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Belo Horizonte,23/07/2026

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A régua que muda quando o sobrenome incomoda

Querem um candidato 'palatável' ao sistema


A régua que muda quando o sobrenome incomoda Imagem Gerada Por Inteligência Artificial

A régua que
muda quando o sobrenome incomoda

Por Pamela Costa

Sete por cento. É o que
Ronaldo Caiado (PSD) marca no primeiro turno estimulado da Real Time Big Data
de julho, na quarta colocação, atrás de Lula, Flávio Bolsonaro e até de Renan
Santos. Dois por cento na espontânea. E, mesmo assim, o consultor do próprio
instituto, Wilson Pedroso, saiu dizendo ao
SBT News que Caiado é "o mais
competitivo contra Lula". A VEJA fez a festa na manchete: "o mais
competitivo contra Lula no 2º turno não é Flávio".

Guarde essa palavra,
competitivo, porque ela vai voltar. Renan Santos, com 9% no primeiro turno,
virou "fenômeno" e "explosão”. Caiado, com os tais 7%, virou
"competitivo". E Flávio Bolsonaro, com 33% no primeiro turno
estimulado da mesma pesquisa, empatado tecnicamente com Lula no segundo turno,
ganhou o rótulo de quem oscila, quem escorrega, o nome que talvez não sirva.
Nove por cento é fenômeno. Sete por cento é competitivo. Trinta e três por
cento é frágil. Alguém explica a régua?

A régua não
é do eleitor, é de quem escreve a manchete

Frágil não é quem tem 33% de
intenção de voto. Frágil é a direita tucano-afetiva que, três meses antes da
eleição, não conseguiu construir uma candidatura com brilho próprio e agora
precisa apagar o brilho alheio. Quem tem projeto disputa voto. Quem não tem,
disputa adjetivo. E o adjetivo é distribuído com critério político claro:
"fenômeno" e "competitivo" para os nomes que não ameaçam o
arranjo, "frágil" para o nome que carrega o sobrenome errado.

O detalhe que desmonta o
teatro está no cruzamento entre institutos. Na Real Time, Caiado aparece à
frente de Lula no segundo turno, 44% a 43%. Na GERP do mesmo mês, ele aparece
atrás, 44% a 41%. Flávio faz o caminho inverso: perde por 45% a 42% na Real Time,
mas aparece à frente por 46% a 45% na GERP. A diferença é que Flávio tem
musculatura de chegada nos dois levantamentos, 33% no primeiro turno da Real
Time, 38% empatado com Lula na GERP, enquanto Caiado tem 7% num instituto e 3%
no outro. Caiado é palatável no cenário hipotético de segundo turno. Flávio é
viável no voto real. Palatável ganha manchete. Viável ganha eleição.

O que
ninguém quis olhar: a régua da própria pesquisa mudou

Aqui a coisa fica mais
séria, e é onde a imprensa passou batido. Segundo o registro das pesquisas no
TSE, a Real Time de junho foi feita por coleta presencial. A de julho aparece
como modelo misto, telefônica combinada com online, mais menção a "uso de
recursos de IA". Trocar o modo de coleta parece detalhe técnico chato, mas
é justamente o principal fator metodológico que explica por que duas pesquisas
seguidas dão resultados diferentes, com ou sem mudança real no eleitorado. O
nome disso é mode effect, efeito de modo de coleta, e o
Pew Research Center já mediu variações médias
na casa de cinco pontos percentuais só pela troca do modo de entrevista.

Cinco pontos é exatamente a
ordem de grandeza que separa "empatado" de "à frente" num
segundo turno. E o relatório de julho compara diretamente as ondas de março,
maio, junho e julho numa tabela de evolução, mostrando Lula estável e Flávio
oscilando, sem uma linha sequer avisando que a régua de medição mudou no meio
do caminho. O problema nunca foi comparar. O problema é comparar sem avisar que
o instrumento mudou.

E o efeito prático salta aos
olhos: a troca de método coincide com a rodada em que um candidato de 2% de
espontânea e 7% de primeiro turno de repente aparece "à frente de
Lula" e vira o nome "mais competitivo" da oposição. Não estou dizendo
que mudaram o método para favorecer alguém, isso seria acusação sem prova.
Estou dizendo o que é objetivo e verificável: a mudança metodológica de julho, confirmada
no registro do TSE, transforma um nome de baixíssimo desempenho no voto real em
candidato aparentemente competitivo no cenário binário. E a ausência total de
destaque para essa mudança, num relatório que ainda faz comparação temporal, é
no mínimo inadequada.

As
perguntas que o instituto precisa responder

Duas coisas ficaram no ar e
precisam ser cobradas. Primeiro: qual foi a proporção telefone x online em
julho? Foi 90/10? 50/50? Online só para fechar cota? Os dados foram ponderados
por modo de coleta? Sem isso, a comparação com junho é opaca. Segundo: o que
significa "uso de IA"? IA para discagem, para transcrição, para
controle de qualidade, tudo bem. IA para seleção de respondente ou para
"completar" entrevista já é outra conversa. O uso de IA não quer
dizer automaticamente respondente sintético, mas, se o relatório não explica, a
dúvida é legítima e o ônus de esclarecer é de quem publicou o número.

Vale ainda um registro que
reforça o alerta: sobre a mesma pesquisa de julho, o UOL noticiou coleta por
telefone e a CNN noticiou entrevista presencial (
CNN Brasil). Quando dois grandes
veículos descrevem métodos diferentes para o mesmo levantamento, o eleitor tem
todo o direito de perguntar qual régua foi usada antes de engolir a narrativa.

A pergunta que fica não é
quem subiu e quem caiu. É outra, mais desconfortável para quem fabrica
manchete: mudou o eleitor ou mudou a forma de medir o eleitor? Enquanto essa
resposta não vier, todo "competitivo" e todo "frágil" dessa
rodada deveria ser lido com o dedo em cima da tabela de metodologia.

Fontes-chave

·       
Real Time Big Data julho/2026 — números de 1º e 2º turno, campo
18-20/07, 2.000 entrevistas, margem 2 p.p., registro TSE BR-05864/2026:
VEJA · CNN Brasil

·       
Rótulo "Caiado mais competitivo" (fala do consultor
Wilson Pedroso, da Real Time):
SBT News

·       
Renan Santos 9% (10% em votos válidos): Crusoé

·       
Efeito de modo de coleta (mode effect), variação média de ~5 p.p.:
Pew Research Center




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