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Belo Horizonte,03/04/2026

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Quando foi que viver virou apenas cumprir tarefas?

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Quando foi que viver virou apenas cumprir tarefas?
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Há um trem que atravessa os trilhos dos nossos dias. Ele tem paradas conhecidas: acordar, trabalhar, resolver pendências, cumprir tarefas, dormir. Subimos nele automaticamente, focados apenas no destino final – o fim de semana, as férias, o feriado, aquele momento no futuro em que, finalmente, a vida “de verdade” vai começar.



Enquanto isso, a paisagem da nossa própria existência passa pela janela, borrada e despercebida, numa sucessão de tarefas que consome os dias e esvazia o sentido.



Mas por que trocamos a experiência de viver pela exaustiva função de “dar conta”? Para a psicóloga clínica Adriana Santiago, a resposta está em um desequilíbrio neurológico e emocional.


“Estamos vivendo sob ativação crônica dos sistemas de ameaça e desempenho”, explica. “O cérebro entra em modo de sobrevivência: resolver, cumprir. Quando isso se prolonga, o sistema de recompensa – ligado ao prazer, à curiosidade e ao sentido – fica silenciado.”


Na lógica da produtividade a qualquer custo, a vida se reduz a uma função. E, como aponta Adriana com base na Terapia do Esquema, muitas pessoas operam dominadas por esquemas de Padrões Inflexíveis, Autoexigência e Subjugação.



“A vida passa a ser vivida para corresponder, não para experienciar. E, quando a existência vira apenas função, o sentido evapora.”



A armadilha do piloto automático


Ter uma rotina é saudável; ser por ela aprisionado, não. “A rotina é apoio quando ela serve à pessoa. Ela vira prisão quando a pessoa passa a servir à rotina”, diferencia a psicóloga. O critério é até simples, mas fundamental: essa organização me dá mais energia ou me deixa constantemente exausto?


Quando eliminamos o espontâneo, o lúdico e o descanso verdadeiro, pagamos um preço neurobiológico. O cérebro deixa de alternar estados essenciais, e o piloto automático se instala. Seus sinais são claros:



  • Sensação de que os dias passam rápido demais;

  • Dificuldade de lembrar, na sexta-feira, o que se viveu na segunda;

  • Prazer com falta de sensibilidade, onde gestos que antes traziam alegria agora parecem cinza;

  • Irritabilidade sem causa clara e aquele pensamento recorrente: “quando isso acabar, aí sim eu vivo”.


“Culturalmente, aprendemos a separar produção de prazer, como se fossem inimigos. O trabalho ocupa o tempo; o prazer fica ‘marcado para depois’”, analisa a psicóloga. 


Transformamos o descanso, uma necessidade biológica, em um mero prêmio por bom comportamento. O problema é que o cérebro não funciona na base da recompensa tardia. Ele precisa de microdoses de presença e prazer ao longo do dia, sob risco de entrar em colapso por esgotamento.


Inserir vida no que já existe


A saída, então, é abandonar tudo e partir para uma ilha deserta? Muito pelo contrário. A mudança é mais sutil. “Não se trata de fazer menos, mas de viver mais enquanto se faz”, propõe Adriana.


Trata-se de pegar o bonde em movimento e, intencionalmente, escolher apreciar a viagem. Isso se faz com microescolhas consistentes, que têm impacto neurobiológico real:



  • Ritualizar transições: criar um pequeno ritual para marcar o início e o fim do dia de trabalho, mesmo que seja tomar um copo d’água olhando pela janela ou fechar a tela do notebook e anotar três coisas que deram certo. Isso sinaliza para o cérebro que é hora de mudar de estado.

  • Inserir leveza: colocar na agenda, mesmo que por 5 minutos, algo que não sirva para nada a não ser trazer leveza: ouvir uma música amada, cheirar uma planta, alongar o corpo sem objetivo.

  • Praticar o “suficientemente bom”: desafiar a autoexigência. Perguntar-se: isso precisa ser perfeito ou já está bom o bastante para seguir em frente?

  • Conectar tarefas a valores: lavar a louca pode ser apenas mais uma obrigação ou um ato de cuidado com o próprio espaço. Essa pequena ressignificação transforma o peso em presença.


“Sentido não nasce de eventos extraordinários, mas da coerência entre quem somos e como vivemos”, reflete a psicóloga, trazendo um princípio da Psicologia Positiva.


Coragem para desacelerar


Um dos maiores obstáculos nesse caminho é a culpa. Ela surge como um sinal de alarme interno quando ousamos desacelerar. “Ela nasce de esquemas precoces ligados à ideia de que descansar é falhar ou de que valer é produzir”, explica Adriana. Culturalmente, reforçamos essa “equação tóxica” o tempo todo.


A ironia, segundo a neurociência, é que descansar melhora o desempenho, a memória e a regulação emocional. “Mas, muitas vezes, o esquema emocional fala mais alto que a voz racional”, pondera. 


Lidar com essa culpa é um processo de reeducação emocional: entender, na prática, que descansar não é pausar a vida, mas fazer parte essencial do seu movimento.


O trem sempre segue seu trajeto


Para quem sente que apenas sobrevive aos dias, esperando que a vida comece em alguma parada futura, Adriana Santiago deixa uma proposta simples, mas profunda:



“A vida não começa quando sobra tempo – ela começa quando você está presente.”



Não é necessário uma revolução externa, um abandono de todas as responsabilidades. A mudança está no olhar. Está em fazer, todos os dias, a pergunta que interrompe o piloto automático: onde hoje eu posso viver um pouco mais mesmo dentro do que já existe?


O trem do seu dia vai seguir o trajeto. A questão que fica é: você continuará apenas olhando para o ponto final, ansioso pela chegada, ou vai se sentar, abrir a janela e permitir sentir o vento no rosto, observar as cores da rua, notar os outros passageiros?


Viver também é pegar o bonde em movimento e ainda encontrar uma forma de se divertir com a viagem. O percurso é o mesmo, mas experiência de estar nele é radicalmente diferente.


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