, mas em ter uma relação mais flexível com elas.”
Guimarães sintetiza a discussão: “Liberdade emocional não significa ter certeza sobre tudo. Significa conseguir caminhar mesmo sem certeza.”
A incerteza como motor de crescimento
Ao final, fica uma lição que atravessa as três visões: a incerteza não é apenas um obstáculo a ser vencido. É parte essencial do amadurecimento.
Katherine afirma que a incerteza é um dos principais motores de crescimento. “São justamente os momentos em que não temos respostas que nos convidam a rever padrões e crenças, questionar certezas antigas, desenvolver autonomia emocional e construir uma relação mais profunda conosco. Sem incerteza, não há transformação – apenas repetição.”
Renata, pela psicanálise, reforça que a incerteza é o motor do caminhar da vida. “Onde tudo é pleno e completo, não existe movimento. É exatamente a partir da falta, da incerteza e do não-saber que surge o desejo. Se um bebê tivesse todas as suas necessidades adivinhadas, ele jamais precisaria chorar, apontar, falar ou se relacionar. A incerteza nos empurra para a vida, nos obriga a criar laços e a inventar saídas singulares.”
O psicoterapeuta, com base em Jung, nomeia esse processo: “Jung chamou de individuação – o movimento de aproximação entre quem aprendemos a ser e quem realmente somos. Sem atravessar períodos de dúvida, a pessoa tende apenas a repetir padrões antigos. A incerteza, nesse sentido, não é um obstáculo. É parte do caminho de crescimento.”
Talvez o grande desafio não seja eliminar a dúvida, mas aprender a caminhar com ela. Sem pressa de preencher o silêncio com respostas apressadas. Sem a ilusão de que controlar tudo nos protegerá do desconhecido. Como lembra Guimarães Rosa, citado por Renata: viver é perigoso. Mas é justamente esse risco – essa aposta no imprevisível – que nos mantém vivos, desejantes e em movimento.
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