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Belo Horizonte,04/07/2026

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Mergulhe no inverno

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Mergulhe no inverno
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Os dias ficam mais curtos e as nuvens insistem em esconder o sol que, embora permaneça no lugar de sempre, parece não aquecer como antes. As noites se alongam e o vento frio corta a pele em meio a uma escuridão que, para quem observa com atenção, parece ainda mais densa. O passarinho, recolhido em seu abrigo, já não canta com a mesma frequência. A árvore, quase despida, deixa de enfeitar a paisagem como fazia em outros tempos. No inverno, a natureza se contrai. E, sendo parte dela, nós também nos recolhemos quase que intuitivamente.


 


A chuva já não vem como vinha, e a sensação de sede diminui – por vezes, até o desejo pela vida parece se aquietar. À noite, depois de um chá quente, o toque da pele no lençol frio provoca um pequeno choque térmico. O cobertor demora a aquecer, como se resistisse. É nesse instante que os pensamentos se voltam para dentro e encontram emoções profundas, muitas vezes ainda desconhecidas, que não se revelaram nas outras estações. “No país tropical grassa duro inverno. Estou com meias, paletó e ânsias”, escreveu a poeta Adélia Prado. Há algo familiar nessas palavras, não?


 


Esperei o frio chegar para escrever esse texto. Agora é noite e visto meias. As pontas dos dedos, geladas, tocam as teclas do notebook que, ligado há horas, emana calor. Olho ao redor e observo a fumaça do chá de camomila dançar entre os livros, sob a luz baixa e amarelada da luminária na escrivaninha. O inverno convida realmente a um mergulho interior. Ainda assim, esse impulso de voltar-se para dentro pode ser angustiante para muitas pessoas. Ao mesmo tempo, é justamente nesse contato que encontramos a possibilidade de ressignificar dores, medos e fantasmas. Mas como acolher esse chamado com coragem e abertura? Como encarar esse abismo? Vamos juntos?


 


A ‘descida ao abismo’


 


Psicóloga de abordagem junguiana, Jussara Reis nos ajuda a entender o simbolismo do inverno. “A semente, por exemplo, tem um ciclo que acompanha as estações do ano. No inverno, as folhas caem e permanecem no solo, protegendo e nutrindo a terra. Esse processo acontece porque o caule e as raízes precisam conservar água e energia. Nós, porém, somos uma espécie que não para – muitas vezes, não respeitamos esses ciclos naturais. Ainda assim, a nossa psique é autorregulatória: ela busca recursos para que possamos funcionar melhor. Às vezes, a doença, o sintoma ou a angústia surgem como um chamado, um sinal de que é preciso olhar para alguma questão que está pedindo atenção.”


 


Ela afirma que esse contato fundamental nos coloca diante das nossas questões mais íntimas: medos, emoções, relações e escolhas que pedem revisão. “Nem sempre é fácil encarar o que incomoda”, enfatiza. “Existe o sofrimento, e naturalmente queremos evitá-lo. Queremos estar bem o tempo todo. Mas não há crescimento nem desenvolvimento sem passar por dores e dificuldades. São elas que promovem o amadurecimento. É nesse processo que começo a olhar para minhas escolhas”, complementa.


 


“É com a descida ao abismo que resgatamos os tesouros da vida. Onde você tropeçar, lá estará seu tesouro”, versou o escritor norte-americano Joseph Campbell. Psiquiatra e psicoterapeuta, Eveline Brito afirma que a “descida ao abismo” se refere simbolicamente ao encontro com os aspectos mais profundos de nosso psiquismo. “Da mesma forma que em um abismo geográfico nossos olhos não veem o fundo, no abismo simbólico nossa mente racional não entende tudo. É preciso uma qualidade de entrega à experiência sem a garantia do conhecido”, destaca.


 


“No entanto, nesses lugares inexplorados de nós mesmos, não encontramos só dor e medo. É como se o medo fosse um carcereiro que nos mantivesse em um território muito restrito da existência. Quando desafiamos isso, vamos ‘alargando’ nosso território psíquico, corporal, emocional, e enxergamos outras possibilidades de agir, de sentir, de viver. Na natureza, o inverno pode representar esse momento de recolhimento e introspecção.  As plantas perdem suas folhas e colocam mais energia em suas raízes. Pode parecer que nada está acontecendo, mas esse processo é essencial para que as plantas cresçam saudáveis na próxima estação, a primavera”, acrescenta Eveline.


 


Professora de meditação e especialista em Ayurveda, Fernanda Ester Machado nos ajuda a diferenciar um recolhimento interno consciente de um movimento de ruminação de pensamentos que apenas causa dor. “O mergulho interior saudável aprofunda a compreensão, mesmo que comece desconfortável. Ele traz clareza, organiza o sentir. Já a ruminação é repetitiva, circular e geralmente acompanhada de autocrítica. Um bom termômetro é observar o efeito: se há mais consciência e acolhimento, é um processo saudável. Se há mais tensão e julgamento, é sinal de que a mente está presa, e não elaborando.”


A visita à interioridade é uma chance de ressignificar certos “apertos no peito”


Não precisa estar frio…


 


“Durante um ano eu posso ter mais de um inverno.” Essa frase dita por Jussara durante a entrevista penetrou e flutuou pelos meus pensamentos por um bom tempo. Haja reflexão! Mas já que chegamos até aqui, vamos mergulhar de cabeça. “As pessoas que entram em estados mais reflexivos tendem a se voltar mais para si, a ficar mais quietas. De certa forma, é como se estivessem em um ‘inverno interno’. Às vezes, o que precisamos é justamente de um recolhimento que permita reflexão. ‘Estou no meu inverno’, dizemos. Um tempo de silenciar, de buscar aquilo que aquece a alma. São expressões simbólicas que usamos para nomear os momentos que atravessamos”, explica a psicóloga.


 


Eveline também reforça: “Vivenciamos esses mergulhos várias vezes na vida!” Para ela, quando nos rendemos a esse movimento, aprendemos muito sobre aspectos que parecem óbvios quando olhamos apenas superficialmente. “Podemos descobrir que várias coisas que contamos para nós mesmos não são necessariamente verdade. Pode haver outros motivos para nossas ações, mas que só percebemos quando vamos mais fundo. Apropriados desses conhecimentos, podemos fazer novos movimentos na vida de um lugar mais autêntico, que seja mais alinhado com nossos valores”, ressalta.


 


“Além disso, ao nos permitirmos sentir, nosso corpo tem mecanismos de regulação próprios para lidar com o que surgir. É como se déssemos a oportunidade ao corpo de ‘processar’ os sentimentos, de forma que não precisaremos andar por aí ‘carregando’ padrões, traumas, memórias difíceis. Pode parecer contraintuitivo, mas vivenciar verdadeiramente nossos invernos nos deixa mais leves”, complementa. Sempre há um caminho.


Formas de atravessar 


 


Voltamos à superfície. Ufa! Aquela sensação de alívio depois de um mergulho profundo no mar. De interromper a corrida após alguns quilômetros, liberando para fora o que estava guardado. De sustentar uma posição de yoga por alguns minutos, equilibrando corpo e mente. De simplesmente fazer uma pausa e refletir… Atravessamos nosso inverno, seja ele frio ou não, externo ou interno, literal ou simbólico. Compreendemos a importância de acessar e elaborar emoções. Mas, além desse mergulho intenso, existem também atitudes práticas que tornam essa estação mais leve quando tudo parece frio e solitário demais.


 


“Práticas simples e consistentes podem abrir esse espaço interno. A meditação nos ensina a observar sem reagir automaticamente. A caminhada consciente ajuda a integrar corpo e emoção, permitindo que o sentir encontre movimento. E a alimentação consciente se torna um ritual importante: ao deixar de lado telas e distrações e se conectar com o alimento, treinamos presença e reconexão”, indica Fernanda.


 


Jussara, por sua vez, ressalta que nosso “universo imagético é rico”. “Há um movimento crescente de retorno às atividades manuais, como bordado, pintura, cerâmica. Quando criamos com as mãos, não estamos presos ao celular. E, ao final, há algo concreto diante de nós, que desperta um reconhecimento. Se você foi capaz de criar isso, também é capaz de fazer muito mais por si mesmo.”


 


E lembre-se, você não está só. “Ter espaços coletivos onde possamos falar sobre nosso processo, sem julgamento, também é importante. Além de receber o apoio de outras pessoas, podemos perceber que nossas questões não são tão individuais assim, mas que fazem parte da nossa humanidade compartilhada. Isso tira o peso de acharmos que todos ao redor estão radiantes, e só nós estamos lidando com questões difíceis”, complementa Eveline.


 


Aqueça a alma com um chá em família. Sinta o calor humano. Há sabedoria nesse recolhimento que pode ser coletivo. Respeitamos nosso ritmo e acolhemos o que emerge, mesmo sem perceber, para florescer de novo. Como escreveu o filósofo Albert Camus: “No meio do inverno, eu encontrei, dentro de mim, um verão invencível.”


 


Diego Brito adora o verão com aquele sol que arde a pele. No entanto, compreende a cada novo ciclo as dores e as belezas de mergulhar internamente quando o frio chega.


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