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Belo Horizonte,16/08/2026

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Meu almoço com Joan Miró

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Meu almoço com Joan Miró


Miró era um artista que falava em cores. O que ele queria era criar uma linguagem universal, uma arte que tocasse quem a visse, independente do repertório, da cultura, do país. Usava as cores e formas como amigos de jornada para dar vida aos sonhos. Os tons que escolhia para suas criações eram, mais do que palavras, formas de despertar sensações, sentimentos que, convenhamos, muitas vezes extrapolam os limites da linguagem.
Não escondi minha empolgação quando o time de marketing do hotel Rosewood (que inclusive respira arte, cultura e bom gosto), me convidou para ouvir um talk de Joan Punyet Miró, neto e guardião do legado do artista Joan Miró. O evento rolou em ocasião da abertura da exposição Miró: Mestre das Formas, que acontece na Faap. Quando eu teria a oportunidade de conhecer alguém da linhagem direta de um dos meus artistas favoritos? Cancelei todas as minhas reuniões e confirmei presença.
A conversa, que aconteceu em uma suíte do Rosewood, foi recheada de histórias que Joan Punyet Miró contou com brilho nos olhos e um ótimo porto-nhol-cês (português com espanhol e francês). Uma hora de papo, que mais parecia a leitura de um delicioso livro sobre o artista. Meus dedos ficaram zonzos de tanto anotar as curiosidades não reveladas nos livros de história. E, claro, trouxe algumas delas para compartilhar com vocês.
Meu almoço com Joan Miró
Arquivo pessoal
1. Crie como uma criança
Essa foi uma das lições mais bonitas que ouvi durante o encontro. Sabe aquele típico comentário, visto como negativo, que diz “isso poderia ter sido feito por uma criança"? Para Miró isso era um elogio. Atingir a pureza, a inocência do olhar de uma criança, era exatamente o que ele propunha em sua produção. Uma criança, livre de preconceitos, com o olhar puro para o mundo, é capaz de captar a beleza de forma muito mais sensível do que aqueles que já se contaminaram, se corromperam com a frieza da sociedade. O uso das cores, formas, traços, dispostos de maneira livre em uma tela, podem despertar emoções, sentimentos, de forma tão individual quanto universal.
Meu almoço com Joan Miró
Arquivo pessoal
2. O músico, o poeta e a pinturas rupestre
Falamos muito sobre como a música, a poesia e a arte rupestre foram chaves fundamentais na produção de Joan Miró. Ele buscava estar perto de músicos, poetas e pinturas rupestres, como combustível para alimentar seu imaginário criativo, acerca do que era humanamente universal.
3. Miró trabalhou com um poeta brasileiro
João Cabral de Melo Neto é o nome do brasileiro considerado uma das principais influências de Joan Miró. Autor de “Morte e Vida Severina”, João Cabral de Melo Neto e Miró construíram uma amizade e admiração que resultou em uma influência mútua em suas produções.
4. Quem “descobriu” Miró?
Meu almoço com Joan Miró
Arquivo pessoal
“Descobrir” é uma palavra forte, mas foi ela que Miró-neto usou para falar sobre Francesc Galí e seu avô. Em 1915, Miró estudou com Galí em Barcelona. Conta-se que nessa ocasião o professor vendou os olhos do aluno e pediu que ele escrevesse, pintasse e se expressasse com a alma, não com os olhos. A partir disso, Miró passou a entender a importância da alma para sua criação artística.
5. Silêncio e introspecção
Para o artista, a prática do silêncio e da introspecção era a maneira mais fiel de acessar seu “eu” interior. Era experimentando o silêncio que ele poderia ser mais verdadeiro com suas criações e com aquilo que sentia das cores e formas que imprimia em suas produções;
6. Organização, disciplina e rotina
Miró era categórico na forma como enxergava seu dia a dia de trabalho. “Se um boxeador precisa trabalhar o corpo, o artista precisa trabalhar a alma”, disse o neto do artista durante o papo. E era com a severidade de um atleta de alta performance que Miró queria construir uma produção também de alta performance. Era rigoroso com o horário que acordava, produzia, lia, e se dedicava à cada aspecto que considerava importante para sua formação.
7. Pés na terra, corpo na natureza
Miró estava constantemente em contato com a natureza. Além de gostar de ficar descalço, com os pés na terra, ele também era um colecionador de ossos, plantas e outros elementos naturais. Acreditava que quando em contato com a natureza, entrava em contato com outras facetas de si. Achei isso incrível pois, por vezes, esquecemos que não existe separação entre nós e a natureza. Nós somos parte dela.
Ao meu ver, Miró deixou sua marca na história da arte pela maneira como nos ensina a enxergar e a nos comunicarmos com o mundo. Existe algo primordial que nos une enquanto humanidade, algo que vai além do nosso entendimento.
É com as cores primárias que conseguimos criar todas as outras. É com os sonhos que construímos possibilidades de realidades. Se a vida é abstrata, que a arte também possa ser.




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