A febre dos peptídeos e os perigos das terapias que prometem benefícios milagrosos

Não é de hoje que pequenos fragmentos de aminoácidos derivados da proteína aparecem nos rótulos dos mais variados produtos de skincare – de séruns hidratantes a balms labiais e itens de maquiagem. Os peptídeos trazem benefícios para a saúde da pele graças à capacidade de atuarem como mensageiros biológicos, sinalizando às células o que elas devem fazer: regular hormônios, produzir colágeno, reduzir inflamações. Mas, recentemente, esses ativos têm sido associados a práticas controversas – e arriscadas: as chamadas terapias com peptídeos. Em vídeos que ganharam popularidade nas redes sociais, influenciadores divulgam produtos injetáveis que prometem resultados rápidos para aumento de massa muscular, perda de peso, bronzeamento, entre uma infinidade de outras funções.
É o caso do BPC-157, um dos peptídeos sintéticos mais presentes nas combinações, aclamado como uma droga milagrosa por sua capacidade de recuperação muscular e curar lesões em ligamentos e tendões. Ele é a base do “Wolverine Stack”, um produto popular entre grupos fitness no TikTok – o nome faz referência ao herói da Marvel que tem o poder de cicatrização imediata. Outro “tratamento” que se tornou conhecido nos últimos meses é o “Glow Protocol”, um combo de peptídeos supostamente regenerativos que promete reparar os tecidos e melhorar a qualidade da pele. Ou os peptídeos chineses, febre entre os executivos do Vale do Silício na busca por melhor desempenho físico e cognitivo. Fato é: nada disso tem comprovação científica. Quase sempre são produtos experimentais, sem eficácia ou segurança garantidas. E, ainda mais grave: envolvem o uso injetável dos peptídeos, o que não é permitido pela Anvisa.
“Quando falamos em peptídeos, é preciso separar o joio do trigo”, pondera o endocrinologista Paulo Augusto Carvalho Miranda, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia de São Paulo. Existem infinitas combinações de cadeias de aminoácidos que formam diferentes peptídeos, com diferentes funções. E eles estão mais presentes na nossa rotina de saúde e bem-estar do que podemos notar: a endorfina, por exemplo, é um peptídeo produzido naturalmente pelo corpo; a insulina, usada há um século para tratar diabetes, também é um peptídeo, mas produzido em laboratório, assim como a semaglutida e o aspartame. Atualmente, os peptídeos encontram terreno fértil – e seguro – no campo da dermatologia cosmética. Alguns ativos apresentam boas evidências científicas e, quando são de procedência conhecida e recomendados por um dermatologista, não oferecem riscos. Mas é preciso desconfiar de promessas exageradas. A dermatologista Calu Franco Tebet, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, explica que eles funcionam como bons coadjuvantes, isto é, podem ser aliados a outros tratamentos estéticos, mas sozinhos não produzem transformações abruptas. “Não existe milagre na medicina”, alerta, se referindo aos produtos injetáveis do tipo “Glow Protocol”. “Quando falamos em glow, pensamos em uma pele saudável, hidratada, iluminada. Para isso, não basta um único estímulo, mas uma série de estratégias combinadas, além de hábitos diários que envolvem sono e alimentação, por exemplo.”
O risco do uso injetável dos peptídeos, porém, é grande. Primeiro, porque as vendas acontecem sem nenhuma regulamentação, no mercado paralelo, por meio de marketplaces ou nas redes sociais, o que torna a formulação totalmente insegura. Segundo, porque a maioria dos produtos que prometem milagres estéticos não foi amplamente estudada e testada em seres humanos. “Por essas razões, é difícil calcular possíveis danos, mas eles existem”, alerta o endocrinologista. Um bom exemplo é o peptídeo TB-500, um fragmento conhecido por acelerar a cicatrização dos tecidos e também presente nos tais “Wolverine Stacks” – se, por um lado, não há comprovação absoluta dos benefícios para atletas amadores, que querem melhorar a performance na academia, há indícios de que esse ativo possa fortalecer células cancerosas e aumentar o risco de metástase, por exemplo.
Embora sejam apresentados nas redes sociais como grandes inovações da ciência, os peptídeos usados para fins estéticos e esportivos não são substâncias recém-descobertas. Segundo o endocrinologista, esses ativos são estudados há pelo menos três décadas, mas a maioria deles parou na primeira fase de pesquisas, em que são testados apenas em animais ou em pequenos grupos de humanos, sem cumprir toda a jornada para alcançar a autorização para comercialização de órgãos como o FDA, nos Estados Unidos, ou a Anvisa, no Brasil. Com os avanços da biotecnologia, porém, a fabricação de peptídeos que dependia da ação biológica – ou seja, de bactérias que eram induzidas a produzir proteína em laboratório – evoluiu para a produção sintética, o que aumentou a disponibilidade do ativo no mercado. Para Miranda, isso explica o boom dos tratamentos com o componente: “O problema é que, junto desses avanços, nasceu uma narrativa para convencer as pessoas de que alguns produtos à base de peptídeos são medicamentos inovadores quando, na realidade, são suplementos proibidos.”





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