Canetas emagrecedoras falsificadas: produto pode ter dose errada, substâncias desconhecidas e até risco de infecção
Dr. Igor Viana Médico especialista em Clínica Médica, com atuação em endocrinologia e metabologia Anvisa intensifica fiscalização após identificar lotes falsificados de Mounjaro; especialista explica por que comprar canetas de procedência duvidosa pode transformar uma tentativa de emagrecimento em um problema grave de saúde
As chamadas “canetas emagrecedoras” se tornaram populares no tratamento da obesidade e do diabetes, mas o crescimento da procura também abriu espaço para um mercado perigoso: o de medicamentos falsificados, contrabandeados ou comercializados fora dos canais autorizados.
O alerta ganhou força em 2026. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, em julho, a apreensão de diferentes lotes falsificados de Mounjaro (tirzepatida), identificados por inconsistências como números de lote não reconhecidos, números de série incompatíveis, dispositivos diferentes do produto original e até erros de grafia na embalagem. Em outro caso, a agência identificou um produto cujo lote existia nos registros da fabricante, mas apresentava número de série incompatível.
Para o médico especialista em Clínica Médica, com atuação em endocrinologia e metabologia, Igor Viana, o problema vai muito além da possibilidade de o medicamento simplesmente “não funcionar”.
“Quando uma pessoa compra uma caneta falsificada, ela perde a principal garantia de um medicamento: saber exatamente o que está sendo administrado. Não temos como assegurar qual é o princípio ativo, qual é a concentração, se a dose corresponde ao que está descrito na embalagem ou mesmo se o produto foi produzido e armazenado em condições adequadas”, explica.
O que pode haver dentro de uma caneta falsificada?
Medicamentos falsificados podem apresentar diferentes problemas: ausência do princípio ativo, concentração diferente da indicada, contaminação, substâncias não declaradas ou componentes cuja segurança não foi avaliada.
No caso de medicamentos injetáveis, existe ainda uma preocupação adicional: a esterilidade. Uma caneta produzida ou armazenada de maneira inadequada pode apresentar risco de contaminação e infecção.
“Estamos falando de um produto que será aplicado diretamente no organismo. Se não há garantia sobre a fabricação, a esterilidade, a conservação e a composição, o paciente pode estar se expondo a riscos que não consegue identificar visualmente”, afirma Igor.
A própria Anvisa informou, em abril, que suas fiscalizações encontraram problemas relacionados à esterilização, ao controle de qualidade e à identificação da origem e da composição de insumos utilizados em produtos injetáveis de GLP-1. Na ocasião, a agência informou ter realizado 11 inspeções em farmácias de manipulação e importadoras, com oito interdições por problemas técnicos e falta de controle de qualidade.
Produtos vendidos como tirzepatida já apresentaram substâncias inesperadas
O risco também aparece em análises realizadas no exterior de produtos comercializados como tirzepatida. Entre os achados divulgados estão bactérias, impurezas, estruturas químicas diferentes das esperadas e, em pelo menos uma amostra, apenas um álcool de açúcar, sem a presença da tirzepatida esperada.
Há, entretanto, uma ressalva importante: esses resultados foram divulgados pela própria fabricante do medicamento de referência. Por isso, os achados devem ser apresentados com cautela e, idealmente, confrontados por análises realizadas por laboratórios independentes.
Ainda assim, para o especialista, os resultados ajudam a dimensionar o risco associado à aquisição de medicamentos fora dos canais oficiais.
“Quando falamos de um medicamento injetável, a composição e a esterilidade são fundamentais. Encontrar bactérias, impurezas ou estruturas químicas diferentes em produtos vendidos como se fossem tirzepatida mostra o tamanho do problema que pode existir quando não há controle adequado sobre a fabricação e a origem. Esses dados precisam ser interpretados considerando a fonte e, idealmente, comparados com análises independentes, mas reforçam uma preocupação legítima: o paciente pode acreditar que está utilizando um medicamento conhecido quando, na verdade, não sabe exatamente o que está aplicando”, afirma Igor Viana.
Segundo o médico, a aparência da caneta não é suficiente para determinar a segurança do produto.
“Uma contaminação microbiológica ou uma alteração na composição química não necessariamente pode ser percebida pelo paciente. Por isso, uma caneta falsificada ou de procedência desconhecida pode representar um risco que não é visível antes da aplicação”, alerta.
Dose errada também pode ser perigosa
Outro ponto de atenção é a possibilidade de o paciente receber uma quantidade diferente da esperada. Medicamentos como semaglutida e tirzepatida atuam em mecanismos relacionados à saciedade, ao esvaziamento gástrico e ao controle da glicose. Por isso, alterações importantes na dose podem aumentar o risco de efeitos adversos.
“Náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal e constipação estão entre os efeitos conhecidos dessas medicações. Mas, quando não sabemos exatamente qual produto foi utilizado ou qual dose foi administrada, a avaliação do risco fica muito mais difícil. Uma pessoa pode acreditar que está usando determinada concentração e, na realidade, estar recebendo outra”, alerta o médico.
Erros de dose com medicamentos injetáveis de semaglutida já foram associados a eventos adversos e até hospitalizações em alertas internacionais, especialmente em produtos manipulados nos quais havia confusão entre diferentes unidades de medida.
Preço muito baixo deve acender o alerta
Com a popularização dos medicamentos para obesidade e a ampliação da concorrência no mercado brasileiro, o consumidor pode encontrar uma variedade cada vez maior de ofertas na internet, redes sociais e aplicativos de mensagens.
Para Igor, entretanto, o preço não deve ser o único critério de escolha.
“Uma oferta muito abaixo do preço praticado no mercado pode parecer uma oportunidade, mas, no caso de um medicamento injetável, é preciso perguntar de onde aquele produto veio, quem o comercializou e se ele possui registro e procedência verificáveis. Economizar na compra pode significar assumir um risco que o paciente não tem condições de dimensionar”, afirma.
A Anvisa orienta que medicamentos sejam adquiridos em farmácias devidamente regularizadas, na embalagem completa e com emissão de nota fiscal.
Como o consumidor pode se proteger?
Antes de utilizar uma caneta para emagrecimento ou controle do diabetes, o paciente deve:
●comprar o medicamento somente em estabelecimentos regularizados;
● desconfiar de ofertas com preços muito inferiores aos praticados no mercado;
● verificar embalagem, lote, número de série e demais informações do produto;
● conferir se há nota fiscal;
● não comprar medicamentos por redes sociais ou de vendedores sem procedência;
●não utilizar uma caneta cuja embalagem apresente erros, alterações ou características diferentes do produto habitual;
●procurar orientação médica antes de iniciar, interromper ou modificar o tratamento.
“Se houver qualquer dúvida sobre a autenticidade da caneta, a recomendação é não aplicar o produto. O paciente deve guardar a embalagem e a nota fiscal, quando disponíveis, e procurar a farmácia, o fabricante ou os canais oficiais da Anvisa para verificar a situação”, orienta Igor.
E quem já aplicou uma caneta suspeita?
A recomendação é não esperar necessariamente o aparecimento de sintomas para buscar orientação. A pessoa deve informar ao profissional de saúde qual produto utilizou, quando fez a aplicação, qual era a dose indicada na embalagem e, se possível, levar a caneta, a caixa e a nota fiscal.
“Se depois da aplicação surgirem sintomas intensos ou diferentes do habitual, especialmente vômitos persistentes, dor abdominal importante, alteração do nível de consciência, sinais de desidratação ou qualquer reação inesperada, é necessário procurar atendimento médico. O fato de a pessoa não apresentar sintomas imediatamente não significa que o produto seja seguro”, ressalta o especialista.
O crescimento do mercado de medicamentos para obesidade torna a informação ainda mais importante. Para o médico, o combate às falsificações precisa caminhar junto com a conscientização dos pacientes.
“Essas medicações podem ser ferramentas importantes no tratamento da obesidade e de outras condições quando corretamente indicadas e acompanhadas. O problema não está no medicamento aprovado, mas em transformar um tratamento médico em uma compra de procedência desconhecida. Quando falamos de uma substância injetável, não existe espaço para improviso”, conclui Igor Viana.
Igor Viana
Médico especialista em Clínica Médica, com atuação em endocrinologia e metabologia CRM 229364 | RQE 144806. Atua na prevenção, diagnóstico e manejo de doenças metabólicas, com foco na promoção da saúde, alimentação equilibrada e longevidade.





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