Amor-próprio começa na infância e fortalece crianças mais seguras e confiantes
A forma como uma criança aprende a se olhar, se valorizar e lidar com erros é construída, pouco a pouco, nas relações do dia a dia, principalmente a partir da maneira como os adultos acolhem sentimentos, lidam com desafios e oferecem limites.
Incentivar o amor-próprio na infância não significa criar crianças que se sentem especiais o tempo todo, mas crianças que se sentem seguras para errar, aprender e existir como são. Para a psicóloga e psicopedagoga Roberta Passos, especialista em neuropsicologia infantil, a autoestima se forma justamente nessas experiências cotidianas. “É a partir da vivência dos desafios que a criança desenvolve a percepção de competência e valor pessoal”, explica.
Esse processo acontece, antes de tudo, no vínculo. Quando esse vínculo é seguro, a criança cresce com uma base emocional mais firme. Já vínculos muito críticos ou distantes podem ensinar que é preciso se controlar demais ou se adaptar o tempo todo para ser aceita, o que fragiliza o amor-próprio ao longo da vida e consequentemente traumas emocionais.
Validar sentimentos não é abrir mão de limites
Toda criança enfrenta desafios como aprender algo novo, lidar com frustrações, tentar de novo depois de errar. O que faz diferença não é o desafio em si, mas como ele é vivido. Segundo Roberta, quando a criança recebe apoio, encorajamento e entende que errar faz parte do processo, ela aprende que é capaz, mesmo diante das dificuldades.
“Quando os desafios são acompanhados de aceitação do erro, a criança desenvolve uma autoestima mais sólida. Já quando o foco está apenas no resultado ou na correção constante, a autoestima tende a se tornar frágil e dependente de acertos.”
Para a psicóloga parental Katherine Sorroche, muitas crianças que desenvolvem uma autocrítica excessiva aprenderam cedo que errar não era seguro. “São crianças que têm muito medo de errar, se cobram demais e sofrem muito quando algo não sai como esperado. Muitas vezes, essa crítica acaba sendo internalizada e continua acontecendo por dentro, inclusive na vida adulta.”
Ou seja, elogiar apenas o resultado final pode ensinar que o valor pessoal está condicionado ao desempenho e não à experiência de aprender. Reconhecer o que a criança sente não significa concordar com tudo o que ela faz, pelo contrário: validar emoções enquanto se impõem limites claros ajuda a desenvolver segurança emocional.
Na prática, isso significa dizer algo como: “Eu entendo que você está bravo, mas não pode bater”. A psicóloga parental afirma que quando o adulto deixa de tentar “consertar” a emoção da criança e passa a acolhê-la, algo muda. “A correção constante ensina a se controlar pelo medo. O acolhimento ensina segurança.”
Ela lembra que, muitas vezes, acolher a criança exige que o adulto também olhe para a própria história emocional, já que muitos pais não tiveram espaço para sentir raiva, tristeza ou frustração na infância.
Autonomia se constrói com apoio
Estimular a autonomia é um dos pilares do amor-próprio, mas ela precisa respeitar o ritmo emocional da criança. Segundo a psicopedagoga, o excesso de controle pode gerar insegurança, enquanto a ausência total de apoio pode gerar medo. “Incentivar a autonomia é oferecer escolhas adequadas à idade, aceitar tentativas imperfeitas e apoiar sem controlar.”
Quando a criança percebe que pode tentar, errar e aprender sem perder o afeto do adulto, ela se sente segura para explorar o mundo e confiar mais em si mesma.
Esse tipo de segurança, de acordo com Katherine, reduz a dependência de validação externa. “O amor próprio saudável não se constrói a partir de aplausos constantes, mas da experiência de se sentir seguro emocionalmente.”
“Quando os adultos separam erro de valor pessoal e mostram que também têm limites, a criança aprende a ser mais gentil consigo mesma.”
Pequenas práticas que fazem diferença no dia a dia
O amor-próprio infantil não se ensina em uma conversa única, mas se constrói na repetição de gestos simples:
- Escutar com atenção;
- Validar emoções;
- Evitar comparações;
- Incentivar a expressão de sentimentos e opiniões;
- Estabelecer limites com afeto;
- Dar o exemplo de autocompaixão.
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