A solidão no abraço do Mickey
Recentemente, vivi uma experiência que me colocou em contato direto com a solidão que me habita. A solidão é uma condição da existência humana, visto que não há encaixe perfeito capaz de eliminar, de uma vez por todas, a falta que nos é inerente.
Quando falo de solidão no adulto, não entendo apenas como falta de companhia ou isolamento social. Mas a respeito de uma experiência estrutural, de uma percepção — muitas vezes dolorosa — de que há algo em nós que não pode ser totalmente compartilhado, traduzido ou preenchido pelo outro.
Compartilho aqui não como apologia a um destino ou roteiro turístico, mas como relato de um encontro interno que dialoga com um sentimento coletivo de desamparo e solidão, para além dessa condição existencial.
Eu nunca sonhei ardentemente em conhecer a Disney. Mas havia ali, no meu imaginário infantil, o desejo de um dia ter essa experiência.
Era um sentimento distante, daqueles que ficam guardados em alguma dobra da vida, esperando o soprar do vento para se abrir.
Ao chegar lá, fui tomada por uma emoção que naquele momento, foi difícil de nomear. Foi como atravessar um portal, não para a infância, mas para um território onde a solidão parecia, ainda que por instantes, suspensa.
Quando encontrei o personagem do Mickey, em um restaurante praticamente vazio e silencioso — coisa rara de se ver na Disney — fui surpreendida por uma emoção tão intensa que me impedia até de pensar sobre ela, eu apenas sentia que algo ali tocava fundo.
Ao abraçá-lo, vivi uma catarse. Chorei compulsivamente por pouco mais de um minuto nos braços daquele(a) desconhecido(a). Foi um encontro sem palavras, sem perguntas, sem explicações. Um encontro de presença, sem pressa, sem espaço para que o mental atrapalhasse o meu sentir.
Ali, não era sobre fantasia. Era sobre encontro, presença e acolhimento. Sobre a permissão para baixar as defesas e confiar no desconhecido. Vivemos em um tempo em que nunca tivemos tantas possibilidades de conexão e, ao mesmo tempo, estamos tão sós. Os encontros humanos se confundem com uma falsa conexão no digital, empobrecendo a experiência do encontro e tornando a solidão ainda mais dolorosa.
Com o passar dos dias, fui compreendendo o que havia acontecido naquele abraço. Ele tocava a solidão que habita em mim, em você, em todos nós. Uma solidão que ultrapassa a dimensão existencial da condição humana, que se torna insustentável e ainda mais dolorosa diante da violência, da falta de conexões verdadeiras, da ausência de presença, do excesso de demandas e acima de tudo, de um tempo em que confiar se tornou perigoso.
Não sabemos mais o que é inteligência artificial e o que é realidade. Yuval Noah Harari, afirma que vivemos uma grave crise de confiança, capaz de comprometer nossa própria humanidade.
Vivemos tempos marcados por agressividade, polarização e medo. Estamos quase sempre atentos aos perigos e à violência, em um estado contínuo de alerta que nos endurece e nos isola ainda mais. Pouco a pouco, vamos perdendo a confiança no outro como lugar possível de encontro, abrigo e alívio da solidão.
A intenção de Walt Disney ao criar o personagem Mickey era espelhar um sujeito inocente, confiável, bondoso, compassivo e que apreciasse o belo.
Aquele abraço não foi sobre um sonho de infância, mas sobre um sonho coletivo e profundo de poder confiar, ser acolhido, sentir-se seguro e menos só. Sair de um estado de alerta e se entregar ao desconhecido, não cegamente, nem sem consequências, mas com um quantum de confiança e esperança.
O abraço com o desconhecido me encontrou com as defesas baixas e me fez sentir o quanto também me sinto só, desamparada, como todos nós em um certo momento.
Essa experiência me convocou a olhar para os meus encontros e para como tenho estado neles. Perguntei-me como posso cultivar mais presença nas minhas relações, o quanto tenho estado reativa em situações que não exigem resistência, quanto espaço tenho me dado e dado ao outro para se apresentar e se aproximar, e qual é a minha responsabilidade nesse coletivo.
Criar espaços onde a vigilância diminua, a tolerância e a escuta sejam valorizadas, onde o afeto circule e o encontro verdadeiro seja possível, tem sido um trabalho comigo mesma e com a sociedade.
É urgente que nos mantenhamos despertos para essa consciência, a fim de diminuir a violência e o medo em nós, para que possamos servir de pontes de apoio nessa travessia chamada vida, que tem um tanto de solidão e um tanto de encontro.
A solidão não é algo a ser curado ou um defeito a ser corrigido, mas algo para darmos nome, significado, para poder ser vivida de forma menos árida.
Que saibamos oferecer e receber gestos de cuidado que acalentem a nossa solidão e a tornem menos árida. Que não desistamos da humanidade. E que possamos oferecer esse abraço simbólico que devolve à vida um pouco mais de confiança, leveza e sentido.
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